Bakhtinianos brasileiros históricos em Bakhtiniana

Maria Helena Cruz Pistori, Editora associada de Bakhtiniana, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), São Paulo, SP, Brasil

A bem articulada relação entre ensino, pesquisa e extensão marca a trajetória de Beth Brait, Carlos Alberto Faraco e Irene Machado, três professores e pesquisadores brasileiros que, sem dúvida, colaboraram e ainda colaboram efetivamente para a formação profissional responsável de estudantes e professores da área de Letras e Comunicação. Na realidade, são grandemente responsáveis pela disseminação do pensamento bakhtiniano no Brasil, orientando pesquisas, escrevendo livros e artigos, dando aulas e organizando congressos e conferências, sempre numa relação interessada e afetiva.

O artigo “A emergência, nas fronteiras entre língua e literatura, de uma perspectiva dialógica de linguagem”, trata de um tema bastante caro à pesquisadora: a relação existente entre língua e literatura, estudos linguísticos e estudos literários, ao longo do pensamento bakhtiniano, de modo a articular-se diretamente às questões do dialogismo. Lembra Brait que, “sem a polaridade que caracteriza essas áreas na atualidade, os estudos literários, linguísticos e filosóficos apresentam-se como dimensões que se articulam e se interpenetram, singularizando o pensamento bakhtiniano de forma geral” (2017, p. 8).

Em “Bakhtin e filosofias”, Faraco propõe uma discussão das relações do pensamento de Mikhail Bakhtin com correntes da filosofia moderna, partindo de seus primeiros textos, que têm a axiologia e não a ontologia como fundamento: destaca neles as elaborações éticas e estéticas, as propostas para uma filosofia da cultura e a defesa do primado da intersubjetividade: “Ser responsavelmente participante é realizar sua singularidade não para si, mas na relação com o outro” (FARACO, 2017, p. 52).

Em “Forma espacial da personagem como acontecimento estético cronotopicamente configurado”, a autora apresenta-nos um profundo estudo acerca do lugar do espaço na construção conceitual do dialogismo bakhtiniano, fundamentada nos conceitos de cronotopo e na forma espacial da personagem tal como construídos na criação verbal de Dostoiévski, segundo Mikhail Bakhtin. Propõe-se, enfim, a “examinar o movimento e a articulação de artérias que desenham a linha evolutiva das concepções do dialogismo” (MACHADO, 2017, p. 82).

Há ainda dois outros artigos na perspectiva bakhtiniana: de Adriana Delmira Mendes Polato e Renilson José Menegassi (UEM), “O estilo verbal como o lugar dialógico e pluridiscursivo das relações sociais: um estatuto dialógico para a análise linguística”, e de Ana Paula Santana e Karoline Pimentel dos Santos (UFSC), “A perspectiva sócio-histórica como método de análise da linguagem na clínica fonoaudiológica”.

Mas diferentes linhas teóricas dos estudos do discurso também se encontram no número. Entre elas, destaca-se fortemente a análise de discurso francesa, com artigos baseados nas reflexões teóricas de Foucault, Althusser, Pêcheux e outros. Eliana Lijterman, da Universidad de Buenos Aires – UBA, trata das tensões e desafios da ADF no exame do discurso e seu exterior, em “Problemas de fronteira: reflexões sobre a relação entre o discursivo e o extradiscursivo na Análise do Discurso Francesa”; Leslie Alejandra Colima (Universidad de Santiago de Chile) e Diego Alejandro Cabezas Bravo (Universidad Metropolitana de las Ciencias de la Educación, Chile) trazem uma análise do discurso político do rap no contexto chileno, em “Análise do rap social como discurso político de resistência”. No Brasil, Marco Antonio Calil Machado (USP) examina a personagem literária Gregório de Matos em textos de livros didáticos, histórias da literatura brasileira e ensaios recentes, no artigo “Gregório(s) de Matos: padrões de representá-lo(s) e ordens do discurso”; e, finalmente, Sírio Possenti (UNICAMP) trata de sua especialidade — o humor, apresentando-nos discursos que funcionam como fonte de preconceito em “Discurso transverso em piadas de corintiano”. Francisco Aquinei Timóteo Queirós e Francielle Maria Modesto Mendes (UFAC), em outra vertente teórica, publicam “Construção cena a cena: a narrativa jornalística como mosaico lítero-factual em Chico Mendes: crime e castigo”, de Zuenir Ventura.

A resenha da nova tradução e organização de textos de “Os gêneros do discurso”, de Mikhail Bakhtin, realizada por Paulo Bezerra, com Notas da edição russa por Sergei Botcharov.

Em suma, Bakhtiniana continua dialogando de forma ampla e responsável com seu tempo, respondendo às investigações em curso na área dos estudos do discurso, por meio de diferentes linhas teóricas. Convidamos a todos, pois, à leitura deste novo número.

Para ler os artigos, acesse

BRAIT, B. A emergência, nas fronteiras entre língua e literatura, de uma perspectiva dialógica de linguagem. Bakhtiniana, Rev. Estud. Discurso [online]. 2017, vol.12, n.2, pp.5-23, ISSN 2176-4573 [viewed 14 August 2017]. DOI: 10.1590/2176-457331725. Available from: http://ref.scielo.org/c525xj

FARACO, C. A. Bakhtin e filosofias. Bakhtiniana, Rev. Estud. Discurso [online]. 2017, vol.12, n.2, pp.45-56, ISSN 2176-4573 [viewed 14 August 2017]. DOI: 10.1590/2176-457331815. Available from: http://ref.scielo.org/r4hdzg

MACHADO, I. Forma espacial da personagem como acontecimento estético cronotopicamente configurado. Bakhtiniana, Rev. Estud. Discurso [online]. 2017, vol.12, n.2, pp.79-105, ISSN 2176-4573 [viewed 14 August 2017]. DOI: 10.1590/2176-457331736. Available from: http://ref.scielo.org/rympcb

Links externos

Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso – BAK: www.scielo.br/bak

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

PISTORI, M. H. C. Bakhtinianos brasileiros históricos em Bakhtiniana [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2017 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2017/08/23/bakhtinianos-brasileiros-historicos-em-bakhtiniana/

 

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