Maria Helena Cruz Pistori, Editora executiva da Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo –PUC-SP, São Paulo, SP, Brasil.
O artigo A Indologia Soviética e a ascensão da ‘filologia insurgente’, de Craig Brandist (University of Sheffield, UK), publicado pela Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso (vol. 21, no. 01, 2026), apresenta e analisa autores que se dedicaram à pesquisa da filologia russa e soviética relacionada à Índia, no início do século XX, antecipando aspectos importantes da teoria pós-colonial. Trata-se do primeiro texto do dossiê temático O soviético e o pós-soviético em diálogo com os estudos (pós/de)coloniais: uma introdução, cuja proposta foi apresentar a teoria pós-colonial – associada principalmente ao mundo anglo-saxão, e a teoria decolonial – ligada mais especialmente aos estudos latino-americanos, em diálogo com ideias geradas no mundo soviético e pós-soviético.
Na realidade, os artigos destacam importantes aspectos da história intelectual soviética pouco divulgados no país, particularmente relacionados à linguagem e sua relação com a cultura e a identidade coletiva. De modo talvez surpreendente, esses estudos (pós)soviéticos antecipam os princípios fundamentais dos movimentos anticoloniais; no entanto, como destacam os editores Laura Gherlone e Pietro Restaneo, esses autores destacados não estão alinhados a um cânone oficial e unitário soviético, mas a um espaço fragmentado e heterogêneo de sentidos (cf. Gherlone; Restaneo, 2026, e74381p).
O autor do artigo, Craig Brandist, é um dos fundadores do Bakhtin Centre, em Sheffield, em 1994, sendo seu diretor desde 2008. Esteve no Brasil em 2012 como professor-visitante do Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (LAEL/PUC-SP), a convite da Prof. Dra. Beth Brait, com auxílio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP); na ocasião ministrou um curso sobre “Língua e história intelectual: aproximações entre correntes teóricas”. Alguns de seus textos foram traduzidos e publicados no Brasil, na coletânea Repensando Bakhtin, organizada por Maria Inês Batista Campos e Rosemary H. Schettini (2012). Grande investigador nos arquivos do Círculo e conexos, Brandist é responsável pela circulação científica de materiais do arquivo do Instituto de História Comparada da Literatura e das Línguas do Ocidente e do Oriente; por conexões traçadas entre o Círculo de Bakhtin e o Oriente, abordando o movimento anticastas inicial e a indologia soviética contemporânea; e a relação entre o que chama de “filologia insurgente” com o orientalismo, como bem lembrou a parecerista Svetlana Anatolievna Dubrovskaia (State University of Ogarev Mordovia, Saransk, Russia).
Na realidade, o artigo A Indologia Soviética e a ascensão da ‘filologia insurgente’ dá continuidade a essa investigação. Nele, o autor britânico analisa e examina textos de pesquisadores russos pré-revolucionários e especialistas soviéticos em estudos orientais, e um grupo de pensadores e fontes textuais da Índia, destacando a crítica desafiadora que introduzem à indologia europeia dominante naquele momento – a “filologia insurgente”.
Esse novo enfoque filológico passou a considerar perspectivas dos pesquisadores da Índia, minando criticamente a dicotomia Ocidente e Oriente e a filologia indo-europeia. Decorreu daí “uma crítica radical dentro da Índia, que foi muito além dos limites do nacionalismo”. Segundo Brandist, esses pensadores alertavam para o projeto de dominação colonial intrínseco a suas pesquisas, e também para a situação “de dominação bramânica no contexto do colonialismo, mas, ao fazê-lo, recusaram-se a reificar os discursos como estruturas que operam independentemente do trabalho de agentes historicamente situados”.
Nas seis seções que constituem o artigo, Brandist trata (1) de autores do Ocidente e do Oriente que investigaram temas da filologia, distinguindo-a do “filologismo” e da filosofia; (2) de M. I. Tubianskii, o budologista e membro do “Círculo de Bakhtin”, que se dedicou à investigação das ideias e textos de Rabindranath Tagore a respeito do Vishuísmo; (3) de reflexões sobre a Grande Índia e a promoção de um movimento para promover a ideia de uma unidade cultural; (4) das relações entre a filologia pós-revolucionária soviética e o Oriente, principalmente por meio do trabalho do representante mais proeminente da nova tendência na filologia indiana, Aleksei Barannikov (1890-1952); (5) da paleontologia semântica, ou seja, a “ideia de que, ao escavar as camadas de significado de um texto, é possível revelar substratos comuns que fornecem evidências de mudanças ideológicas fundamentais correspondentes a mudanças sociais importantes” (6) e, finalmente, da conexão de algumas dessas ideias com a teoria do romance de Mikhail Bakhtin (2015; 2018; 2019).
Em artigo anterior, Brandist afirmava que a contribuição mais original de Bakhtin foi a ousada “imbricação de temas sociolinguísticos e literários” nos ensaios sobre o romance na década de 1930 (2006, p. 67-88). Nesta última seção do artigo, Craig Brandist amplia esta assertiva, ao delinear como a filologia indiana moderna de Barannikov, que ganha destaque na década de 1930 na União Soviética, dialoga com a teoria do romance bakhtiniana:
Enquanto Bakhtin, no ensaio Slovo v romane [Discurso no romance], de 1934-36, relaciona o surgimento do romance europeu ao surgimento da língua nacional, que cria uma esfera comum de troca verbal, a heteroglossia (raznorechie), Barannikov traça o mesmo fenômeno nas recontagens vernáculas dos épicos sânscritos. […] Bakhtin e Barannikov também se concentram nas maneiras pelas quais os autores se envolvem ativamente com o corpo anônimo da cultura popular e das narrativas que precedem o surgimento da literatura como tal.
Como afirmou a parecerista Lídia Becker (Universität Hannover, Germany) ao aprovar o texto, trata-se de um “artigo inovador e interessante do campo da historiografia (crítica) da linguística, com argumentação impecável e sólida fundamentação teórica”. Sem dúvida, leitura produtiva e enriquecedora!
Para ler o editorial, acesse
GHERLONE, L. and RESTANEO, P. O Soviético e o pós-Soviético em diálogo com os estudos (pós/de)coloniais: uma introdução. Bakhtiniana, Rev. Estud. Discurso [online]. 2026, vol. 21, no. 01, e74381p [viewed 9 April 2026] https://doi.org/10.1590/2176-4573p74381. Available from: https://www.scielo.br/j/bak/a/FkpXXMVgWpbd6zFT8CTWKwg/
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BRANDIST, C. A Indologia Soviética e a ascensão da “filologia insurgente”. Bakhtiniana, Rev. Estud. Discurso [online]. 2026, vol. 21, no. 01, e68609p [viewed 9 April 2026]. https://doi.org/10.1590/2176-4573p68609. Available from: https://www.scielo.br/j/bak/a/ggqtJbXrqcsqVPMx7th4tTD/
Referências
BAKHTIN, M. Teoria do romance I. A estilística. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2015.
BAKHTIN, M. Teoria do romance II. As formas do tempo e do cronotopo. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2018.
BAKHTIN, M. Teoria do romance III. O romance como gênero literário. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2019.
BRANDIST, C. Mikhail Bakhtin e os primórdios da sociolinguística soviética. In: FARACO, C. A., TEZZA, C and CASTRO, G. Vinte ensaios sobre Mikhail Bakhtin. Petrópolis, RJ: Vozes, 2006. p.67-88.
BRANDIST, C. Repensando o Círculo de Bakhtin: novas perspectivas na história intelectual. São Paulo: Contexto, 2012.
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