Movimento feminista na Primeira República: transformações e permanências ao longo do último século – Entrevista com Alcileide Cabral

Ana Maria Veiga, Professora de História da Universidade Federal da Paraíba, editora de divulgação da Revista Estudos Feministas (REF)/UFSC; editora da Saeculum – Revista de História/PPGH – UFPB, João Pessoa, PB, Brasil

Alcileide Cabral

Alcileide Cabral

Alcileide Cabral do Nascimento, ou simplesmente Alcileide Cabral, como é conhecida no meio acadêmico, é professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco, localizada em Recife. Ela é hoje uma das referências nos estudos feministas e de gênero não apenas na região Nordeste, mas em todo o Brasil. Com trabalhos voltados para o lugar das mulheres na política e sua luta por equidade, Alcileide Cabral organiza a Seção Temática “Movimentos feministas na Primeira República”, atualizando os debates travados por autoras como June Hahner (2003), Mônica Karawejczyk (2013) e Céli Pinto (2003), lembrando que as conquistas feministas não terminam, assim como não são silenciadas suas reivindicações, um século depois.

Em entrevista concedida a Ana Maria Veiga, pela Revista Estudos Feministas, Alcileide nos fala sobre a importância de se voltar a esse passado para que seja compreendida a situação das mulheres hoje, no nosso presente.

1. Qual é a riqueza em se conhecer as histórias do período da Primeira República no Brasil para se compreender os rumos dos movimentos feministas nos dias atuais?

Acredito que a primeira questão é ter referências das lutas das mulheres. Quando estudamos a Primeira República, de forma geral, a historiografia não toca no debate feminista e nem na luta das mulheres para as políticas de inclusão que a democracia prometia. As mulheres denunciaram as injustiças do sistema e lutaram muito para aprimorar a democracia. Por exemplo, a historiografia silencia o quanto os movimentos feministas foram importantes para a legislação trabalhista de 1932, com Vargas, porque pautaram isso em suas lutas, não apenas o fizerem os movimentos sindicais e operários. Outro ponto é a contribuição para a ampliação do sistema democrático. As mulheres foram fundamentais para ampliação da noção de direito e de cidadania.  Em 1932, quando tiveram acesso ao voto, somavam aí mais de trinta anos de luta, com muitas derrotas pelo caminho. O terceiro ponto: os Movimentos feministas liberal e anarquista questionam as fronteiras entre o espaço público e o privado, e as mulheres não aceitaram o confinamento ao lar. Então, esse debate parece ser um paradigma dos anos de 1960, mas já estava sendo colocado em outros termos na Primeira República: direitos políticos iguais, direito a salários iguais, direito aos empregos públicos, direito a fazer concurso público, direito à ingressar nas universidades, etc. Cada pauta questionava e fazia confrontar os significados entre público e privado e as enormes diferenças entre os sexos. Isso nos conecta ao debate atual.

Há uma outra questão: a cultura política feminista. Acho que temos aí um dado novo sobre o modo de agir das mulheres e como elas vão constituindo uma visão de mundo e uma prática política peculiar que precisa ser melhor estudada. Nesse período, várias feministas adotam a estética da mulher moderna: cabelos curtos, vestidos nos joelhos, maquiagem… o corpo da mulher feminista é também um corpo político que anuncia o seu novo lugar. Acho que esse é outro ponto de encontro com o feminismo contemporâneo.

A crítica a ser feita é sobre o sujeito de direito feminino. Essa percepção de injustiça na qual as mulheres estavam não significou uma articulação e nem solidariedade de classe ou racial. O movimento feminista mais exitoso, o liberal, é mesmo feito por mulheres de famílias ricas, brancas, privilegiadas, com diploma e recursos. Assim, esse sujeito de direito feminino que vai sendo construído na luta é também “universal”, encobrindo a diversidade e as diferentes injustiças que pesavam sobre as mulheres pobres, de cor, índias, negras, enfim.

2. Podemos dizer que nós vivemos de avanços e retrocessos quando o assunto é o direito das mulheres?

Acredito hoje, vivendo nesse contexto de golpe que nos encontramos, que todos nós perdemos quando a democracia é colocada em xeque! Todavia, os direitos das mulheres são mais atingidos em momentos de crise política e econômica e somos as primeiras a perder no recrudescimento da democracia. Talvez tenhamos que radicalizar ainda mais nossas pautas e lutar por uma democracia feminista!   

3. O que mudou e o que permanece desde lá?

Eu apontaria duas mudanças significativas, entre tantas outras. Hoje entendemos o feminismo na sua diversidade de fala, de lugares, de raça, religião, de pertencimentos múltiplos e de desessencialização, a exemplo da força do feminismo negro, indígena, quilombola, lésbico, trans, etc. Como nos enriquecemos e nos empoderamos nessa diversidade!

Também vivemos com intensidade e radicalidade o debate sobre a exploração do trabalho doméstico das mulheres pelos homens. O privado é politizado em várias dimensões. Isso é uma mudança significativa. É um ganho promissor para o presente.

Mas há muitas permanências. Conquistamos o direito ao voto, mas a política partidária ainda é terreno árido para as mulheres e domínio dos homens. A violência de gênero continua assombrosa… lá e cá! Apesar de todo o debate, ainda temos uma cultura machista que coloca o homem em lugar de superioridade em relação às mulheres e que produz e reproduz as profundas desigualdades entre os gêneros. Uma cultura heteronormativa intolerante e violenta com as pessoas LGBTIs que sonham, amam e vivem de tantas outras formas belas.

Mas a luta continua, companheiras.

Referências

HAHNER, June E. Emancipação do sexo feminino. A luta pelos direitos da mulher no Brasil, 1850-1940. Florianópolis:  Mulheres; Santa Cruz do Sul: Edunisc, 2003.

KARAWEJCZYK, Mônica. As filhas de Eva querem votar: os primórdios da questão à conquista do sufrágio feminino no Brasil (1850‒1932). 2013 Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2013.

PINTO, Céli Regina Jardim. Uma história do feminismo no Brasil. São Paulo: Perseu Abramo, 2003.

Para ler os artigos, acesse

Rev. Estud. Fem. vol.26 no.2 Florianópolis  2018

Link externo

Revista Estudos Feministas – REF: www.scielo.br/ref

Sobre Ana Maria Veiga

Ana Maria Veiga

Ana Maria Veiga

Ana Maria Veiga é doutora em história pela Universidade Federal de Santa Catarina, com pós-doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas. É professora do Departamento de História da Universidade Federal da Paraíba. Suas áreas de interesse são teoria da história, história visual, história da arte, imagem, cinema, estudos de gênero, estudos pós/decoloniais, história do Brasil e da América Latina. É editora da revista Saeculum (PPGH/UFPB) e editora de divulgação da REF. Foi coordenadora de programação do 13o Mundos de Mulheres e Fazendo Gênero 11. E-mail: anaveiga.ufpb@gmail.com

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

VEIGA, A. M. Movimento feminista na Primeira República: transformações e permanências ao longo do último século – Entrevista com Alcileide Cabral [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2018 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2018/08/23/movimento-feminista-na-primeira-republica-transformacoes-e-permanencias-ao-longo-do-ultimo-seculo-entrevista-com-alcileide-cabral/

 

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