A sexualidade na prevenção biomédica do HIV

Bárbara Daniel, Mestre em Divulgação Científica e Cultural, bolsista Fapesp de Jornalismo Científico (Labjor/Unicamp), Campinas, SP, Brasil.

Logo do periódico Saúde e SociedadePublicado na edição 34 (no. 3) de 2025 do periódico Saúde e Sociedade, o dossiê Prevenção biomédica do HIV e sexualidade: mediações e coproduções de corpos, prazeres e tecnologias reúne pesquisas que deslocam o foco de análise da funcionalidade dos métodos biomédicos para uma questão de natureza mais complexa, que abrange as articulações deste modelo de cuidado com a vida social e a subjetividade de seus usuários. Organizado por Simone Monteiro e Mauro Brigeiro (ambos da Fiocruz), o material foi a peça central das atividades da revista para o Dezembro Vermelho, colocando o debate crítico sobre o tratamento e a prevenção do Vírus da imunodeficiência humana (HIV)/Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (aids) em primeiro plano junto aos leitores.

Em entrevista concedida ao periódico, os organizadores destacam que o dossiê deriva de estudos no campo das ciências sociais e da saúde coletiva sobre as transformações recentes nas respostas à epidemia, marcadas pela estratégia do “tratamento como prevenção”, e pela oferta das Profilaxias Pré e Pós Exposição (PrEP e PEP). A iniciativa da coletânea se ancora ainda na abordagem crítica da sexualidade, e dos estudos sociais da ciência e da tecnologia. O dossiê representa uma contribuição para compreender a produção, distribuição e uso das tecnologias biomédicas enquanto práticas indissociáveis e reorganizadoras das lógicas da vida social.

Propostas e Metodologias

O editorial Prevenção biomédica do HIV e sexualidade: mediações entre corpos, tecnologias e cuidados de si, do referido dossiê, parte de uma constatação importante: a sexualidade vem sendo cada vez menos tomada como objeto central nas respostas contemporâneas ao HIV, enquanto as tecnologias preventivas seguem pouco discutidas em sua inter-relação com prazeres, desejos, moralidades e estigmas. De acordo com o artigo de abertura, é daí que nascem as provocações que atravessam a coletânea: o que se diz (ou se silencia) sobre a sexualidade quando tecnologias como a PEP e a PrEP são tomadas como estratégias prioritárias? Como as moralidades sexuais e as desigualdades interferem na oferta e no uso dos medicamentos? E em que medida esses recursos reproduzem ou reduzem estigmas? (MONTEIRO, BRIGEIRO, 2025).

Mauro Brigeiro: “[…] as tecnologias biomédicas de prevenção ao HIV integram a arquitetura da vida social contemporânea. Ao serem propostas pelos especialistas e consolidadas nas políticas de saúde e na vida dos sujeitos, passam a expressar novos modos de entender a própria vida, de regular as existências coletivas, as interações sociais e modelar a subjetividade, temas de primeira ordem para a pesquisa social. A emergência de tecnologias biomédicas e seus efeitos, conectam-se às moralidades e valores sociais em um espaço e tempo social. Nesse sentido, este dossiê buscou reunir trabalhos capazes de promover um debate acerca dos aspectos estruturais e simbólicos que sustentam a hegemonia atual da biomedicina nas formas de entender e lidar com o HIV e seus efeitos na sexualidade, seja no plano das práticas institucionais, das relações sociais, da subjetividade, entre outros.”

O dossiê combina abordagens histórico-sociais, socioantropológicas e de análise de comunicação digital, olhando tanto para macroprocessos (mudanças de paradigma e governança global) quanto para experiências situadas (uso de PEP/PrEP por públicos específicos, moralidades no trabalho sexual e pedagogias de autocuidado em redes sociais). Para além, enquanto conjunto, os artigos descrevem como intervenções biomédicas são distribuídas e apropriadas de forma desigual nos espaços sociais, e debatem como isso pode ampliar ou reduzir a “potência para agir” de grupos atravessados por marcadores de gênero, sexualidade, raça e classe.

Os artigos e suas reflexões centrais

A construção social da prevenção biomédica do HIV

Em A construção social da prevenção biomédica do HIV, Richard Parker (Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS/Columbia University) e Carla Pereira (Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS) propõem uma genealogia das estratégias de prevenção biomédica para problematizar a própria categoria, frequentemente tratada como neutra. As autorias analisam tal política de cuidado como uma questão da contemporaneidade, e resgatam sua opacidade histórica ao destacarem a associação deliberada entre especialistas, gestores e a indústria em busca da construção de um consenso técnico (PARKER, PEREIRA, 2025).

De forma complementar, o texto discute ainda a influência da hegemonia da abordagem biomédica sobre o poder – tanto político-econômico quanto de caráter foucaultiano –, sobre as decisões institucionais e sobre o lugar das comunidades afetadas nos debates do assunto. Neste sentido, o “calcanhar de Aquiles” dos esforços no combate e prevenção da doença aparece na forma da submissão das chamadas “populações de risco” à lugares de objeto de pesquisa (ibid., p. 14).

Comentando sobre o trabalho, Simone Monteiro sintetiza: “[…] entender criticamente a prevenção biomédica exige considerar como ela se entrelaça com questões relativas ao capitalismo globalizado, com as formas de controle político de corpos e populações e com os modos contemporâneos de definir quais são as vidas que merecem viver.”

O artigo ressalta, portanto, a necessidade de se reconhecer estes públicos como sujeitos da experiência e centro político-subjetivo da resposta coletiva à questão.

Sexualidade remediada: os significados das profilaxias

No artigo Sexualidade remediada: os significados das profilaxias pós e pré-exposição ao HIV, os organizadores do dossiê exploram como a PEP e a PrEP, para além de ferramentas de prevenção ao HIV, funcionam enquanto conciliadoras das ansiedades, moralidades e dos regimes contemporâneos de autocuidado (BRIGEIRO, MONTEIRO, 2025). A partir de uma pesquisa socioantropológica em formato de entrevista com homens homossexuais na região metropolitana do Rio de Janeiro, as autorias ilustram como essas tecnologias funcionam enquanto recursos de “remediação” do risco biomédico e, simultaneamente, dos “medos, fantasmas e imponderáveis” das interações sexuais (ibid., p. 11).

Os relatos de usuários evidenciam diferenças semânticas e práticas entre PEP e PrEP. Se a PEP aparece principalmente como uma forma de “correr atrás do prejuízo”, a PrEP figura enquanto decisão racional de antecipação do risco, autocuidado e, muitas vezes, como ferramenta de ampliação do prazer e da liberdade sexual (ibid., p. 9). Ao mesmo tempo, a partir da análise das entrevistas, Brigeiro e Monteiro tensionam como esse cenário pode reforçar a autovigilância sanitária e a racionalização do erotismo, com efeitos desiguais em contextos socioculturais distintos.

 

 

“Evita, mas não elimina”: estigma e o uso das profilaxias no contexto do trabalho sexual

O artigo Evita, mas não elimina: estigma e o uso das profilaxias pré-exposição e pós-exposição sexual no contexto do trabalho sexual entre mulheres cisgênero de São Paulo de Isa Sorrentino (FMUSP), Laura Murray (NEPP-DH/UFRJ) e Marcia Thereza Couto (FMUSP) investiga experiências de trabalhadoras sexuais cisgênero que acessam tecnologias preventivas no Sistema Único de Saúde (SUS) em São Paulo, analisando como moralidades sexuais e estigmas atravessam e por muitas vezes impedem o cuidado. O estudo se baseia em entrevistas do Estudo Combina!, uma das primeiras pesquisas voltadas à implementação das políticas públicas de distribuição de PEP, PrEP e autoteste de HIV no SUS (SORRENTINO, MURRAY, COUTO, 2025).

No texto, as autoras discutem como as tecnologias podem proteger, mas não necessariamente eliminam discriminações e violências simbólicas no cotidiano dos serviços, sobretudo quando o trabalho sexual é lido a partir de regimes morais que hierarquizam corpos e práticas (ibid.). Em entrevista à comunicação científica da Saúde e Sociedade, Mauro Brigeiro pontua:

Mauro Brigeiro: “Tendo por base entrevistas com trabalhadoras sexuais cisgênero, usuárias dessas profilaxias, as autoras mostram que o uso dessas tecnologias aparece relacionado à procura por maior autonomia no autocuidado. No entanto, essa busca visa efetivamente lidar com os estigmas e as desigualdades de poder a que estão sujeitas nas práticas com seus clientes. De acordo com os relatos, a camisinha é o recurso de prevenção mais usado pelas entrevistadas em seu trabalho, mas a negociação com os clientes é uma complexa tarefa […]. As autoras argumentam que o interesse pela PrEP ou a PEP diz respeito a uma prática de autocuidado, porém não expressa uma maior autonomia em suas escolhas preventivas; predomina a percepção de que elas devem contornar individualmente os problemas enfrentados no trabalho sexual. Mesmo reconhecendo a importância dessas profilaxias para o controle da epidemia, uma vez que elas representam a possibilidade de adaptar esses recursos às múltiplas realidades, as autoras levantam uma crítica importante. Defendem a necessidade de retomar o debate sobre direitos humanos nas ações de prevenção, e que sejam considerados os saberes e práticas das comunidades afetadas pelo HIV. Desse modo, será possível romper com a fragmentação e hierarquização entre os fatores estruturais, comportamentais e biomédicos referidos nos modelos de prevenção.”

“PrEP = Autonomia”: comunicação para prevenção ao HIV entre jovens na lógica da racionalidade neoliberal

Kris Herik de Oliveira (FMUSP), André Luiz Machado das Neves (ESA/UEA) e Fernando Seffner (FACED/UFRGS) estudam a comunicação digital sobre PrEP a partir de um perfil no Instagram, usando análise temática de conteúdo em diálogo com bibliografia crítica, com o objetivo de compreender como a “virada biomédica” se articula a uma racionalidade neoliberal nesta questão (OLIVEIRA, NEVES, SEFFNER, 2025). Em conversa com a revista, a organizadora do dossiê, Simone Monteiro, usa o artigo justamente para explicar essa relação de ideias:

Simone Monteiro: “Ao acionar o conceito de neoliberalização da prevenção, proposto originalmente por Richard Parker e Fernando Seffner, os autores assinalam como as estratégias preventivas baseadas no uso de medicamentos reconfiguram práticas de cuidado, promovendo uma espécie de racionalidade empreendedora. Ou seja, incentivam que os sujeitos se tornem empreendedores de si mesmos, responsáveis pela administração de seus corpos e do exercício de uma sexualidade livre de riscos à saúde. Trata-se de um tipo de autocuidado que exige cálculos racionais e investimentos em si, conformados por ideias e tecnologias das ciências biomédicas, visando ganhos que se mesclam no plano da saúde, dos prazeres e da sexualidade. Se antes o foco estava em estratégias baseadas no diálogo e nas negociações – como oficinas de sexo seguro, promoção do preservativo, campanhas de educação sexual, debate sobre estigma, equidade de gênero e direitos – hoje as abordagens preventivas privilegiam o manejo do autocuidado, a autogestão dos riscos de exposição ao vírus por meio de consumo de medicamentos ou outros recursos biomédicos. Segundo os autores, tal lógica é potencializada por meio das plataformas digitais.”

Os resultados de Oliveira, Neves e Seffner apontam tensões: por um lado, a prevenção aparece como recurso de autocuidado individualizado, com o sujeito como “empreendedor de si”, promovendo um deslocamento de responsabilidades coletivas. Por outro, a comunicação por pares e estratégias de linguagem (avatares, perguntas e respostas, “currículo de autocuidado”) podem produzir ambientes acolhedores, com ressignificação e pedagogia dos prazeres, especialmente para jovens atravessados por desigualdades estruturais. De forma crítica, mas não descartando as potencialidades tanto do tratamento biomédico quanto da comunicação digital, o trabalho finaliza pontuando que “a adesão à PrEP não deve ser reduzida a um simples ato de consumo medicamentoso, mas como parte de trajetórias de cuidado que situam o sujeito no interior de pedagogias do gênero e da sexualidade, pedagogias do cuidado, jogos de poder e dinâmicas de reconhecimento.” (OLIVEIRA, NEVES, SEFFNER, 2025, p. 14).

O conjunto da obra

Ao abordar genealogia, trabalho de campo sócio-antropológico e análise de comunicação, o dossiê desloca a prevenção biomédica do campo da neutralidade e da naturalidade, caracterizando-a como um processo sócio-histórico-cultural, fruto de disputas simbólicas e materiais e inserido de forma política em territórios que contam com lógicas distintas de moralidade, desigualdade e autonomia. Neste sentido, os achados convergem para uma mesma conclusão prática: toda tecnologia preventiva é também uma tecnologia social, com efeitos sobre subjetividades, relações e políticas de vida.

Isso não significa negar, e todos os textos deixam isso claro, os avanços trazidos pelas estratégias e tecnologias biomédicas. Antes, pelo contrário, o gesto empreendido pela organização do dossiê e por seus desenvolvedores visa complexificar a questão indicando as razões para sua forte presença no mundo contemporâneo. Tal como ressaltado por Mauro Brigeiro e Simone Monteiro em entrevista à revista, ao se consolidarem nas políticas e no cotidiano dos sujeitos, tecnologias como PEP e PrEP são interessantes de serem analisadas pois “passam a expressar novos modos de entender a própria vida” e de “regular as existências coletivas”.

A reflexão final do trabalho orbita a noção de que, neste contexto, recuperar a sexualidade enquanto problema analítico e político, não apenas como uma “variável” ou uma “barreira” adicional, é um movimento necessário à Saúde Coletiva e às Ciências Sociais. Pesquisar as interseções entre as tecnologias biomédicas, a sexualidade e outras dimensões da vida é uma forma de abordar a prevenção e o tratamento do HIV/aids para além da ordem meramente técnica, ancorando a temática na vida social.

Para ler a edição temática completa acesse

Saúde e Sociedade, vol. 34, no. 3, 2025

Para ler os artigos, acesse

PARKER, R. and PEREIRA, C.R. A construção social da prevenção biomédica do HIV. Saúde e Sociedade [online]. 2025, vol. 34, no. 3, e250007 [viewed 20 February 2026]. https://doi.org/10.1590/S0104-12902025250007pt. Available from: https://www.scielosp.org/article/sausoc/2025.v34n3/e250007in/

BRIGEIRO, M. and MONTEIRO, S. Sexualidade remediada: os significados das profilaxias pós e pré-exposição ao HIV. Saúde e Sociedade [online]. 2025, vol. 34, no. 3, e240874p [viewed 20 February 2026]. https://doi.org/10.1590/S0104-12902025240874pt Available from: https://www.scielo.br/j/sausoc/a/GLqdmtY9yhGvm37XKTYFqMR/

SORRENTINO, I.S., MURRAY, L.R. and COUTO, M.T. Evita, mas não elimina: estigma e o uso das profilaxias pré-exposição e pós-exposição sexual no contexto do trabalho sexual entre mulheres cisgênero de São Paulo. Saúde e Sociedade [online]. 2025, vol. 34, no. 3, e250035pt [viewed 20 February 2026]. https://doi.org/10.1590/S0104-12902025250035pt. Available from: https://www.scielo.br/j/sausoc/a/n7GvVqsjW7Qfd6RKVGwRYXR/

OLIVEIRA, K.H., NEVES, A.L.M. and SEFFNER, F. “PrEP = Autonomia”: comunicação para prevenção ao HIV entre jovens na lógica da racionalidade neoliberal. Saúde e Sociedade [online]. 2025, vol. 34, no. 3, e240866pt [viewed 20 February 2026]. https://doi.org/10.1590/S0104-12902025240866pt Available from: https://www.scielo.br/j/sausoc/a/djbynXfNm95fpFyJHBcRs9h/

Referências

BRIGEIRO, M. and MONTEIRO, S. Sexualidade remediada: os significados das profilaxias pós e pré-exposição ao HIV. Saúde e Sociedade [online]. 2025, vol. 34, no. 3, e240874in [viewed 20 February 2026]. https://doi.org/10.1590/S0104-12902025240874pt Available from: https://www.scielo.br/j/sausoc/a/GLqdmtY9yhGvm37XKTYFqMR/

MONTEIRO, S. and BRIGEIRO, M. Prevenção biomédica do HIV e sexualidade: mediações entre corpos, tecnologias e cuidados de si. Saúde e Sociedade [online]. 2025, vol. 34, no. 3, e250302pt [viewed 20 February 2026]. https://doi.org/10.1590/S0104-12902025250302pt. Available from: https://www.scielo.br/j/sausoc/a/Vvyxcxfnkfxn3ZTZNjMzmng/

Links externos

Dezembro Vermelho

Saúde e Sociedade (FSP/USP) – SciELO

Saúde e Sociedade (FSP/USP) – Página institucional

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Como citar este post [ISO 690/2010]:

DANIEL, B. A sexualidade na prevenção biomédica do HIV [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2026 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2026/02/20/a-sexualidade-na-prevencao-biomedica-do-hiv/

 

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