Teoria e prática na formação profissional: recusando escolhas banais

Angélica Ferreira Fonseca, Doutora em Saúde Pública, professora-pesquisadora e editora científica da Trabalho, Educação e Saúde, da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Angélica Ferreira Fonseca

Angélica Ferreira Fonseca

Nesta entrevista, a professora-pesquisadora Ingrid D’avilla Freire Pereira, da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, da Fundação Oswaldo Cruz (EPSJV/Fiocruz), discorre sobre o artigo “Princípios pedagógicos e relações entre teoria e prática na formação de agentes comunitários de saúde”, publicado na segunda edição de 2016 do periódico Trabalho, Educação e Saúde (volume 14, número 2). Ingrid Pereira possui graduação em Nutrição pela Universidade Federal da Paraíba, Residência Multiprofissional em Saúde Coletiva pela Universidade de Pernambuco e Mestrado em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, onde atualmente cursa o Doutorado em Saúde Pública. Desenvolve pesquisas no campo da Saúde Coletiva, especialmente sobre Políticas de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, Educação Profissional em Saúde e Desigualdades Sociais e Saúde.  O artigo foi escrito em coautoria com Marcia Raposo Lopes, Mariana Lima Nogueira  e Helifrancis Condé Groppo Ruela, professores-pesquisadores da EPSJV. O texto apresenta reflexões de um estudo sobre os desafios de um trabalho pedagógico crítico, enfatizando a discussão sobre o papel de preceptores na integração entre prática profissional, teoria e técnica na formação de agentes comunitários de saúde (ACSs).

1. Vocês apontam no artigo que a relação teoria-prática constitui um dos maiores desafios para a formação crítica em saúde. De que forma você percebe esta dualidade na formação técnica?

Os desafios da relação teoria-prática mobilizam os educadores desde a origem da Escola. Os modelos de formação mais tradicionais possuem uma concepção de educação distante do “mundo do trabalho”. Por outro lado, as reformas curriculares mais recentes propõem que a educação fique demasiadamente envolvida pelas demandas e características do “mercado de trabalho”. No caso dos cursos técnicos, devemos considerar que os processos formativos voltados para a classe trabalhadora objetivam a reprodução da força de trabalho como mercadoria, fundamentando-se em demandas e atributos exigidos pelo mercado de trabalho. As escolas que atuam com base em propostas político-pedagógicas com esses objetivos ratificam a dualidade entre teoria e prática. Não podemos perder de vista que a associação entre trabalho e escola é permeada por contradições e pela luta de classes.

 

2.Segundo as referências apontadas no artigo, a formação técnica dos ACSs é uma realidade restrita a poucos estados e municípios brasileiros. Considerando a historicidade e a relevância desta categoria profissional para o SUS, que dilemas envolvem o reconhecimento da necessidade de formação técnica para esses trabalhadores?

Lamentavelmente, somente alguns estados e municípios concluíram turmas do curso de formação técnica dos ACSs, tais como os estados de Tocantins e Acre e os municípios de Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ) e Gravataí (RS). Nem sempre essas experiências contemplaram a totalidade dos agentes comunitários de saúde que atuavam nesses territórios. Há várias disputas para a realização da formação técnica dos Agentes. Desde o argumento da possibilidade da formação fragilizar o seu perfil comunitário e identidade com o saber popular, passando pela institucionalização do cargo de técnico e sua inerente incorporação salarial. Este último argumento foi frequentemente discutido no Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems). Além destas questões há também o problema histórico do financiamento, já que o Ministério da Saúde financia apenas a primeira etapa (que é de 400h).

 

3. Como apontado no artigo, uma das principais vertentes da formação técnica do ACS tem sido a adoção da modalidade concentração/dispersão nos currículos. Por que vocês avaliam que esta lógica preserva e fortalece a ideia da formação para reprodução dos procedimentos apreendidos ao longo da experiência profissional?

Do ponto de vista pedagógico, poderíamos questionar em que medida esse modo de estruturação do ensino – que separa os momentos teóricos dos momentos práticos – poderia contribuir para a ênfase nos conhecimentos práticos que tem caracterizado a atuação dos técnicos em saúde. Esse tipo de arranjo fragilizaria a ideia de que a sala de aula pode ser o espaço para a reflexão sobre o cotidiano? Reforçaria o processo da dualidade estrutural que marca as distinções entre a formação de trabalhadores manuais e intelectuais?

Além da opção pela dissociação entre as atividades de ‘concentração’ e ‘dispersão’, ressalte-se o fato de que, em geral, os momentos de dispersão têm carga horária igual ou mesmo superior à dos momentos de ‘concentração’. Dentre as razões para essa distribuição de carga horária, encontram-se argumentos estruturais, como a dificuldade de os gestores considerarem os horários de formação como parte da jornada semanal dos agentes, ou mesmo a falta de estrutura das escolas para ofertar um curso com uma carga horária maior nas salas de aula (espaço físico, contratação e pagamento dos docentes etc.).A relação entre teoria e prática, quando analisada com base em experiências cuja organização curricular tende a valorizar os momentos de dispersão em detrimento dos momentos de concentração, pode indicar a ênfase do ensino em serviço subsidiada pelo pragmatismo, ainda presente na formação profissional em saúde.

 

4. Mas diante destes desafios, quais as possibilidades que vocês têm explorado na experiência do CTACS na EPSJV/Fiocruz?

Reconhecemos a necessidade da profissionalização, qualificação profissional e formação dos agentes, bem como a crítica ao conteudismo educacional frequente nos processos formativos da área da saúde. Porém, do nosso ponto de vista, a necessidade de aproximação entre a escola e o mundo do trabalho pode ser realizada de forma crítica, a partir de estratégias como a preceptoria e as práticas profissionais que analisamos mais extensamente no artigo.

Para ler o artigo, acesse

PEREIRA, I. D. F., LOPES, M. R., NOGUEIRA, M. L. and RUELA, H. C. G. Princípios pedagógicos e relações entre teoria e prática na formação de agentes comunitários de saúde. Trab. educ. saúde [online]. 2016, vol.14, n.2, pp.377-397. [viewed 17th June 2016]. ISSN 1678-1007. DOI: 10.1590/1981-7746-sol00010. Available from: http://ref.scielo.org/sdd5sd

Link externo

Trabalho, Educação e Saúde – TES: www.scielo.br/tes

Sobre Angélica Ferreira Fonseca

Angélica Ferreira Fonseca

Angélica Ferreira Fonseca

Angélica Ferreira Fonseca é sanitarista, mestre e doutora em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz). Professora-pesquisadora da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, da Fundação Oswaldo Cruz (EPSJV/Fiocruz), é atualmente coordenadora do periódico Trabalho, Educação e Saúde, na qual atua também como editora científica desde a sua criação em 2003. Tem experiência em educação em saúde, pesquisa e ensino de políticas de saúde e desenvolvimento de material didático, além de atuar nos temas: políticas de saúde, modelos de atenção em saúde, saúde da família, formação em saúde e avaliação em saúde. E-mail: afonseca@fiocruz.br

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

FONSECA, A. F. Teoria e prática na formação profissional: recusando escolhas banais [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2016 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2016/07/01/teoria-e-pratica-na-formacao-profissional-recusando-escolhas-banais/

 

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