Professoras trans e os desafios da sala de aula

ref_logoAna Maria Veiga, editora de notícias da Revista Estudos Feministas (REF), Florianópolis, SC, Brasil

A Revista Estudos Feministas (REF, volume 23, número 2), aborda a inserção de travestis, transexuais e transgêneros no magistério em todo o Brasil e explora as perspectivas abertas para se pensar a temática da diversidade no cotidiano da escola.

Com o título “Professoras trans brasileiras em seu processo de escolarização”, Neil Franco e Graça Cicillini oferecem ao público a leitura sobre uma temática atual, de forma original, abordando a situação dessas educadoras em âmbito nacional.

É nos anos 2010 que vemos surgir mais marcadamente alunas e alunos trans nos bancos das universidades, em busca de crescimento pessoal e de carreiras profissionais que antes pareciam inviáveis, devido ao preconceito e ao pré-estabelecimento de papéis e lugares sociais. A heteronormatividade tradicionalmente delimita não apenas regras sociais, mas também lugares, espaços a serem ou não habitados por seres indefinidos para os padrões hegemônicos, pessoas abjetas. Algumas questões talvez possam ampliar para fora do texto o diálogo que os autores trazem com o artigo.

1. Depois de terem suas vidas escolares marcadas por enfrentamentos e resistência, com colegas e professores, como essas professoras lidam com o preconceito por parte dos alunos, dentro da sala de aula? Isso aparece nas entrevistas?

As professoras, todas elas, ressaltam que o preconceito por parte de alunos/as é sensivelmente restrito comparado ao vivenciado por colegas de trabalho, coordenação e direção das escolas. Narram que há um primeiro impacto – estranhamento – com a presença da professora trans na escola, mas que, ao conhecerem suas histórias e a partir do estabelecimento das relações entre eles/as, esse preconceito se dilui. São os/as alunos/as na escola, segundo elas, que mais respeitam o uso do nome social, por exemplo, e que mantêm uma proximidade afetuosa e consistente. Isso nos tem muito a ensinar, em especial, como já expressado por autores/as da área, que a homofobia e a transfobia são doenças contagiosas transmitidas pela pessoa adulta, principalmente.

2. Raramente encontramos o debate sobre essa temática que vocês trazem no artigo. Entre as professoras trans, há uma produção acadêmica partindo delas mesmas? Lidam com isso também de maneira teórica?

Sim, entre as professoras que colaboraram com o estudo, duas concluíram o mestrado em educação discutindo a relação universo trans-escola. Uma dessas professoras se inseriu no doutorado em Psicologia no estado de São Paulo recentemente e pretende prosseguir com a discussão. Identificamos em nossas buscas sobre a temática uma tese de doutorado em educação defendida na Universidade Federal do Ceará por uma professora trans. No capítulo teórico da tese, encontramos um estado da arte sobre a temática do universo trans e a educação em que esses estudos são mencionados.

3. O senso comum entende o Nordeste brasileiro como uma região onde a violência de gênero é bastante marcada. A parte empírica do artigo de vocês foi realizada em Aracajú, Sergipe. Podemos entender que o Nordeste se mostra mais aberto a esse tipo de discussão na atualidade? Como vocês percebem a questão regional, já que tiveram o cuidado de entrevistar pessoas de todas as regiões do Brasil?

Não podemos afirmar que o Nordeste se mostra mais aberto a esse tipo de discussão. Sergipe, em especial, é uma região de vanguarda na discussão dos direitos LGBT. Isso, possivelmente, nos permitiu encontrar duas professoras trans naquela região, e que estavam vinculadas ao movimento social organizado. A tese da professora do Ceará confirma isso que pensamos. Comparado às regiões Sudeste e Sul, encontramos dificuldades em localizar essas professoras. Na região Norte foi ainda mais difícil. Buscamos alguns integrantes do movimento organizado LGBT da região norte e não tinham conhecimento de professoras trans naquela região. Somente localizamos uma professora, e que não atuava mais em sala de aula. Tivemos acesso a ela em Aracaju no Entlaids realizado em 2010. Tivemos recentemente informação sobre uma professora trans que atua na Universidade Federal do Tocantins, contudo, ainda não estabelecemos contato.

4. Estão planejando uma continuidade da pesquisa? Que lacunas ficam abertas depois dela?

Várias lacunas foram identificadas após a realização da pesquisa. As questões referentes às regiões Nordeste e Norte seria uma delas. Estariam esses sujeitos invisibilizados pelas precárias condições socioeconômicas que são evidentes nessas regiões? Ou, por outro lado, essas pessoas são realmente excluídas de forma brutal do contexto escolar? Verificar a presença de professores trans masculinos na escola é outra lacuna, uma vez que indícios da existência desses sujeitos foram evidenciados no Primeiro Encontro da Rede Trans Educ Brasil realizado em 2011 na Universidade Federal de Minas Gerais.

Sobre a continuidade da pesquisa, a lacuna que mais nos instiga é traçar diferentes olhares sobre a presença de alunas/os trans na escola. Dedicar nossa atenção sobre como essas pessoas são percebidas nos parece bastante relevante para o campo investigativo, mesmo que algumas pesquisas já estejam se dedicando a essa questão. O viés que pretendemos abordar está ainda em construção.

Para ler o artigo, acesse:

FRANCO, N., and  CICILLINI, G.A. Professoras trans brasileiras em seu processo de escolarização. Rev. Estud. Fem. [online]. 2015, vol.23, n.2, pp. 325-346. [viewed 28th July 2015]. ISSN 0104-026X. DOI: 10.1590/0104-026X2015v23n2p325. Available from: http://ref.scielo.org/nzcnts

Mini currículo dos autores:

Graça Aparecida Cicillini gacicillini@gmail.com. Graduada em Ciências Biológicas pela Faculdade Ciências e Letras de Ribeirão Preto / USP (1971) e em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras Barão de Mauá (1979). Doutora em Metodologia de Ensino pela Universidade Estadual de Campinas (1997). Pós-doutorado em Educação na Fundação Carlos Chagas/SP (2012). É Professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Uberlândia, atuando no Curso de Pedagogia e no Programa de Pós-Graduação em Educação. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Métodos e Técnicas de Ensino.

Neil Franco neilfranco010@hotmail.com. Graduado em Licenciatura Plena em Educação Física (1994), Mestre (2009) e Doutor em Educação (2014) pela Universidade Federal de Uberlândia. Professor Adjunto da Universidade Federal do Mato Grosso, Campus Universitário do Araguaia, curso de Licenciatura em Educação Física. Atua nas disciplinas Dança, Natação, Métodos e Técnicas de Pesquisa, Sociologia do Esporte e Estagio Supervisionando. Coordena e atua em projetos de pesquisa e extensão nas áreas de dança, ginástica, gênero e sexualidades.

Link externo:

http://www.scielo.br/ref

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

VEIGA, A.M. Professoras trans e os desafios da sala de aula [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2015 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2015/07/31/professoras-trans-e-os-desafios-da-sala-de-aula/

 

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