Eduardo Vilar Bonaldi, Professor Adjunto no Depto. de Sociologia e Ciência Política da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil.
Nas últimas décadas, o debate sobre ações afirmativas no ensino superior tem nos revelado como a ousada implementação das cotas “sociais” (para estudantes de baixa renda) e “raciais” (para estudantes pretos, pardos e indígenas) elevou a diversidade social e racial do alunado nos campi de nossos institutos e universidades federais, sem prejudicar os níveis de desempenho acadêmico que caracterizam tais instituições (Wainer e Melguizo, 2018; Senkevics e Mello, 2022 e Campos e Lima, 2025).
Por um lado, esse debate produziu um conjunto, interessante e necessário, de dados estatísticos sobre indicadores acadêmicos que têm sido observados entre alunos “cotistas” e “não cotistas”. Por outro lado, essa modalidade de pesquisa — geralmente voltada à avaliação dos resultados da política de cotas — representou monoliticamente os estudantes “cotistas” e “não cotistas”, pressupondo implicitamente que as realidades, as identidades e as estratégias acadêmicas dos ingressantes por ação afirmativa fossem parecidas entre si.
Em tal contexto, uma série recente de estudos qualitativos (baseados em entrevistas abertas, pesquisa documental ou abordagens etnográficas) tem evidenciado a multiplicidade dos perfis sociais e das identidades raciais encontradas no interior desse heterogêneo universo discente (Santos, 2017; Guimarães et al., 2020; Silva et al, 2020; Ganam e Pinezzi, 2021). Assim, o texto Estudantes cotistas no curso de medicina da Universidade Federal de Santa Catarina: interseccionalidades de raça e classe, de autoria de Eduardo Bonaldi e Luan Viricimo, publicado pelo periódico Educação em Revista (vol. 42, 2026), buscou contribuir com essa emergente literatura tanto ao analisar os dados socioeconômicos de estudantes “cotistas” no curso de medicina da Universidade Federal de Santa Catarina, quanto ao realizar entrevistas abertas com ingressantes por cotas “sociais” e “raciais” em tal carreira.
Desse modo, a análise dos dados sobre renda familiar e escolaridade materna desse público discente demonstraram haver duas origens de classe discerníveis entre eles. De um lado, encontramos alunos “cotistas” associados às camadas populares, isto é, oriundos de famílias de baixa renda, chefiadas por trabalhadores manuais com baixa escolaridade. Mas, por outro lado, também encontramos “cotistas” de camadas “média-baixas”, ou seja, filhos e filhas de pais com maior escolaridade (38% de suas mães com ensino superior completo ou incompleto, inclusive), ocupando posições “não manuais” nos escalões baixos ou médios de organizações públicas ou privadas.

Imagem: Eduardo v. Bonaldi via Chat GPT
Conforme evidenciado em nossas entrevistas, tais “cotistas” de estrato “médio-baixo” são filhos e filhas de professoras do ensino fundamental, policiais militares, balconistas/atendentes do setor de comércio/serviços, entre outras ocupações de renda e status assemelhado. Vale frisar que, sem a ação afirmativa, esses jovens de camada “média-baixa” dificilmente acessariam uma vaga em uma carreira tão disputada por egressos de colégios privados de elite — muitos deles filhos e filhas de médicos — quanto o curso de medicina de uma instituição federal.
Nas entrevistas abertas, pudemos observar como essas duas origens de classe interseccionam-se com as diferentes identidades raciais (“branca”, “parda” ou “negra”) autodeclaradas pelos entrevistados. Assim, pudemos indagar como estudantes negros (de origem social “baixa” ou “média-baixa”) experimentam diferentemente os sentimentos de “deslocamento social e racial” (Guimarães et al., 2020) no interior de um curso universitário elitizado.
Nesse contexto, Juliano1 (filho de uma ex-empregada doméstica, autodeclarado “negro”) expressou duplamente seu “deslocamento social e racial” tanto por conta das urgências e carências materiais associadas a sua condição de “baixa renda” (lamentando, por exemplo, a impossibilidade de adquirir um estetoscópio de qualidade superior), quanto em função dos riscos de discriminação racial pressentidos pelo entrevistado nesse ambiente acadêmico. Por outro lado, Lauro (filho de pais com melhores condições ocupacionais, autodeclarado negro) expressou menos intensamente seus sentimentos de “deslocamento social e racial”, evidenciando como sua rede de suporte familiar lhe dotou das condições necessárias para sua participação em diferentes atividades curriculares e não-curriculares do curso. Ainda assim, seu alto senso de integração simbólica ao curso não impediu que o entrevistado sofresse um episódio de discriminação racial explícita por parte de um professor, que ironizou seus cabelos trançados em plena sala de aula.
Dialogando com a literatura recente sobre relações raciais e ações afirmativas no ensino superior brasileiro, buscamos evidenciar, portanto, como as interseccionalidades de classe e raça modulam diversamente as identidades e estratégias de diferentes alunos “cotistas” no curso de medicina de uma instituição federal localizada em uma das unidades federativas com a maior população branca do país. Assim, consideramos que essa emergente literatura qualitativa pode ser interessantemente articulada aos estudos de natureza quantitativa (geralmente voltados à avaliação da política de cotas) com o objetivo de aumentar e diversificar nosso estoque de conhecimentos e questões de pesquisa sobre a principal política de democratização educacional brasileira no século XXI.
1. Os nomes utilizados no artigo são fictícios.
Para ler o artigo, acesse
BONALDI, E.V. and VIRICIMO, L. Estudantes cotistas no curso de medicina da Universidade Federal de Santa Catarina: interseccionalidades de raça e classe. Educação em Revista [online]. 2026, vol. 42, e54871 [viewed 30 April 2026]. https://doi.org/10.1590/0102-469854871. Available from: https://www.scielo.br/j/edur/a/Z7hN6WG49mvvcBVjFByDPLp/
Referências
CAMPOS, L.A. and LIMA, M. (org.). O impacto das cotas: duas décadas de ação afirmativa. São Paulo: Autêntica, 2025.
GANAM, E.A.S. and PINEZI, A.K.M. Desafios da permanência estudantil universitária: um estudo sobre a trajetória de estudantes atendidos por programas de assistência estudantil. Educação em Revista [online]. 2021, vol. 37, e228757 [viewed 30 April 2026]. https://doi.org/10.1590/0102-4698228757. Available from: https://www.scielo.br/j/edur/a/LXtF95VpbYyzkJTJtkxLrsw/
GUIMARÃES, A.S.A. et al. Coletivos negros e novas identidades raciais. Novos Estudos CEBRAP [online]. 2020, vol. 39, no. 2 [viewed 30 April 2026]. https://doi.org/10.25091/s01013300202000020004. Available from: https://www.scielo.br/j/nec/a/vWCWgfkQDBqTLWVVJLgzjCN/
SANTOS, D.B.R. Curso de branco: uma abordagem sobre o acesso e a permanência de estudantes de origem popular nos cursos de saúde da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Revista Contemporânea de Educação [online]. 2017, vol. 12, no. 23, pp. 31-50 [viewed 30 April 2026]. https://doi.org/10.20500/rce.v12i23.3229. Available from: https://revistas.ufrj.br/index.php/rce/article/view/3229
SENKEVICS, A. and MELLO, U. Balanço dos dez anos da política federal de cotas na educação superior (Lei n. 12.711/2012). Cadernos de Estudos e Pesquisas em Políticas Educacionais: Estratégias do Plano Nacional de Educação II [online]. 2022, vol. 6, pp. 209-23 [viewed 30 April 2026]. https://doi.org/10.24109/9786558010531.ceppe.v6.5384. Available from: https://cadernosdeestudos.inep.gov.br/ojs3/index.php/cadernos/article/view/5384/4094
SILVA, A.C.C., et al. Ações afirmativas e formas de acesso no ensino superior público. Novos Estudos CEBRAP [online]. 2020, vol. 39, no. 2 [viewed 30 April 2026]. http://dx.doi.org/10.25091/s01013300202000020005. Available from: https://www.scielo.br/j/nec/a/nMVPgj8Hg8dw7YW6yjkj4xy/
WAINER, J. and MELGUIZO, T. Políticas de inclusão no ensino superior: avaliação do desempenho dos alunos baseada no Enade (2012–2014). Educação e Pesquisa [online]. 2018, vol. 44 [viewed 2026]. http://dx.doi.org/10.1590/S1517-9702201612162807. Available from: https://www.scielo.br/j/ep/a/zJMDNRctDcpydfndzTsfq3C/
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