Formação profissional na saúde em disputa

Paulo Guanaes, jornalista, editor executivo da Trabalho, Educação e Saúde, da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Trabalho, Educação e Saúde (v. 16, n. 2), periódico científico editado pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, da Fiocruz, aborda em seu editorial escrito por Mariana Nogueira e Ieda da Costa Barbosa, professoras-pesquisadoras da Instituição, a formação profissional de agentes comunitários em saúde, que vem sendo objeto de disputa desde a institucionalização deste trabalho no SUS. Em janeiro deste ano, o Ministério da Saúde criou o Programa de Formação Técnica em Enfermagem para Agentes de Saúde, o PROFAGS, que institui financiamento federal às instituições de ensino, inclusive para estabelecimentos privados como possíveis postulantes à verba a ser disponibilizada. Segundo as autoras, “Estas disputas integram a dinâmica da produção da política de saúde que, sendo produto da luta de classes, não é isenta dos interesses dos trabalhadores, que reivindicam a universalidade do direito à saúde e à educação; e dos interesses empresariais, que historicamente usufruem do fundo público e tratam a saúde e a educação como mercadorias reafirmando a luta de classes existente” (NOGUEIRA, 2017, p. 393).

O número é composto por um ensaio e 19 artigos com temas relevantes para o setor saúde em geral e para o campo da Educação Profissional em Saúde, em particular.

No artigo “Trabalho e estranhamento: a determinação social da saúde em assentamentos”, os autores Paulo Victor Rodrigues de Azevedo Lira e cobaloradores buscaram compreender como se organiza o processo de trabalho (ANTUNES, 2011) do campesinato em dois assentamentos influenciados por lógicas distintas — a do agronegócio e a da agroecologia — e, a partir dessa relação, como ocorre o estranhamento do trabalho e seus impactos na saúde dos assentados. O estudo foi realizado entre os meses de janeiro e maio de 2016, em dois assentamentos da Região Metropolitana do Recife.

“O lugar da militância na construção da educação em saúde: análise com base em uma política regional de educação permanente”, artigo de autoria de Maria Raquel Pilar Steyer e Marco André Cadoná, apresenta uma análise sobre a importância da militância na construção de uma política pública regional de educação permanente (PAIM, 2008). Ao tomar como referência a atuação política de participantes da Comissão de Integração Ensino-Serviço, numa região no Rio Grande do Sul, a análise dá atenção ao espaço político que os participantes da Comissão ocupam não somente na articulação política, mas, também, na própria execução de ações relacionadas à educação permanente em saúde na região pesquisada.

Em “Regimes de flexibilização e sentidos do trabalho para docentes de ensino superior em instituições públicas e privadas”, artigo de Anelise D’Arisbo et al., os autores objetivaram compreender o sentido do trabalho para o docente de ensino superior em instituições públicas e privadas em seus diversos regimes de flexibilização do trabalho, com base na identificação de elementos da racionalidade instrumental e subjetiva (ANDRADE, TOLFO; DELLAGNELO, 2012). A coleta de dados contou com fontes múltiplas, tais como a análise documental das instituições e dos contratos de trabalho dos docentes, a observação direta e as entrevistas realizadas presencialmente. Como resultado, percebeu-se que há preponderância do sentido laboral substantivo sobre o sentido instrumental; a flexibilização altera a percepção da atuação individual e interfere no seu sentido; e a vida é arranjada a partir da organização do trabalho flexibilizado.

Completam a edição o ensaio “Medicalização, desmedicalização, políticas públicas e democracia sob o capitalismo”, de Paulo Frazão e Marcia Minakawa, ambos da Faculdade de Saúde Pública da USP, que discute a expansão da influência da medicina sobre problemas sociais e questões morais (FOUCAULT, 1977), e mais 16 artigos que divulgam os resultados de pesquisas originais, entre eles Teatro do Oprimido e promoção da saúde: tecendo diálogos, de César Paro e Neide Silva, sobre as contribuições do Teatro do Oprimido na promoção da saúde (BOAL, 1979). Entre outros temas, os leitores encontrarão textos sobre concepções de saúde na pauta de reivindicações de professores da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, atenção primária em saúde, saúde mental, formação de agentes comunitários de saúde, processo de elaboração de material educativo na temática das drogas e formação em práticas integrativas e complementares em saúde.

Referências

ANDRADE, S. P. C., TOLFO, S. R. and DELLAGNELO, E. H. L. Sentidos do trabalho e racionalidades instrumental e substantiva: interfaces entre a administração e a psicologia. Rev. adm. contemp. [online]. 2012, vol.16, n.2, pp.200-216. ISSN 1415-6555. [viewed 14 August 2018]. DOI: 10.1590/S1415-65552012000200003. Available from: http://ref.scielo.org/zv4538

ANTUNES, R. L. C. Adeus ao trabalho?: ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade no mundo do trabalho. 15. ed. São Paulo: Cortez, 2011.

BOAL, A. Técnicas latino-americanas de teatro popular: uma revolução copernicana ao contrário. São Paulo: Hucitec, 1979.

FOUCAULT, M. Historia de la medicalización. Educación Médica y Salud, v. 11, n. 1, p. 3-25, 1977.

NOGUEIRA, M. L. O processo histórico da Confederação Nacional dos agentes comunitários de saúde: trabalho, educação e consciência política coletiva. 2017. 541 f. Tese (Doutorado em Políticas Públicas e Formação Humana) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2017.

PAIM, J. S. A reforma sanitária brasileira e o Sistema Único de Saúde: dialogando com hipóteses concorrentes. Physis [online]. 2008, vol.18, n.4, pp.625-644. ISSN 1415-6555. [viewed 14 August 2018]. DOI: 10.1590/S0103-73312008000400003. Available from: http://ref.scielo.org/q6jtbw

Para ler os artigos, acesse

Trab. educ. saúde vol.16 no.2 Rio de Janeiro May/Aug. 2018

Link externo

Trabalho, Educação e Saúde – TES: www.scielo.br/tes

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

GUANAES, P. Formação profissional na saúde em disputa [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2018 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2018/08/14/formacao-profissional-na-saude-em-disputa/

 

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