A ciência aberta na América Latina e as perspectivas para o campo de Estudos Urbanos

Geisa Bugs, editora associada da revista urbe, Curitiba, Paraná, Brasil.

Luciene Pimentel, editora associada da revista urbe, Curitiba, Paraná, Brasil.

Paulo Nascimento Neto, editor-chefe da revista urbe, Curitiba, Paraná, Brasil.

Rodrigo Firmino, editor associado da revista urbe, Curitiba, Paraná, Brasil.

Logo do periódico urbe. Revista Brasileira de Gestão UrbanaA comunicação científica atravessa um importante momento de inflexão. As perspectivas de expansão da ciência aberta no padrão diamante, as reflexões sobre os acordos transformativos em curso, as mudanças nas infraestruturas digitais de circulação do conhecimento e os desafios de ampliação da transparência, da integridade e do impacto social da pesquisa têm impulsionado debates em diferentes arenas científicas.

No contexto latino-americano, essas transformações assumem contornos particulares, colocando em evidência desafios relacionados à sustentabilidade, à profissionalização e à internacionalização dos periódicos científicos, ao mesmo tempo em que se intensifica a disputa com grandes atores globais, em um cenário marcado por assimetrias históricas e estruturais entre o Norte e o Sul Globais.

É nesse contexto que se insere esta Semana Especial da urbe. Revista Brasileira de Gestão Urbana no Blog SciELO. Ao longo das postagens, refletimos sobre diferentes dimensões da produção e circulação do conhecimento no campo dos Estudos Urbanos, tomando nossa experiência editorial como ponto de partida para discutir questões que atravessam a editoração científica contemporânea.

O percurso se iniciou com a reafirmação da importância de um posicionamento epistemológico capaz de estimular interpretações analíticas em diálogo com a diversidade da realidade urbana latino-americana. Em um campo historicamente influenciado por marcos teóricos formulados no Norte Global, torna-se central reconhecer que as cidades da região não são apenas objetos de análise, mas também espaços de produção situada de teorias urbanas.

A leitura atenta das publicações da urbe reforça essa compreensão. Historicamente, sua produção evidencia a pluralidade temática e epistemológica que caracteriza os estudos urbanos na América Latina. Essa diversidade não constitui dispersão temática, mas expressa o posicionamento editorial de reconhecer a complexidade das cidades latino-americanas e a intersecção de diferentes tradições analíticas que disputam formas de interpretar os processos urbanos contemporâneos.

Paralelamente, as postagens desta semana privilegiaram agendas estratégicas do contexto editorial, examinando as condições institucionais que moldam a produção e a circulação do conhecimento científico. O avanço recente da inteligência artificial na pesquisa e na editoração científica recoloca em novos termos questões relacionadas à autoria, à transparência e à responsabilização intelectual. Distante de se tratar de mera questão tecnológica, a inteligência artificial configura uma infraestrutura sociotécnica capaz de reconfigurar silenciosamente os critérios de legibilidade, validação e autoridade do conhecimento científico.

Debates também emergem quanto ao compartilhamento de dados de pesquisa. A abertura de dados constitui um dos pilares da ciência aberta, ampliando a transparência, replicabilidade e reutilização de dados coletados. Contudo, com particular enfoque nas ciências sociais e nos estudos urbanos, a reutilização de dados suscita desafios éticos relacionados às mediações epistemológicas, aos contextos de produção das informações e às limitações inerentes à comparação entre realidades urbanas profundamente distintas.

Outro eixo relevante refere-se às formas de circulação pública do conhecimento científico. A crescente presença da divulgação científica em mídias não convencionais, notadamente por meio de redes sociais, podcasts e plataformas audiovisuais, aponta para um movimento amplo de abertura da ciência ao diálogo com a sociedade, em consonância aos princípios da ciência aberta enunciados na Recomendação da UNESCO sobre o tema (2021). Nesse contexto, a comunicação científica ultrapassa a preocupação (pertinente) com a disseminação entre pares e assume também uma dimensão pública, na qual a conversão e contextualização do conhecimento tornam-se parte integrante da prática editorial.

 

 

Tomados em conjunto, esses temas convergem para agendas renovadas de ampliação da ciência aberta no Brasil como paradigma estruturante da comunicação científica. Essa agenda adquire densidade particular ao ser articulada aos princípios de IDEIA – Impacto, Diversidade, Equidade, Inclusão e Acessibilidade.

Nesse processo, o SciELO ocupa posição singular. Com quase três décadas de contribuição ao sistema científico brasileiro e latino-americano, o SciELO consolidou uma infraestrutura pública de comunicação científica capaz de induzir padrões elevados de qualidade editorial, ampliar a visibilidade internacional das revistas da região e sustentar um modelo de acesso aberto não subordinado a lógicas comerciais de publicação científica.

Para além de uma plataforma de indexação, seus critérios de indexação, diretrizes editoriais e mecanismos de avaliação contínua contribuem decisivamente para a profissionalização das revistas científicas, estimulando boas práticas editoriais, a incorporação de tecnologias digitais de publicação e o fortalecimento da internacionalização dos periódicos. Para além de uma coleção de periódicos, o SciELO expressa um movimento que desafia a centralização da comunicação científica global e reafirma a densidade e a legitimidade da produção científica latino-americana.

Reconhecemos, assim, que a construção de agendas científicas capazes de interpretar criticamente as transformações urbanas latino-americanas depende não apenas da qualidade das pesquisas realizadas, mas também da existência de revistas científicas robustas, profissionalizadas e internacionalmente visíveis. Nesse sentido, a promoção da ciência aberta com IDEIA não deve ser compreendida apenas como uma lista de prioridades.

Trata-se de um horizonte de atuação orientado à construção de um sistema editorial mais inclusivo, transparente e socialmente relevante. Reconhecer a interseccionalidade como fator estruturante da sociedade (e da ciência, enquanto artefatos socialmente produzidos), implica comprometer-se com a ampliação da diversidade de vozes na produção científica, a promoção da equidade no acesso e a garantia de acessibilidade ao conhecimento produzido.

Ao concluir esta Semana Especial, reafirmamos a convicção de que a ciência aberta, articulada aos princípios de IDEIA e sustentada por infraestruturas como o SciELO, constitui um caminho decisivo para fortalecer a produção científica brasileira e latino-americana.

Nesse horizonte, as revistas científicas permanecem como espaços privilegiados de construção coletiva do conhecimento, organizando comunidades epistêmicas e canalizando pesquisas em direção a agendas científicas capazes de orientar interpretações críticas de excelência, socialmente relevantes e intelectualmente comprometidas com os desafios contemporâneos das cidades e das pessoas que nelas vivem.

Links externos

urbe. Revista Brasileira de Gestão Urbana – SciELO

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Como citar este post [ISO 690/2010]:

NETO, P.N. et al. A ciência aberta na América Latina e as perspectivas para o campo de Estudos Urbanos [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2026 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2026/05/08/a-ciencia-aberta-na-america-latina-e-as-perspectivas-para-o-campo-de-estudos-urbanos/

 

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