Como a mídia influenciou na construção de uma nova identidade do Brasil?

Juan Julian, aluno da graduação do curso de Relações Internacionais da PUC-Rio e Ensino e Tutoria (PET) da PUC-Rio, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Vitória Lopes, aluna da graduação do curso de Relações Internacionais da PUC-Rio e participante do Programa de Tutoria de Ensino e Pesquisa (TEPP), e Ensino e Tutoria (PET) da PUC-Rio, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Rafael Mesquita

Rafael Mesquita

Marcelo A Medeiros

Marcelo de Almeida Medeiros

Marcelo de Almeida Medeiros possui Graduação em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE (1989), Mestrado em Ciência Política pelo Institut d’Etudes Politiques de Grenoble (1993), Doutorado em Ciência Política também pelo Institut d’Etudes Politiques de Grenoble (1997) e Livre-docência em Ciência Política pelo Instituto d’Etudes Politiques de Paris – Sciences Po (2010). Atualmente é professor Associado IV de Ciência Política do Departamento de Ciência Política – DCP/UFPE. Marcelo de Almeida tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Política Internacional e em Sistemas Governamentais Comparados, atuando principalmente nos seguintes temas: Mercosul, Política Externa Brasileira, União Europeia, Política Externa Francesa, Instituições, Governança e Democracia. Já Rafael Mesquita é mestre em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco e pesquisador do Núcleo de Estudos de Política Comparada e Relações Internacionais (NEPI). Suas publicações em periódicos internacionais incluem os artigos “From Tegucigalpa To Teheran: Brazil’s diplomacy as an emerging Western Power” e “Contradições identitárias do Brasil emergente: uma análise dos discursos do Estado e da Imprensa”.

A mídia é uma ferramenta que não busca apenas garantir a propagação de informações e a comunicação entre indivíduos, mas é também capaz de exercer influência sob a forma como o leitor pensa e age. A mídia, assim, tem poder para legitimar ou não um determinado discurso governamental, uma vez que a forma como a informação é divulgada impactará na formação da opinião da população em geral. Dessa forma, pode-se afirmar que os jornais, por exemplo, são atores relevantes na construção da identidade nacional.

Partindo dessa ideia, Rafael Mesquita e Marcelo de Almeida Medeiros, no artigo “Legitimising Emerging Power Diplomacy: an Analysis of Government and Media Discourses on Brazilian Foreign Policy under Lula”, publicado no primeiro semestre de 2016 na Contexto Internacional, analisam declarações oficiais e notícias veiculadas pela imprensa sobre o papel de liderança do Brasil na operação de paz das Nações Unidas no Haiti (MINUSTAH) em 2004 e do acordo nuclear, assinado pelo Brasil em 2010 com o Irã e Turquia a fim de compreender como a política externa brasileira, sob o comando do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do então Ministro de Relações Exteriores Celso Amorim, produziu e legitimou a construção de uma nova identidade para o país.

Ao comparar o discurso oficial com os proferidos pela mídia, percebe-se a instrumentalização desses discursos pelo governo como forma de consolidar uma nova identidade para o país, isto é, de potência em ascensão.

Essa nova identidade brasileira reflete uma busca do governo Lula de fortalecer as relações Sul-Sul, ter um melhor balanceamento nas relações com o Norte e de enfatizar uma política multilateral. Além disso, a partir da análise desses discursos, percebe-se o esforço do governo brasileiro de ocupar um espaço de proeminência em questões de escopo global ao buscar atuar em diferentes áreas da política internacional. Assim, diferentemente de boa parte da literatura produzida no âmbito das reflexões sobre política externa brasileira, ao adotar uma abordagem construtivista, os autores articulam discursos da mídia nacional e internacional como forma de discutir o sucesso – ou falha – desse empreendimento marcante da Era Lula.

Na entrevista abaixo, concedida aos alunos Juan Julian e Vitória Lopes do curso de graduação de Relações Internacionais da PUC-Rio, os autores focam, a partir da análise das narrativas construídas pela mídia, em questões particulares, como na relação entre a identidade brasileira e a busca por um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, nos diferentes fatores de criação de uma identidade brasileira construída a partir da política externa brasileira durante o mandato do presidente Lula e ao longo do governo Dilma, e, finalmente, em como o atual processo de impedimento da Presidente Rousseff impacta na construção da identidade brasileira.

1. De que modo o discurso oficial brasileiro poderia ser diferente a fim de conquistar maior apoio da mídia na busca por um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU?

Notamos que a receptividade ao discurso brasileiro sobre a reforma do Conselho e ascensão a um assento permanente variou entre periódicos de acordo com sua ideologia e, talvez principalmente, interesse nacional. Periódicos estrangeiros se mostraram mais receptivos em geral quando seu país não tinha seus interesses imediatos contrariados pela diplomacia brasileira. Como nossa sociedade carece de uma definição palpável e amplamente compartilhada do que seja o interesse nacional (e, portanto, se seria do interesse do Brasil ou não ocupar um assento permanente), a interpretação dos jornais brasileiros foi feita segundo os pressupostos ideológicos de cada veículo. Ao comparar nossos achados com o de outras pesquisas, somos levados a crer que um apoio mais uníssono ao projeto de reforma só emergirá quando essa mudança for entendida mais inequivocamente como parte do interesse nacional. Essa percepção, não obstante, pode depender mais de outras circunstâncias conjunturais do que apenas da capacidade persuasiva do discurso diplomático.

 

2. Amado Cervo e Antônio Carlos Lessa em seu artigo “O declínio: inserção internacional do Brasil (2011-2014)”, caracterizam a política externa do governo Dilma como declinante, incapaz de manter o processo de construção da identidade do Brasil como potência emergente. Os senhores concordam com essa afirmação?

É importante frisar dois aspectos da identidade: primeiro, ela é em parte nossas atitudes, e em parte o que os outros pensam delas; segundo, ela leva tempo para ser construída. O governo Dilma, por uma série de fatores internos e externos, não pode dar continuidade ao ativismo diplomático que se viu nas eras Fernando Henrique Cardoso e, principalmente, Luiz Inácio Lula da Silva. Essa descontinuidade certamente compromete a solidificação da identidade de potência que se esboçava e convida a reativação de narrativas concorrentes.

 

3. A partir da discussão presente na pergunta anterior, gostaríamos de saber, qual é, na opinião dos autores, a relação desse declínio em potencial com o processo de atualização de identidade realizado na Era Lula?

Muitos dos temas que Lula e Amorim mobilizaram em sua caracterização do Brasil como uma potência tiveram uma vida mais curta do que o esperado: o modelo econômico neodesenvolvimentista, louvado por ter abrigado o pais da crise financeira de 2008, deu lugar a ajustes neoliberais, e a imagem de uma economia pujante também se desfez com os rebaixamentos em série pelas agências de investimento a partir de 2015. Foi muita irônica e simbólica, no que tange a desconstrução da identidade do Brasil, a última Copa do Mundo. Trazê-la ao país, junto com as Olimpíadas, foi uma grande comenda do status que o Brasil teve na era Lula. Mas o que era para ser uma demonstração de prestígio acabou se tornando uma derrota humilhante, e precisamente no futebol, que é um símbolo tão central na identidade brasileira.

No plano externo, por sua vez, há uma tendência à reafirmação do “status quo ante”: foram as grandes potências que concluíram o acordo nuclear com o Irã, sem participação de emergentes, e o discurso reivindicando maior democratização do Conselho de Segurança também perdeu espaço face à recrudescência do terrorismo islâmico, crises migratórias e volta em cena da política de grandes poderes e do “hard power”.

 

4. No corrente processo de impedimento do mandato da presidenta Dilma Roussef, percebemos a difusão de muitas narrativas apontando para a desqualificação do processo, como a publicada no dia 14 de maio pelo NY Times¹, que compara o Congresso com um circo. Qual é o impacto desses discursos críticos à política doméstica no processo de construção de uma identidade brasileira capaz de capitanear as reformas no sistema internacional?

A referida reportagem foca mais no perfil dos legisladores brasileiros, marcado por suspeitas sistemáticas de envolvimento em prática de corrupção de toda ordem, e nas deficiências do arranjo partidário e eleitoral vigentes, do que na desqualificação do processo de impeachment. O processo de impedimento, contudo, traz à tona muitas dinâmicas peculiares sobre as representações do Brasil e nossa relação com interlocutores estrangeiros. Vemos novamente zelos muito grandes quanto à intepretação que os grandes jornais têm sobre nosso país. Pode-se destacar que um dos efeitos mais imediatos da cobertura negativa que o episódio tem recebido é que o Brasil perde a capacidade de “liderar pelo exemplo”. O país apresentou-se consistentemente na década passada como um referencial político-econômico a ser seguido pelos demais estados de sua região e do Sul Global. Os desdobramentos recentes em Brasília certamente constroem uma imagem bem menos admirável do país.

¹ Disponível em: http://goo.gl/uG8PKI

Para ler os artigos, acesse

MESQUITA, R. and ALMEIDA MEDEIROS, M. Legitimising Emerging Power Diplomacy: an Analysis of Government and Media Discourses on Brazilian Foreign Policy under Lula. Contexto int. [online]. 2016, vol.38, n.1, pp.385-432. [viewed 9th September 2016]. ISSN 0102-8529. DOI: 10.1590/S0102-8529.2016380100011. Available from: http://ref.scielo.org/vkrqqx

CERVO, A. L. and LESSA, A. C. O declínio: inserção internacional do Brasil (2011-2014). Rev. bras. polít. int. [online]. 2014, vol.57, n.2, pp.133-151. [viewed 9th September 2016]. ISSN 0102-8529. DOI: 10.1590/0034-7329201400308. Available from: http://ref.scielo.org/g3r8v2

Links externos

Contexto Internacional – CINT: www.scielo.br/cint

Legitimising Emerging Power Diplomacy: an Analysis of Government and Media Discourses on Brazilian Foreign Policy under Lula –  http://goo.gl/GgsZ3B

Sobre Juan Julian

Juan Julian

Juan Julian

Juan Julian é aluno do quinto período da graduação do Instituto de Relações Internacionais PUC-Rio e bolsista do programa PET do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio, cuja pesquisa é guiada pelo projeto intitulado “Brasil Global: desafios da inserção internacional brasileira em um mundo em transformação”. Contato: contextointernacional@puc-rio.br

Sobre Vitória Lopes

Vitoria Lopes

Vitória Lopes

Vitória Lopes é aluna do quinto período da graduação do Instituto de Relações Internacionais PUC-Rio e bolsista do programa TEPP/PET do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio, cuja pesquisa é guiada pelo projeto intitulado “Brasil Global: desafios da inserção internacional brasileira em um mundo em transformação”. Contato: contextointernacional@puc-rio.br

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

JULIAN, J. and LOPES, V. Como a mídia influenciou na construção de uma nova identidade do Brasil? [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2016 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2016/09/19/como-a-midia-influenciou-na-construcao-de-uma-nova-identidade-do-brasil/

 

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