Manoel Ayusso Martins, membro da Red de Estudios Teóricos y Epistemológicos en Política Educativa – ReLePe, Castro, Paraná, Brasil.
O artigo de natureza teórica, Basil Bernstein e a Sociologia da Educação, publicado no periódico Educação em Revista (vol. 42, 2026), foi escrito por Manoel Ayusso Martins e Prof. Dr. Jefferson Mainardes, ao longo de 2025. O problema de pesquisa foi o seguinte: Quais são as características da desordem interna da Sociologia da Educação desde 1970 e em que medida a obra de Bernstein caminhou no sentido contrário a essa desordem?
Para tentar responder ao problema, foi antecipada a seguinte hipótese: A obra de Bernstein, teórica e metodologicamente, é caracterizada pela forte conceptualização, pelo elevado nível de abstração e pelo poder de descrever e explicar o empírico, aproximando-se mais das estruturas de conhecimento de gramática forte e verticais. A demonstração dessa hipótese/argumento foi amparada por fontes exclusivamente bibliográficas: textos, tanto tradicionais quanto recentes, da Sociologia da Educação, da Sociologia do Conhecimento e da Epistemologia. Em cada seção do artigo, uma parte do argumento foi elaborada/demonstrada.
Na primeira seção, foi explicado o conceito “estruturas de conhecimento” (Bernstein, 1996, 2000). Na segunda seção, demonstrou-se a “desordem interna” da Sociologia da Educação, isto é, sua condição de “estrutura de conhecimento horizontal de gramática fraca”, constituída de muitas abordagens paralelas, isoladas umas das outras e intransferíveis (interacionismo simbólico, fenomenologia, marxismo, estruturalismo, pós-estruturalismo, etc.).
Propôs-se que a causa dessa desordem foi o predomínio do interacionismo simbólico e da fenomenologia na “nova” pesquisa sociológica em educação, a partir de 1970, implicando um relativismo epistemológico que passou a rejeitar o conhecimento enquanto estrutura interna, reduzindo-o a mero ponto de vista e relações externas: poder, vozes (negros, brancos, mulheres, homens, indígenas, deficientes, etc.), Estado, economia.
As teorias sociológicas em educação foram reduzidas ao nível psicológico e ideológico (pai fundador da teoria, posições políticas do pai fundador, representações de ser humano veiculadas pela teoria), implodindo o nível teórico (testabilidade e possibilidade de aprimoramento das proposições, capacidade de explicar a realidade e de fazer a ciência crescer, integração de dados empíricos e formulações teóricas anteriores). Estabelecia-se a incomensurabilidade entre as abordagens, cada uma com seus textos e pais fundadores, métodos, valores e falantes: macro x micro, quanti x quali, teórico x empírico, dedução x indução (Whitty, 1985). Um caos de ideologias conflitantes, segundo Halsey (1982).
Propôs-se, também, que essa desordem interna vem sendo reproduzida desde 1980 com os estudos de raça, gênero, deficiência, e com a ciência pós-moderna de maneira geral, com seu fetiche de superestimar a significação, o sujeito, as identidades, isto é, os aspectos psicológicos, em detrimento da teoria em si. Chega-se a níveis preocupantes, com falantes que não somente esvaziam o conteúdo da mensagem, mas avaliam-na a partir das heranças genéticas de seu autor – como no recente caso das acusações do movimento negro contra a psicanalista Maria Rita Kehl (Toniol, 2025). Como Bernstein (1975) denunciou, uma vez exposta a posição ideológica, é como se todo o trabalho pudesse ser descartado.

Imagem: gerada via ChatGPT
Na terceira seção, demonstrou-se que a obra de Bernstein se aproxima mais das “estruturas de conhecimento de gramática forte e horizontais”, distanciando-se da desordem interna da Sociologia da Educação. Em termos teóricos, uma das principais finalidades do projeto de Bernstein era integrar as abordagens incomensuráveis na disciplina, isto é, a microssociologia empírica e indutiva, influenciada pelo interacionismo e pela fenomenologia e preocupada com a agência e com os significados, e a macrossociologia teórica e dedutiva, influenciada pela aritmética política, depois pelo neo-marxismo, e preocupada com as estruturas e com o poder.
Em termos metodológicos, o método sociológico de Bernstein para a pesquisa em educação baseia-se na relação dialética entre teórico e empírico, permitindo que a pesquisa, ao mesmo tempo que deve ser orientada pela teoria, possa devolver à teoria novos fatos e enunciados, para que ela se desenvolva e se aprimore.
Essas características da obra de Bernstein explicam como, ao longo de 40 anos, ela adquiriu forte conceptualização, elevado nível de abstração e grande poder de descrever e explicar a realidade. Sua teoria se apresenta dessa maneira, pois Bernstein sempre se preocupou mais com a ampliação do poder interno da teoria sociológica do que com sua classificação ideológica, mais com “o que” do conhecimento e menos com “quem”; criou uma grande teoria como sistemas de proposições empiricamente testáveis e refutáveis justamente para que outros pesquisadores, em outras disciplinas e contextos de pesquisa, pudessem testar, corroborar ou rejeitar suas teses.
Dessas constatações, pode-se inferir que Bernstein, em seu compromisso com o desenvolvimento teórico, estava interessado em imprimir ordem interna, onde, desde 1970, impera a desordem.
Nessas três seções, então, o argumento foi demonstrado. As contribuições e impactos desse argumento são três: 1. Mostrar ao leitor as singularidades e relevância da obra de Bernstein. 2. Questionar o relativismo epistemológico, da ciência pós-moderna, e sua inclinação ingênua de reduzir tanto o mundo quanto a teoria ao sujeito, suas paixões e projeções. 3. Dialogar com o mais recente livro de Stephen Ball e Jordi Collet-Sabé (2025), Against school: thinking education differently, que propõe uma nova forma de pesquisar, escrever e ensinar a Sociologia da Educação – proposta, ao nosso ver, que reproduz a ingenuidade da ciência pós-moderna.
Vale destacar que a escrita desse texto teve muitas motivações. Uma foi o interesse em contribuir com a interrupção das más leituras e deturpações, muitas vezes intencionais (Moss; Erben, 2001), da teoria de Bernstein. Outra, considerando-se que o relativismo epistemológico tende a ser endossado, muitas vezes, como “mero modismo” (Apple; Oliveira; Oliveira, 1997), foi o interesse em estabelecer, na Sociologia da Educação brasileira, um contraponto a esse modismo.
Para ler esse artigo, acesse
MARTINS, M.A. and MAINARDES, J. Basil Bernstein e a Sociologia da Educação. Educação em Revista [online]. 2026, vol.42, e60118 [viewed 26 March 2026]. https://doi.org/10.1590/0102-469860118. Available from: https://www.scielo.br/j/edur/a/PTmFnj5fzKPRF7XtzSMDJYv/?lang=pt
Referências
APPLE, M., OLIVEIRA, N.A. and OLIVEIRA, A.R. Poder, significação e identidade: sociologia crítica da educação nos EUA. Cadernos de Educação [online]. 1997, no. 9, pp. 5-37 [viewed 26 March 2026]. https://doi.org/10.46846/caduc.vi09.29029. Available from: https://periodicos.ufpel.edu.br/index.php/caduc/article/view/29029
BALL, S.J. and COLLET-SABÉ, J. Against School: thinking education differently. London: Palgrave MacMillan, 2025.
BERNSTEIN, B. Class, codes and control: towards a theory of educational transmission. Volume 3. 1. ed. London: Routledge, 1975.
BERNSTEIN, B. Pedagogy, symbolic control and identity: theory, research, critique. 1. ed. London: Taylor & Francis, 1996.
BERNSTEIN, B. Pedagogy, symbolic control and identity: theory, research, critique. 2. ed. London: Taylor & Francis, 2000.
HALSEY, A.H. Provincials and professionals: the British post-war sociologists. European Journal of Sociology [online]. 1982, vol. 23, no. 1, pp. 150-175 [viewed 26 March 2026]. https://doi.org/10.1017/S0003975600003830. Available from: https://www.cambridge.org/core/journals/european-journal-of-sociology-archives-europeennes-de-sociologie/article/abs/provincials-and-professionals-the-british-postwar-sociologists
MOSS, G. and ERBEN, M. Introduction to the linguistics and education: special issue on Knowledge, Identity, and Pedagogy – themes from the work of Basil Bernstein. Linguistics and Education [online]. 2000, vol. 11, no. 1, pp. 1-5 [viewed 26 March 2026]. https://doi.org/10.1016/s0898-5898(99)00014-5. Available from: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/
O cancelamento de Maria Rita Kehl e as armadilhas do identitarismo. Folha de São Paulo. 2025 [viewed 26 March 2026]. Available from: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2025/02/o-cancelamento-de-maria-rita-kehl-e-as-armadilhas-do-identitarismo.
WHITTY, G. Sociology and school knowledge: curriculum theory, research and politics. London: Methuen, 1985.
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