Entrevista com Rogério de Almeida

Rogério de Almeida

Rogério de Almeida

Por Wilson Gambeta

O professor Rogério de Almeida questiona as tradicionais convicções sobre o processo educativo quando explica que o ato de desaprender é tão fundamental quanto o de aprender.

Rogério é formado em Letras, doutor em Educação e professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP). Lidera o GEIFEC (Grupo de Estudos sobre Itinerários de Formação em Educação e Cultura) e é um dos coordenadores do Lab Arte (Laboratório Experimental de Arte-Educação & Cultura).

Ele conversou com os editores do periódico Educação e Pesquisa, logo após a edição do seu mais recente artigo “Aprendizagem de desaprender: Machado de Assis e a pedagogia da escolha”, publicado no último fascículo de 2013 do periódico.

1. Qual a ideia central do artigo que acaba de publicar?

Basicamente, o artigo procura mostrar a importância de desaprender no processo formativo. Enquanto as abordagens tradicionais reduzem a atividade educacional ao aprendizado, isto é, à reprodução de uma determinada visão de mundo, previamente estabelecida, o reconhecimento do movimento contrário, de desaprender, significa que negamos determinadas concepções de mundo, problematizamos certos conhecimentos, desconfiamos de discursos e ideologias, rejeitamos determinados padrões de comportamento e conhecimento que nos são impostos. De certo modo, a educação escolar nos ensina a crer que o mundo está errado, que precisamos ser pessoas melhores, que o conhecimento científico é o único que tem valor etc. O que acontece se duvidarmos dessas ideias? Se deixarmos de crer nesses valores? Os discursos ideológicos apontam para a decadência, a distopia, o niilismo, enfim, para um mundo caótico, incontrolável e desumano. Mas há uma alternativa, que é aprovar a vida como ela é (e não como “deveria ser”), valorizar a intensidade da experiência, do instante, do vivido, compreender que o nosso mundo é o único que existe e que temos que aprender a conviver com tudo que é efêmero, limitado, pequeno e cotidiano. Portanto, é preciso escolher, aprender a escolher. E, para isso, o problema da existência é crucial. Aprovo a minha vida como ela é? É a escolha pelo trágico ou não trágico da vida que desencadeará todas as outras escolhas. Nesse sentido, escolher o trágico é afirmar que a vida vale a pena de ser vivida, mesmo diante de uma realidade desagradável. Como diz Clément Rosset, “tudo vai mal, sejamos felizes”. Porque a alegria não precisa de justificativa. É gratuita, como a vida.

2. Por que partir de Machado de Assis para pensar a educação?

Há dois pontos novos na minha abordagem de Machado de Assis. O primeiro é mostrar que ele não é um romancista cético e pessimista, mas predominantemente trágico. O segundo é considerá-lo um pensador, portanto equipará-lo aos filósofos e utilizar a visão de mundo presente em suas obras como conceitos para pensar a educação. Assim, Machado é trágico não por mostrar a contradição humana, a inconsistência moral, a efemeridade da vida, o espetáculo social, o teatro político, a vontade de poder e as desilusões amorosas, mas por aprovar que o mundo e o homem sejam assim. E como vem essa aprovação? Por meio do humor. Machado ri e nos faz rir com as mazelas e misérias humanas. Não porque goste delas, mas porque não há meio de extirpá-las. A vida quer viver apesar de tudo. Esta, creio eu, é a maior contribuição de seu pensamento, enquanto escritor, para a educação: é uma ilusão não aceitar a “fatalidade das coisas”.

3. O pensamento trágico ocupa um espaço importante nessa sua reflexão, inclusive trazendo novidade no modo como Machado de Assis é lido. O que é fundamentalmente o pensamento trágico?

A filosofia trágica é posta em cena por Nietzsche, que em Ecce Homo se intitula o primeiro pensador trágico. Na realidade, o trágico é um saber presente nos sofistas, em Lucrécio, Montaigne, Clément Rosset, mas também em parte da literatura de Fernando Pessoa, Charles Bukowski, na música de Ravel ou Manuel De Falla, no cinema de Woody Allen ou Béla Tarr. A sabedoria trágica pode ser resumida pela “ligação entre a alegria de existir e o caráter trágico da existência”, como diz Clément Rosset. Ou ainda, como escreve Nietzsche: “fórmula de afirmação máxima, da plenitude, da abundância, um dizer sim sem reservas, até mesmo ao sofrimento, à própria culpa, a tudo o que é problemático e estranho na existência”.

4. Como esse artigo se insere em sua linha de pesquisa?

Minha concepção de educação, expressa pela pedagogia da escolha, tem se alimentado, de um lado, das pesquisas sobre o pensamento trágico e, de outro, pelo imaginário artístico e cultural: literatura e cinema, dentre elas. Os homens não se resumem ao que dizem, mas principalmente se expressam pelo que fazem, ou seja, o homem é a sua obra. Nesse sentido, estudar o imaginário dessas obras é encontrar as escolhas que o homem faz na vida, isto é, seu processo formativo, seu trajeto educacional.

5. Como suas pesquisas se articulam com suas atividades docentes? Elas chegam até os alunos?

Não há muito sentido fazer pesquisa de ponta, empurrar os limites do conhecimento adiante, se os resultados não são partilhados. E os alunos são importantes interlocutores nessa construção do saber. Assim, criei uma disciplina de pós-graduação sobre a pedagogia da escolha e o imaginário trágico de Machado de Assis, para refletir sobre essas questões e disseminá-las. Na graduação, além de influenciar na própria concepção de educação construída na sala de aula, também se materializa em disciplinas optativas, que valorizam a literatura, o cinema, as artes em geral, como itinerários de formação, portanto em prol de uma educação vivida ao longo de toda a vida e não exclusivamente no interior da escola.

Para ler artigo

ALMEIDA, Rogério de. Aprendizagem de desaprender: Machado de Assis e a pedagogia da escolha. Educ. Pesqui. [online]. 2013, v.39, n.4 [citado 2013-12-17], pp. 1001-1016. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-97022013000400012&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 1517-9702. http://dx.doi.org/10.1590/S1517-97022013000400012.

Link relacionado

Educação e Pesquisahttp://www.scielo.br/ep/

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

Entrevista com Rogério de Almeida [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2013 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2013/12/31/entrevista-com-rogerio-de-almeida/

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Post Navigation