Gênero e sexualidade: a “modernidade” latinoamericana

Sérgio Carrara, Editor, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Maria Gabriela Lugones, Editora, Córdoba, Argentina

sess_logoNos últimos anos, diferentes países latino-americanos assistem a candentes discussões em torno de questões como o reconhecimento jurídico das relações conjugais entre pessoas do mesmo sexo, o direito de decidir sobre o sexo/gênero a que se quer pertencer, a criminalização da homofobia, a educação em sexualidade nas escolas etc. Espaço ímpar para a reflexão sobre tais questões, Sexualidade, Saúde e Sociedade em seu primeiro número de 2015, aponta caminhos instigantes para a compreensão do processo de transformação pela qual passa a moral sexual contemporânea, sugerindo importantes pistas teóricas e resultados de investigações empíricas originais. Baseados em pesquisas situadas em na Argentina e no Brasil, os artigos de Meccia e de Oliveira & Nascimento abordam o universo da homossexualidade masculina, mostrando sua heterogeneidade e complexidade. A original reflexão de Meccia estabelece parâmetros sociológicos para pensarmos a historicidade da experiência homossexual e o processo recente que a tem transformado tão profundamente, a ponto de se tornar necessário cunhar outra categoria – a de gaycidade – para dar conta de sua singular configuração. Sua operação analítica se concentra nas narrativas sobre tal transformação, que se configuram como tramas nas quais jogam forças, pensadas pelo autor e seus interlocutores, como personagens/entidades, como no caso da (in)justiça divina, das organizações LGBTI ou do “mercado capitalista”. A partir de trabalho etnográfico realizado entre 2012-2014, na cidade de João Pessoa, o artigo de Oliveira & Nascimento procura mapear o circuito de intercâmbios erótico-sexuais entre homens que não se identificam necessariamente como homossexuais. Chamam a atenção para a fluidez de certas experiências que colocam em suspenso identidades modelares e reinventam espaços urbanos que, embora clandestinos, não escapam totalmente dos procedimentos de controle social. Debatido com muito menos intensidade do que o tema da homossexualidade, outro objeto de reflexão cercado por toda sorte de estereótipos, é a sexualidade de “pessoas com transtornos mentais”, foco da pesquisa de Barbosa, Giami & Freitas, desenvolvida no contexto de serviços de saúde mental brasileiros. Ao contrário do que poderia imaginar o senso comum, a pesquisa evidenciou mais semelhanças do que diferenças entre suas representações sobre gênero e sexualidade com as da população em geral. As especificidades se deveriam muito mais à situação de exclusão e segregação a que ainda continuam submetidas “pessoas com transtornos mentais”. Também a partir de um estudo empírico, neste caso, com mulheres entre 25 e 35 anos, pertencentes às camadas médias da cidade de Santiago, Mora Guerrero & Contreras Despott indagam sobre os significados atribuídos ao corpo feminino a partir do usopor mulheres de brinquedos sexuais (sex-toys). Revelam também as configurações paradoxais de um processo de “modernização” da sexualidade que, embora passe a centrar-se no prazer, continua, para as mulheres entrevistadas, a se legitimar em valores “tradicionais” referidos ao seu entorno social mais imediato. Além desses trabalhos de perfil mais empírico, o presente número traz duas reflexões teóricas. O artigo de Canseco percorre um trajeto analítico que parte das discussões de Judith Butler & Axel Honneth acerca do reconhecimento, para pensar um reconhecimento sexual que teria o poder de colocar os sujeitos assim reconhecidos em situações de maior exposição ao risco e à violência. Para além da originalidade da reflexão nele desenvolvida, a contribuição do texto se deve à importância crucial que as operações socioculturais e políticas implicadas na produção das representações da violência têm para diferentes feminismos e não somente para eles. Por seu lado, o artigo de Martinez revisita a genealogia do pensamento crítico que, culminando com as formulações de Judith Butler, explicita os pressupostos das categorias “corpo” e “identidade” em suas relações com a dominação masculina. Refaz nesse percurso o complexo diálogo instaurado pela emergência do feminismo-lésbico radical, articulado em torno da noção de heterossexualidade compulsória cunhada por Adrienne Rich no início dos anos 1980. Em especial, o texto enfatiza as dimensões políticas desse diálogo e expõe um marco teórico que permite refletir para além dos limites do binarismo implicado na própria noção de gênero. Enfim, temos nesse número contribuições diversas para a abordagem da configuração social e simbólica que, na América Latina, envolve corpos, sexualidades e identidades, apresentando outras possibilidades para compreender as profundas transformações que marcam o cenário contemporâneo.

Para ler os artigos, acesse:

MECCIA, E. Cambio y narración. Las transformaciones de la homosexc relatos de homosexuales mayores[]. Sex., Salud Soc. (Rio J.) [online]. 2015, n.19, pp. 11-43. [viewed 03rd July 2015]. ISSN 1984-6487. DOI: 10.1590/1984-6487. Available from: http://ref.scielo.org/dmtckg

OLIVEIRA, T.L. and NASCIMENTO, SS. Corpo aberto, rua sem saída. Cartografia da pegação em João Pessoa. Sex., Salud Soc. (Rio J.) [online]. 2015, n.19, pp. 44-66. [viewed 03rd July 2015]. ISSN 1984-6487. DOI: 10.1590/1984-6487.sess.2015.19.05.a. Available from: http://ref.scielo.org/sqnj2k

BARBOSA, J.A.G; GIAMI, A. and FREITAS, MIF. Gender and sexuality of people with mental disorders in Brazil. Sex., Salud Soc. (Rio J.) [online]. 2015, n.19, pp. 67-83. [viewed 03rd July 2015]. ISSN 1984-6487. DOI: 10.1590/1984-6487.sess.2015.19.06.a. Available from: http://ref.scielo.org/dg6krd

GUERRERO, G.M.M. and DESPOTT, CGC. Sexualidad(es) y colectividad. La vigilancia y el juzgamiento social como mecanismos de producción corporal. Sex., Salud Soc. (Rio J.) [online]. 2015, n.19, pp. 84-101. [viewed 03rd July 2015]. ISSN 1984-6487. DOI: 10.1590/1984-6487.sess.2015.19.07.a. Available from: http://ref.scielo.org/hkxfk4

MARTINEZ, A. La identidad sexual en clave lesbiana. Tensiones político-conceptuales: desde el feminismo radical hasta Judith Butler[]. Sex., Salud Soc. (Rio J.)[online]. 2015, n.19, pp. 102-132. [viewed 03rd July 2015]. ISSN 1984-6487. DOI: 10.1590/1984-6487.sess.2015.19.08.a. Available from: http://ref.scielo.org/844n3q

CANSECO, A.E.F. Reconocer la violencia. Sex., Salud Soc. (Rio J.) [online]. 2015, n.19, pp. 133-148. [viewed 03rd July 2015]. ISSN 1984-6487. DOI: 10.1590/1984-6487.sess.2015.19.09.a. Available from: http://ref.scielo.org/znrg7m

Link externo:

http://www.scielo.br/sess/

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

CARRARA, S., and LUGONES, M.G. Gênero e sexualidade: a “modernidade” latinoamericana [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2015 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2015/07/21/genero-e-sexualidade-a-modernidade-latinoamericana/

 

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