Alimentos étnicos e o turismo gastronômico

Lucy M. Long, Fundadora do Center for Food and Culture em Ohio (EUA), Universidade Estadual de Bowling Green, Ohio. Bowling Green, OH, Estados Unidos

A indústria do turismo começou a distinguir a gastronomia como principal atração e motivação para viagens entre o final dos anos 90 e início dos anos 2000 (HALL; SHARPLES, 2003; LONG, 2004, 2012, 2013). O turismo gastronômico é uma indústria muito popular e lucrativa e tem um impacto significativo em empreendimentos ligados a alimentação. Nele, os alimentos são a principal atração ou motivação para viagens (BONIFACE, 2003; HALL; SHARPLES, 2003; HJALAGER; RICHARDS, 2002; LONG, 1998, 2004; QUAN; WANG, 2004). A identificação, seleção, avaliação e interpretação dos pratos incluídos nessa atividade envolvem questões de poder, isto é, políticas culturais. Dentro da antropologia cultural e outras áreas de humanidades, esse termo refere-se ao entendimento de que todas as práticas culturais são moldadas por estruturas de poder e inclui as ramificações práticas dessas estruturas. Jordan e Weedon (1995) resumiram as principais dúvidas sobre políticas culturais, tais como: qual cultura é considerada oficial, normativa, e quem consegue representá-la; qual história é reconhecida; que vozes são ouvidas, e assim por diante. Watson e Caldwell (2005) também reconhecem que a política cultural engloba diversas questões, incluindo a autoridade para definir os significados e representações de alimentos: como essa autoridade foi estabelecida e como ela está sendo exercida. Ou seja, quem faz a seleção de alimentos étnicos?  Quais povos e regiões são representativos de uma cultura? Quem define a culinária apresentada?

Diversos países e cidades, com culinária de renome ou restaurantes e chefs famosos, tornaram-se destinos para esses indivíduos. França, Itália e Espanha ganharam destaque por oferecer esse tipo de gastronomia, e algumas cidades nos EUA também são famosas, incluindo Charleston, na Carolina do Sul; New Orleans, na Louisiana; e alguns restaurantes em Nova Iorque e Chicago. O turismo gastronômico parece ser uma indústria altamente benéfica e rentável às comunidades, ao mesmo tempo que reafirma a sua cultura alimentar. As iniciativas de turismo gastronômico que utilizam a culinária étnica assumem diversas formas, incluindo passeios e rotas, visitas a restaurantes, eventos públicos como festivais e degustações, e aulas e demonstrações culinárias. Cada forma tem um conjunto de questões de política cultural envolvendo discussões sobre culinária exótica e tradicional pelas diferentes partes envolvidas.

Os grupos étnicos são constituídos por indivíduos com diversas experiências e interpretações dessa identidade. Essa diversidade extrapola a esfera da gastronomia e precisa ser considerada pelo turismo gastronômico. O artigo “Política cultural no turismo gastronômico com alimentos étnicos”, publicado na RAE-Revista de Administração de Empresas (v. 58, n. 3) aborda a complexidade dessas questões e o fato de que empreendimentos de turismo gastronômico, empresários e outros prestadores de serviços de hospitalidade envolvidos com gastronomia precisam lidar com as demandas dos negócios com sensibilidade quanto à natureza dos alimentos e poder.

No podcast Lucy Long compartilha elementos da pesquisa e os pontos que norteiam o turismo gastronômico. Ouça o áudio (em inglês):

Referências

BONIFACE, P. Tasting tourism: travelling for food drink. Aldershot, UK: Ashgate, 2003.

HALL, C. M.; SHARPLES, L. The consumption of experiences or the experience of consumption? An Introduction to the Tourism of Taste. In: HALL, C. M. et al. (Eds.). Food tourism around the world. Burlington, MA: Elsevier Butterworth-Heinemann, 2003. p. 1-24.

HJALAGER, A.-M.; RICHARDS, G. (Eds.). Tourism and gastronomy. London: Routledge, 2002.

JORDAN, C.; WEEDON, C. Cultural politics: class, gender, race and the postmodern world. Hoboken, NJ: Wiley, 1995.

LONG, L. M. Culinary tourism: a Folkloristic perspective on eating and Otherness. Southern Folklore Quarterly, v. 55, n. 3, p. 181-204, 1998.

LONG, L. M. Culinary tourism: a folkloristic perspective on eating and otherness. In: LONG, L. M. (Ed.). Culinary tourism. Lexington, KY: University of Kentucky Press, 2004.

LONG, L. M. Culinary tourism. In: PILCHER, J. M. (Ed.). The Oxford handbook of food history. Oxford, UK: Oxford University Press, 2012.

LONG, L. M. Culinary tourism. Encyclopedia of food and Agricultural Ethics. Netherlands: Springer, 2013.

QUAN, S.; WANG, N. Towards a structural model of the tourist experience: an illustration from food experiences in tourism. Tourism Management, v. 25, n. 3, p. 297-305, 2004. ISSN: 0261-5177 [reviewed 7 June 2018]. DOI: 10.1016/S0261-5177(03)00130-4. Avaliable from: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0261517703001304

WATSON, J.; CALDWELL, M. (Eds.). The cultural politics of food and eating: A reader. Malden, MA: Blackwell Pub., 2005.

Para ler o artigo, acesse

LONG, L. M. Cultural politics in culinary tourism with ethnic foods. Rev. adm. empres. [online]. 2018, vol.58, n.3, pp.316-324. [Viewed 28 June 2018]. ISSN 0034-7590. DOI: 10.1590/s0034-759020180313. Available from: http://ref.scielo.org/7fp55n

Link externo

Revista de Administração de Empresas – RAE: www.scielo.br/rae

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

LONG, L. M. Alimentos étnicos e o turismo gastronômico [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2018 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2018/06/28/alimentos-etnicos-e-o-turismo-gastronomico/

 

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