O “descolonial” na arte feminista chicana

Ana Maria Veiga, editora de divulgação da Revista Estudos Feministas (REF), Florianópolis, SC, Brasil.

 

ref_logoO primeiro número de 2015 da Revista Estudos Feministas traz o dossiê temático “Artes visuais: diálogos com os estudos feministas, trans e queer”, organizado por Rosa Blanca. A escolha do tema do dossiê — resultado de encontros na décima edição do Seminário Internacional Fazendo Gênero, sinaliza a atualidade do interesse pela arte, mas também pela visualidade no campo dos estudos feministas e de gênero.

Dos oito artigos que compõem o dossiê, destacamos aqui o instigante “‘Do high-tech à azteca’: descolonização cronoqueer na ciberarte chicana”, de Eliana Ávila, que nos leva a uma atualização conceitual no diálogo crítico sobre o ‘descolonial’ — conceito mobilizador de teorias latino-americanas, muitas delas pensadas a partir dos Estados Unidos. A terminologia deriva dos estudos pós-coloniais e está presente em autores como o sociólogo peruano Aníbal Quijano, por sua vez criticado pela não inclusão de gênero e sexualidade em seus trabalhos.

Na 31ª Bienal, com a temática “como aprender de coisas que não existem”, que teve lugar em São Paulo no ano passado, algumas obras de arte mexicanas se apropriavam da imagem da Virgem de Guadalupe numa perspectiva queer de abordagem; entre elas encontramos o trabalho de Nahum Zenil — artista plástico que lança um desafio homoerótico às imagens sacras tradicionais.

Dentro do dossiê o artigo de Eliana Ávila apresenta essa relação a partir da arte feminista ‘chicana’ como expressão do que denomina a ‘construção pós-identitária da América Latina’. A arte de Marion Martinez ganha destaque no artigo, que se refere a Guadalupe como a ‘mestiça ciborgue’ da artista mexicana. A imagem sagrada, construída com refugo de material eletrônico, explicita o lugar da América Latina na ponta contrária do avanço tecnológico. O argumento de Ávila busca ressonâncias na imagem da ‘nova mestiça’ de Gloria Anzaldúa e na percepção do heterossexismo no colonial, de María Lugones.

Um dos pontos altos do artigo é a disseminação desse debate entre leitores e leitoras brasileiras, já que o tema abordado e a conceituação neologística (como afrofuturismo, cronoqueer, crononormatividade e heterarquia, por exemplo) que ele introduz parecem ainda manter distância de nosso espaço geopolítico de discussão. Cláudia de Lima Costa talvez seja a única autora brasileira citada por Ávila em suas referências. Então, uma questão a ser colocada — talvez um desafio — é onde estaria a nossa Guadalupe.

Se o high-tech, quando chega à periferia já se tornou obsoleto, a atualidade do debate em torno do ‘descolonial’ e suas possíveis respostas a essa tensão, como aquelas dadas pela arte, não estariam nos situando também na periferia da periferia? Podemos ler “‘Do high-tech à azteca’: descolonização cronoqueer na ciberarte chicana” com olhos de quem busca caminhos para pensar também Marias ou Nazicas — apelido dado pelos fiéis populares a Nossa Senhora de Nazaré em sua tradicional festa que acontece anualmente em Belém do Pará — e não apenas Guadalupe, suas críticas e construções.

 

Para ler os artigos, acesse 

BLANCA, R. Artes visuais: diálogos com os estudos feministas, trans e queer. Rev. Estud. Fem. [online]. 2015, vol.23, n.1, pp. 177-180. [viewed May 12th 2015]. ISSN 0104-026X. DOI: 10.1590/0104-026X2015v23n1p177. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2015000100177&lng=en&nrm=iso

AVILA, E. de S. “Do high-tech à azteca”: descolonização cronoqueer na ciberarte chicana. Rev. Estud. Fem. [online]. 2015, vol.23, n.1, pp. 191-206. [viewed May 12th 2015]. ISSN 0104-026X. DOI: 10.1590/0104-026X2015v23n1p191. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2015000100191&lng=en&nrm=iso

 

Link Externo

Revista Estudos Feministas http://www.scielo.br/ref/

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

O “descolonial” na arte feminista chicana [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2015 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2015/06/08/o-descolonial-na-arte-feminista-chicana/

 

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