Possibilidades de reformulação e reorganização do campo da saúde

Camila Montagner Fama, Bolsista Fapesp de Jornalismo Científico, doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, Brasil.

Logo do periódico Saúde e SociedadeNo ensaio elementos para uma abordagem cosmopolítica e antirracista da saúde pública no fim do mundo, publicado pelo periódico Saúde e Sociedade (vol. 34, 2026), o autor José Miguel Nieto Olivar, do departamento de Saúde e Sociedade da FSP-USP, atenta para como a discussão sobre a dificuldade de tratar das insuficiências do sistema de saúde pública que acreditamos ser o melhor, ganhou visibilidade em outubro de 2022, no 13º Congresso da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO).

O maior espaço para declarações a favor da diversidade e de ações afirmativas para promoção da inclusão no campo da saúde coletiva não esconde as dificuldades que ele vem enfrentando ao lidar com as implicações da presença e da atuação dos que não cabem ou não são circunscritos pelo funcionamento consolidado do sistema de saúde que conhecemos. No ensaio o professor e coordenador do projeto Cosmopolíticas do Cuidado no Fim-do-mundo1, José Miguel Nieto Olivar, argumenta que essa dificuldade se deve a um persistente esgotamento do campo que pede por reformulações e reorganizações mais contundentes.

A persistência de modelos de cuidado que se organizam por tendências que pretendem se filiar à lógica moderna, excluindo outros conhecimentos terapêuticos, como formas de cura comunitária, saberes ancestrais e práticas indígenas, ainda que isso tenha se mostrado insuficiente e distante de modo pouco sutil na pandemia de COVID-19, segue sem ser interrompida. Diante dessa indefensabilidade incutida na estrutura e no funcionamento cotidiano do sistema de saúde em questão, o autor busca possibilidades de desmontagens radicais no pensamento de Denise Ferreira da Silva, que se inscreve no pensamento feminista negro, nas disputas em torno do cuidado apontadas por Maria Puig de la Bellacasa e na proposição cosmopolítica de Isabelle Stengers. Ao recorrer a essas autoras, ele faz questões sobre o que pode levar esse sistema a se reorganizar e se reformular, tomando como ponto de partida as palavras da ativista antirracista, feminista, médica e diretora da Anistia Internacional – Brasil que em 2022 no congresso da ABRASCO disse que seria preciso não defender o indefensável modo de funcionamento atual SUS.

 

 

Mais do que acomodar necessidades apontadas por comunidades organizadas, práticas indígenas e movimentos sociais que estão hoje à margem da estrutura e funcionamento da saúde pública, Olivar destacou que o campo da saúde se vê diante da presença deles a se manifestar publicamente com reivindicações e ações que não os limitam às condições de usuários necessitados ou vulnerabilizados. Ele se pergunta que possibilidades se abrem ao considerarmos que [não basta tratar a saúde pública com uma certa desconfiança e distância], como tem acontecido.

Para dar um passo em direção a novos modos de atuação e cuidado no campo da saúde colocando questões sobre outras possibilidades para a saúde pública, Olivar retoma o que – sua gestão política de redes, experiência de militância e a elaboração de cestos de conhecimento com ervas, preparos e recomendações de resguardo – com as mulheres rionegrinas durante a pandemia de COVID-19 ao acompanhar em processos etnográficos a organização feita por elas da campanha Rio Negro, nós cuidamos. O autor entende que essa experiência deu a ver que seria possível se aproximar desse campo levando em conta a diferença e a alteridade sem que o preço disso seja tornar impossível que agentes políticos centrais por si mesmos passem a participar do campo da saúde a partir de desacordos sobre o que significa o cuidado e sobre como o conhecimento e o cuidado estão relacionados.

O projeto “Cosmopolíticas do cuidado no fim-do-mundo: gênero, fronteiras e agenciamentos pluriepistêmicos com a saúde coletiva” foi contemplado com financiamento Fapesp Jovem Pesquisador em 2021 sob o processo de número 06897-9.

Notas

1. O projeto “Cosmopolíticas do cuidado no fim-do-mundo: gênero, fronteiras e agenciamentos pluriepistêmicos com a saúde coletiva” foi contemplado com financiamento Fapesp Jovem Pesquisador em 2021 sob o processo de número 06897-9.

Para ler o artigo, acesse

OLIVAR, J.M.N. “Não defender o indefensável”: elementos para uma abordagem cosmopolítica e antirracista da saúde pública no fim do mundo. Saúde soc. [online]. 2025, vol. 34, no. 3, e240788pt [viewed 6 April 2026] https://doi.org/10.1590/S0104-12902025240788pt. Available from: http://ref.scielo.org/6gppjm.

Links externos

Cosmopolíticas do cuidado no fim-do-mundo

FOIRN

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Saúde e Sociedade (FSP/USP) – Página institucional

Saúde e Sociedade (FSP/USP) – SciELO

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

FAMA, C.M Possibilidades de reformulação e reorganização do campo da saúde [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2026 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2026/04/06/possibilidades-de-reformulacao-e-reorganizacao-do-campo-da-saude/

 

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