Leituras de “A Cabana do Pai Tomás” no Brasil escravista

Danilo José Zioni Ferreti, Departamento de Ciências Sociais, Universidade Federal de São João del-Rei, São João del-Rei, MG, Brasil

Em 1852, a norte-americana Harriet Beecher Stowe publicou o romance Uncle Tom´s Cabin (em português A Cabana do Pai Tomás). O livro posicionava-se contra a escravidão e causou acirrados debates nos Estados Unidos e Europa, tornando-se um dos romances de maior repercussão no séc. XIX.

Danilo José Zioni Ferretti analisa a divulgação e inserção das várias versões dessa obra no espaço público do Brasil escravista. O autor, professor de história da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), pesquisou em arquivos brasileiros, portugueses e franceses. O estudo mostra que, no Império brasileiro, A Cabana do Pai Tomás seguiu caminhos próprios, marcados por duas fases. Na primeira, de 1853 a 1876, a obra circulou de forma instável e restrita, em edições estrangeiras, quatro delas portuguesas, com eventos de apreensões de exemplares por autoridades. Na segunda fase, de 1876 até 1888, a projeção pública da obra foi muito maior. Predominaram versões teatrais, encenadas por companhias que percorriam várias cidades do país. O auge do sucesso brasileiro do Pai Tomás coincidiu com o crescente movimento abolicionista no Brasil, ao mesmo tempo em que o impacto da obra tendia a diminuir no hemisfério norte.

Ferretti concentra-se no estudo da edição de Pai Tomás, em português, pela casa francesa Rey e Belhatte, de 1853, que alcançou maior circulação no Brasil. Segundo o autor, os ambientes português e francês —  a que estavam ligados tanto o tradutor Francisco de Andrade quanto a editora parisiense — favoreceram a inclusão de textos introdutórios. Esses textos apresentavam uma leitura do romance que alterava sua mensagem política original. Se Stowe defendeu uma abolição imediata da escravidão, a edição de Rey e Belhatte sugeria a possibilidade de estender por um tempo maior a escravidão nos territórios lusófonos. Assim, editores e tradutor buscaram atenuar a potencialidade crítica de Pai Tomás, o que certamente facilitou sua circulação no mundo escravista de fala portuguesa.

Referências

MEER, Sarah. Uncle Tom Mania: Slavery, Minstrelsy and Transatlantic Culture in the 1850´s. Athens, Georgia: University Georgia Press, 2005.

STOWE, Harriet B. Uncle Toms Cabin. Boston: John P. Jewett and Company, 1852.

STOWE, Herriet B. A cabana do Pai Thomaz ou a vida dos pretos na América, romance moral. Traduzido em português por Francisco Ladislau Álvares d´Andrada. Paris: Rey et Belhatte, 1853.

Para ler os artigos, acesse

FERRETTI, D. J. Z. A publicação de “A cabana do Pai Tomás” no Brasil escravista. O “momento europeu” da edição Rey e Belhatte (1853). Varia hist. [online]. 2017, vol.33, n.61, pp.189-223. [viewed 24 May 2017]. ISSN 0104-8775. DOI: 10.1590/0104-87752017000100009. Available from: http://ref.scielo.org/btdbqt

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FERRETTI, D. J. Z Leituras de “A Cabana do Pai Tomás” no Brasil escravista [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2017 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2017/05/30/leituras-de-a-cabana-do-pai-tomas-no-brasil-escravista/

 

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