Importante passo na compreensão de Thorstein Veblen

Felipe Almeida, Professor do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Econômico da Universidade Federal do Paraná (PPGDE/UFPR), Curitiba, Paraná, Brasil

neco_logoO Prof. Marco Cavalieri, em seu artigo intitulado “Thorstein Veblen entre os seus pares economistas: um estudo sobre a audiência e a estrutura argumentativa de sua crítica sistemática ao pensamento econômico” – publicado na Revista Nova Economia, volume 25, número 1, 2015 – estuda a interação de Veblen com os economistas estadunidenses de seu tempo. Esse artigo ilumina um importante, mas pouco analisado, debate: Veblen foi um economista excluído ou possuía contato acadêmico com os economistas de seu tempo? Cavalieri desmistifica o senso comum argumentando que Veblen não foi um excluído.

Para Cavalieri, Veblen utilizou o argumento retórico “reinvenção da tradição” para gerar um link com a audiência desejada, a economia acadêmica. Como destacado no texto, “‘reinventar a tradição’ consiste em ‘recortar o passado de forma a reivindicar para si uma tradição de pensamento e isolar o oponente como fruto de um desvio da tradição’” (Arida, 1983, p. 42). No artigo é enfatizado que Veblen gerou uma conexão com a academia econômica ao analisar a evolução da ciência econômica em duas fases, a saber: o pré-evolucionismo e o pós-evolucionismo.

O autor destaca que Veblen produziu uma “crítica sistemática ao pensamento econômico”. Para Veblen, abordagens darwinistas significavam a modernidade científica e a ciência econômica encontrava-se em uma fase pré-evolucionária, teleológica e cientificamente atrasada. O texto destaca que o cerne da crítica vebleniana à ciência econômica pré-evolucionária se pauta no seu repouso sobre lógicas animistas (mais arcaicas). O artigo categoriza filosoficamente o hábito de pensamento animista como seguidor da lógica da razão eficiente, e o hábito prosaico (mais moderno) como associado à causa eficiente. O texto destaca que, ao realizar essa aproximação filosófica, Veblen é capaz de construir sua crítica baseada na ênfase em um ambiente epistêmico pré-evolucionário que pertenceu aos “grandes mestres do passado”, não mais aplicável a uma ciência moderna.

O artigo analisa os escritos de Veblen sobre a economia clássica, utilitarismo e marginalismo sob a perspectiva da dicotomia animista-prosaico – baseando-se no momento histórico e evolução industrial, política e cultural. Também é analisada a interpretação de Veblen sobre a influência da filosofia de Jeremy Bentham sobre os clássicos e o surgimento do utilitarismo. A última abordagem não foi capaz de fazer a transição para um método pós-evolucionário – embora Neville Keynes e Marshall tivessem flertado com elementos pós-evolucionários. Já em consideração ao marginalismo, o texto é enfático quanto ao anacronismo científico da abordagem. O artigo enfatiza que, de acordo com Veblen, os marginalistas representam um desvio na trajetória da ciência econômica para o pós-evolucionismo. O artigo também enfatiza que, para Veblen, a fase mais moderna da Escola Histórica Alemã caminhou em direção ao pós-evolucionismo, com destaque para Gustav Schmoller. O mesmo é enfatizado para os escritos de marxistas do final do século XIX. No entanto, o artigo destaca que tanto a geração mais antiga da Escola Histórica Alemã quanto os escritos de Karl Marx são marcados pelo hegelianismo, “uma concepção filosófica marcadamente teleológica” e produtos de seu tempo, logo pré-evolucionários.

O texto não repousa somente na conexão com a audiência para evidenciar a proximidade de Veblen com pares acadêmicos. Outra evidência apresentada é a revista na qual seus artigos críticos foram publicados, o Quarterly Journal of Economics. Cavalieri destaca que leitores e autores de artigos publicados em tal revista representavam a comunidade acadêmica em economia em formação. Além disso, quando Veblen publica seus textos no Quarterly Journal of Economics, o editor da revista é Frank Taussig, um simpatizante da teoria que Veblen criticava. Mais uma evidência pode ser encontrada no início da vida acadêmica de Veblen: suas atividades acadêmicas tiveram início na Universidade de Chicago a convite de James Laughlin. Laughlin também era um simpatizante da abordagem econômica criticada por Veblen. Adicionalmente, o Prof. Cavalieri destaca que, diferente de Veblen, os opositores da economia tradicional defendiam uma lógica que carregava consigo um forte cunho religioso. Veblen era conhecido por ser antirreligioso e seus trabalhos não se pautavam em reformas sociais como defendido pela corrente de cunho religioso. Dessa forma, Veblen se afastava de propostas reformistas radicais e ao mesmo tempo adotava uma postura científica. Isso pode tê-lo aproximado de pares como Taussig e Laughlin.

Por fim, é válido destacar que o texto enfatiza um ponto essencial para a compreensão de quem foi Thorstein Veblen. De acordo com a análise do Prof. Cavalieri, Veblen teve contato com o cerne da economia acadêmica do final do século XIX e início do século XX. Essa análise contraria o senso comum dos estudos sobre Veblen, que analisam o institucionalista como um estranho à economia acadêmica. Adicionalmente, o artigo esclarece que Veblen clamava para que a ciência econômica enveredasse por uma trajetória rumo ao pós-evolucionismo, que era interpretado por Veblen como a modernidade científica.

Para ler o artigo, acesse:

CAVALIERI, M. A. R. Thorstein Veblen entre seus pares economistas: um estudo sobre a audiência e a estrutura argumentativa de sua crítica sistemática ao pensamento econômico. Nova econ.[online]. 2015, vol.25, n.1, pp. 11-34. [viewed 10th October 2015]. ISSN 1980-5381. DOI: 10.1590/0103-6351/1746. Available from: http://ref.scielo.org/y6thdw

Referência bibliográfica:

ARIDA, P. A História do Pensamento Econômico como teoria e retórica. Texto para Discussão no 54. Departamento de Economia PUC/RJ, 1983.

Link externo:

Revista Nova Economia – http://www.scielo.br/neco

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

ALMEIDA, F. Importante passo na compreensão de Thorstein Veblen [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2015 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2015/10/26/importante-passo-na-compreensao-de-thorstein-veblen/

 

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