HIV/Aids associada a saúde mental, suporte familiar e adesão ao tratamento

Por Lucas de Francisco Carvalho e Ana Paula Porto Noronha

pusf_logoSegundo os autores apresentam no estudo, a síndrome da imunodeficiência adquirida (isto é, a Aids) tem um alto índice de morbidade e mortalidade. Estão registrados por volta de 92.000 novos casos e 58.000 mortes relacionadas à Aids no ano de 2009 nas Américas Central e do Sul, estimando-se aproximadamente 1,4 milhões de pessoas  com Aids nesses países, e aproximadamente um terço dessas pessoas vivem no Brasil. Ainda de acordo com os autores, no ano de 2010, 11.965 pessoas morreram de causas relacionadas à Aids no Brasil. Convida-se o leitor a conhecer a pesquisa com detalhes, o que é complementado e enriquecido com as respostas às perguntas que vem a seguir e compõem a entrevista realizada.

1. Qual a principal contribuição científica da pesquisa realizada por vocês? Comente.

A pesquisa evidencia a importância da intervenção de profissionais da equipe multi e interdisciplinar no contexto da saúde e em problemáticas relacionadas aos agravos desta, especificamente no que se refere a adesão ao tratamento e importância da saúde mental. Não cabe mais no contexto de problemáticas atuais, falarmos em intervenções centradas na figura do médico, mas sim no diálogo e intercambio entre as especialidades, visando o cuidado integral dos sujeitos.

2. Como a psicologia pode auxiliar na adesão ao tratamento antirretroviral para pessoas diagnosticadas com HIV? Aids?

Sabe-se que são diversos os aspectos psicológicos e que os transtornos mentais são frequentes em pessoas que vivem com HIV e aids, implicando em repercussões por vezes delicadas à saúde, como o comprometimento da adesão, por exemplo. Desta forma, o psicólogo pode auxiliar por meio da avaliação de aspectos psicológicos e psicossociais possivelmente associados às condutas de adesão, e intervenção precoce nesses aspectos em caso de necessidade. Por exemplo, no caso de um sujeito com hipótese de depressão, é preciso confirmar esta hipótese e verificar de que forma este diagnóstico está repercutindo na adesão. Em muitos casos como esse, cuidar da depressão pode significar cuidar também da adesão e, consequentemente, do tratamento como um todo.

3. Como vocês acham que a pesquisa realizada por vocês pode ser continuada, buscando aprofundar nesse campo de estudos no país?

A avaliação psicológica é um campo de estudos em constante crescimento no contexto da saúde, devido às inúmeras repercussões psíquicas e psiquiátricas de diversos diagnósticos clínicos à saúde mental, e pode proporcionar, dentre outras coisas, um diagnóstico clínico e situacional mais abrangente e integrador. Os resultados apresentados na pesquisa reiteram essa importância e a partir deles, faz-se necessário aprofundar em outros aspectos de saúde mental, como a investigação de prevalência de transtornos mentais específicos, e também de outros tipos de suporte social.

4. Como a população geral, com diagnóstico de HIV/Aids, deve interpretar e até mesmo utilizar os dados da pesquisa no cotidiano?

Especificamente em relação às pessoas que vivem com HIV e aids, as interpretações esperadas são relativas a importância do apoio da família e do cuidado da saúde mental. Poder revelar seu diagnóstico para a família (ou parte dela) e contar com um apoio percebido como satisfatório pode interferir positivamente no tratamento e na qualidade de vida dessas pessoas.

5. O suporte familiar tem sido devidamente considerado pela equipe médica para essa população? Comente.

Em termos de percepção da sua importância sim, pois é bastante frequente ouvirmos, principalmente nas enfermarias quando o sujeito está internado, a equipe médica perguntar se ele está recebendo visitas, com quem mora (ou reside), quem poderá auxiliar na recuperação, etc. No entanto, percebe-se que  apesar de a preocupação com este suporte estar implícita nesses questionamentos, as ações no sentido de avaliar e intervir nesse suporte ainda são predominantemente tomadas pelas equipes de psicologia e serviço social, e o contato da família com a equipe médica ainda está restrito (na maior parte das vezes) a momentos de visita clinica, em que se falam ou se comunicam sobre aspectos relativos ao diagnóstico e evolução deste. 

Para ler o artigo, acesse:

CAMARGO, Luiza Azem; CAPITAO, Cláudio Garcia; FILIPE, Elvira Maria Ventura. Saúde mental, suporte familiar e adesão ao tratamento: associações no contexto HIV/Aids. Psico-USF [online]. 2014, vol.19, n.2 [citado 2014-10-14], pp. 221-232. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-82712014000200005&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 1413-8271. http://dx.doi.org/10.1590/1413-82712014019002013.

Link relacionado:

Psico-USF – <http://www.scielo.br/pusf/>

Entrevista_PUSF_fotoLuiza Azem Camargo

Possui Graduação e Licenciatura em Psicologia pela Universidade de São Paulo (2006), Aprimoramento Profissional em Psicologia Hospitalar pelo Instituto de Infectologia Emílio Ribas (2008), Especialização em Psicoterapia Breve Psicanalítica pelo Instituto Sedes Sapientiae (2010), Mestrado em Ciências da Saúde pela Coordenadoria de Controle de Doenças da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (2012) e título de Especialista em Psicologia Hospitalar pelo CFP (2014). Tem experiência na área de Psicologia Clínica/Hospitalar e pesquisa acadêmica. Atualmente é psicóloga no SEAP HIV/Aids – DMIP HCFMUSP, no IAMSPE e em consultório particular de abordagem psicanalítica.

Cláudio Garcia Capitão

Possui graduação em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1983), Especialista em Psicologia Clínica e em Psicologia Hospitalar pelo CRPSP, Mestrado em Psicologia (Psicologia Clínica) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1993), doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (1998). Pós-Doutorado em Psicologia Clínica pela PUC-SP e estágio de Pós-Doutorado em Psicologia Hospitalar no Instituto de Infectologia Emílio Ribas e Doctor of Philosophy in Psychology (PhD) University Glendale. Membership International Association for Group Psychoterapy and Groups Processes – IAGP. Atualmente é professor associado doutor da Universidade São Francisco lecionando nos cursos de graduação e de Pós-Graduação Stricto Sensu em Psicologia. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Psicanálise, atuando principalmente nos seguintes temas: psicologia, avaliação psicológica, psicanálise, psicologia clínica, psicologia hospitalar e aids, HIV, HTLV1, HVC. Pertence ao grupo de neurociências do Instituto de Infectologia Emílio Ribas. Atualmente é membro titular do Conselho Nacional de Saúde.

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

HIV/Aids associada a saúde mental, suporte familiar e adesão ao tratamento [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2014 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2014/10/21/hivaids-associada-a-saude-mental-suporte-familiar-e-adesao-ao-tratamento/

 

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