“Ideologia de gênero”: índice de um fenômeno político transnacional

Regina Facchini, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu e editora do cadernos pagu, Campinas, SP, Brasil

Carolina Parreiras, pós-doutoranda do Departamento de Antropologia da USP, São Paulo, SP, Brasil

Mónica Cornejo-Valle e José Ignacio Pichardo Galán, antropólogos e professores da Universidad Complutense de Madrid, analisaram as origens da expressão “ideologia”, seus usos desde a década passada na Espanha e seu impacto atual sobre a legislação relativa a direitos sexuais e reprodutivos, em diálogo com os usos e impactos em países europeus e latino-americanos. O artigo La “ideología de género” frente a los derechos sexuales y reproductivos: el escenario español, publicado no número 50 do cadernos pagu, além de convergir com análises recentes acerca de relações entre religiões e esfera pública em contextos de avanço de conservadorismos, indica como o menor prestígio social da Igreja Católica na Espanha, motivada pelo tipo de ação em períodos ditatoriais, e a baixa adesão da população a orientações de cunho comportamental e moral vindas da hierarquia católica podem ser chaves explicativas para o insucesso até o momento em fazer retroceder a legislação relativa a direitos sexuais e reprodutivos no país.

Os materiais e métodos mobilizados pelos autores incluem: análise de documentos — literatura confessional, discursos públicos e documentos produzidos por autoridades da Igreja Católica e material de mídias; análise de dados estatísticos sobre adesão religiosa e adesão a valores religiosos; bem como literatura e pesquisas dos autores sobre a relação entre Igreja e Estado em âmbito local, sobre direitos sexuais e reprodutivos e sobre o manejo da categoria “ideologia de gênero” em âmbito internacional.

O artigo contextualiza historicamente a relação entre Igreja Católica e Estado na Espanha e o processo de avanço de agendas em favor de direitos sexuais e reprodutivos no país, bem como as reações a tais mudanças. Os autores investem, ainda, em situar as origens e sentidos da expressão “ideologia de gênero” a partir da análise de literatura confessional e de documentos ou manifestações de autoridades religiosas. E analisam de modo detido os usos de tal expressão e de vocabulário acusatório em contextos de conflito entre ativistas anti-direitos, em maioria religiosos, e ativistas feministas e LGBT a partir dos anos 2000.

Contudo, como salientam os autores, a mobilização acusatória da expressão “ideologia de gênero” indica algo novo no cenário político internacional no que diz respeito aos direitos sexuais e reprodutivos e conflitos envolvendo direitos de modo mais amplo. Trata-se de uma reação, após algumas décadas de avanços na igualdade de gênero e nos direitos sexuais e reprodutivos, que se estende por uma grande quantidade de países nas Américas e na Europa, e que ao contrário de formas de resistência anteriores, não se restringe a um caráter local.

É, segundo os autores, um “fenômeno transnacional”, “bem organizado por partidos conservadores e lobbies a partir de uma retórica criada no âmbito da Igreja Católica (e posteriormente compartilhada por outras igrejas)” e, conforme também indicam outros artigos publicados no mesmo número da revista, inclui outros elementos além do uso da expressão acusatória “ideologia de gênero” e de outras como “cultura da morte”. Estes e outros autores relatam a evocação da ciência e o manejo de argumentos oriundos do campo científico, especialmente das ciências médicas e biológicas e do direito, e a elaboração de um repertório de linguagem e de símbolos visuais que deslocam e invertem o sentido de categorias chave cunhadas no campo ativista e/ou científico no contexto reivindicatório de direitos de igualdade para mulheres e direitos fundamentais para LGBT.

Cornejo e Pichardo tomam o caso espanhol como um “laboratório social” da utilização de estratégias de mobilização política baseadas no discurso da “ideologia gênero” contra direitos sexuais e reprodutivos, que posteriormente se difundiram, com ampla repercussão midiática, por países europeus e latino-americanos. O caso é interessante, sobretudo pelo fato da Espanha ter sido palco de avanços significativos na legislação em temas sensíveis como o casamento homossexual e o aborto. O baixo sucesso em fazer retroceder os avanços legislativos na agenda de direitos, em relação ao que se observa em outros países, propicia a reflexão sobre as particularidades históricas e culturais que ajudem a compreender o processo local o fenômeno em âmbito internacional.

O artigo acrescenta contribuições analíticas e empíricas a vários temas relacionados aos estudos de gênero, sobre religião e esfera pública, cultura e política e movimentos sociais, entre outros. Para um primeiro debate a respeito, convidamos Horacio Sívori e Vanessa Jorge Leite, pesquisadores do Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos e do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que têm conduzido pesquisas sobre políticas sexuais, conservadorismo e religião e sobre políticas de educação e diversidade sexual e de gênero, respectivamente.

No vídeo a seguir, nossos convidados colocam em diálogo suas pesquisas recentes (LEITE, 2014; CARVALHO; SÍVORI, 2017) e mobilizam a literatura com a qual têm dialogado, refletindo comparativamente sobre aspectos empíricos e analíticos do artigo de Cornejo e Pichardo.

O debate foi precedido pelo envio, por Regina Facchini, do artigo e de algumas questões aos convidados. A coordenação do debate, captação de imagens e edição do vídeo foram feitas por Carolina Parreiras (pós-doutoranda do Departamento de Antropologia Social da USP).

Referências

LEITE, V. J. “Impróprio para menores”? Adolescentes e diversidade sexual e de gênero nas políticas públicas contemporâneas. 2014. Tese (Doutorado em Saúde Coletiva) – Instituto de Medicina Social, Universidade Estadual do Rio de Janeiro, 2014. Disponível em: http://www.bdtd.uerj.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=7182. Acesso em: 07 jun. 2017.

CORNEJO, M., PICHARDO, J. I. From the pulpit to the streets. In: PATERNOTTE D., KUHAR R. (Ed.). Anti-gender campaigns in europe. Mobilizing against equality. Maryland, Rowman & Littlefield, 2017.

Para ler o artigo, acesse

CORNEJO-VALLE, M. and  PICHARDO, J. I. La “ideología de género” frente a los derechos sexuales y reproductivos. El escenario español. Cad. Pagu [online]. 2017, n.50, 175009. [viewed 21 July 2017]. ISSN 1809-4449. DOI: 10.1590/18094449201700500009. Available from: http://ref.scielo.org/vvjhtm

Link externo

cadernos pagu – CPA: www.scielo.br/cpa

Sobre Regina Facchini

Regina Facchini

Regina Facchini

Regina Facchini é doutora em Ciências Sociais (Unicamp), pesquisadora do Núcleo de Estudos do Gênero Pagu, professora dos programas de pós-graduação em Antropologia Social e em Ciências Sociais da Unicamp. Atualmente é editora do cadernos pagu e diretora regional sudeste da Associação Brasileira de Antropologia (ABA). Pesquisa sobre gênero e sexualidade em suas articulações com movimentos sociais, violência, saúde, políticas públicas e produção de conhecimento científico. Campinas, São Paulo, Brasil.

Sobre Carolina Parreiras

Carolina Parreiras

Carolina Parreiras

Carolina Parreiras é doutora em Ciências Sociais (Unicamp), pós-doutoranda do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP). Pesquisa sobre gênero e sexualidade em suas articulações com ciberespaço; etnografia; antropologia urbana; violência. São Paulo, SP, Brasil.

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

FACCHINI, R. and PARREIRAS, C. “Ideologia de gênero”: índice de um fenômeno político transnacional [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2017 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2017/06/28/ideologia-de-genero-indice-de-um-fenomeno-politico-transnacional/

 

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