Há violência, exclusão e silêncio entre jovens estudantes universitários: como superam o silêncio que lhes é imposto?

Ivar César Oliveira de Vasconcelos, Professor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Paulista, Brasília, DF, Brasil

Adriana Lira, Professora do Centro Universitário do Distrito Federal, Brasília, DF, Brasil

Iomar Pirangi Soares, Mestrando da Universidade Católica de Brasília, Brasília, DF, Brasil

Seis estudantes universitários relataram momentos de enfrentamento do silêncio relacionado à sua formação mais ampla, a eles imposto pelo contexto acadêmico, revelando estratégias de superação do problema. Tais estratégias denominaram os casos estudados: Coerência, Interação, Oportunidade, Resiliência, Compenetração e Contextualização.

O conjunto dessas estratégias se apresenta como contribuição à educação como um todo, pois coloca à disposição de educadores, gestores e elaboradores de políticas públicas a oportunidade de concretizar a efetiva formação integral no ambiente acadêmico.

Três instituições de educação superior instaladas no Distrito Federal, sendo duas particulares e uma pública, aceitaram receber em 2017 os autores da pesquisa, cujo artigo relacionado, denominado “Jovens universitários em silêncio no mundo das informações: casos de liberação”, se encontra publicado no periódico Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação (v. 27, n. 104).

Contrapondo-se à educação bancária, identificada pela pesquisa nos contextos analisados, a pedagogia dialógica (FREIRE, 2011) emergiu como uma contribuição para que alunos consigam superar a lógica da violência-exclusão-silêncio e, assim, poderem expressar-se com relação ao seu desenvolvimento humano. Aqui uma novidade da investigação, cujos resultados se oferecem como recurso a ser utilizado para eliminar a mencionada lógica.

O primeiro dos estudantes entrevistados utilizava a coerência como estratégia de eliminação do silêncio que era imposto a ele e aos seus colegas; o participante havia identificado o problema disseminado da incoerência entre o discurso e a prática. Tal revelação caracterizou um distanciamento entre o dito e o realizado, uma hipocrisia organizacional. Em sua atuação didático-pedagógica, o educador precisa entender que é na coerência entre o que faz e o que diz que ocorre o efetivo encontro entre educador e educandos.

O segundo caso apresentou a interação entre colegas, e até entre professores e destes com aqueles, como estratégia de superação do silêncio. Para a participante, a interação é de responsabilidade dos professores, pois, frequentemente, estes servem como espelho para os alunos. Senão, conforme evidenciou-se, predominará a violência simbólica cometida pelo professor, levando os alunos a ficarem em silêncio.

Um terceiro estudante informou que, para vencer o silêncio, buscava soluções para problemas do curso, valendo-se de oportunidades oferecidas por este para ele mesmo se desenvolver. Evidenciaram-se momentos da herança cultural do participante trazida de casa: ele aproveitava oportunidades de abertura para se manifestar e seguir com uma formação mais humana.

Já o quarto caso revelou a presença da resiliência como estratégia de superação. A estudante relatou situações emblemáticas de violência, e tentativas de anular os alunos na sala de aula, nem sempre concretizáveis, caso as vítimas consigam se recuperar rapidamente.

O quinto estudante evidenciou em seu relato a importância de se poder contar, durante a graduação, com experiências de vida capazes de contribuir para a própria formação. O aluno mostrou a compenetração como uma estratégia relevante à saída do silêncio durante o ato educativo. Processando informações recebidas e, indo em caminho inverso, de dentro para fora, o jovem estudante se tornará visível pela fala manifestada.

Por fim, a sexta participação evidenciou que, para a formação integral, torna-se relevante manter-se contextualizado. A falta de informações levava a estudante entrevistada a ficar calada. E, tanto melhor ficava, quando ocorria a articulação da informação com a formação, mostrando, portanto, ser necessário articular conteúdos conceituais, procedimentais e atitudinais durante o processo educacional.

A obtenção desses resultados contou com uma pesquisa qualitativo-exploratória, delineada como estudo de casos múltiplos. Os seis jovens universitários fizeram relatos de vida, gênero de entrevista coerente com o tipo de estudo de caso assumido, uma vez que foram contadas experiências situadas em tempo e espaços definidos, focalizadas no objeto de pesquisa – as estratégias de superação do silêncio no ambiente acadêmico relacionado à formação integral de estudantes.

Em sua maior amplitude, a pesquisa considerou que o mundo vive uma inflação de informações, em desequilíbrio com a formação, comprometendo cada vez mais as possibilidades de promover o desenvolvimento humano. A informação desarticulada da formação parece ser algo sem freios na educação superior que, supostamente, favoreceria a consolidação de trajetórias formativas iniciadas na educação básica. “O processo que não articula informação e formação se caracteriza por promover escassa dialogicidade, desde o nível macro, envolvendo políticas públicas ou o corpo escolar, ao micro, envolvendo a prática didático-pedagógica” (VASCONCELOS; GOMES, 2016, p. 581). Quando, entre professores e alunos, a interação de experiências sociais se baseia na educação mais informativa do que formativa, ambas as partes envolvidas convertem a desinformação de uns e outros em estratégias de controle da fala. Um cenário assim favorece a violência simbólica, a qual é seguida pela exclusão social e o silêncio.

Referências

FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 50. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2011.

VASCONCELOS, I. C. O. and GOMES, C. A. Pedagogia dialógica para democratizar a educação superior. Ensaio: aval. pol. públ. Educ., v. 24, n. 92, p. 579-608, 2016. ISSN: 0104-4036 [viewed 16 September 2019]. DOI: 10.1590/S0104-40362016000300004. Available from: http://ref.scielo.org/7psmhm

Para ler o artigo, acesse

VASCONCELOS, I. C. O., LIRA, A. and SOARES, I. P. Jovens universitários em silêncio no mundo das informações: casos de liberação. Ensaio: aval.pol.públ.Educ., v. 27, n. 104, p. 499-520, 2019. ISSN: 0104-4036 [viewed 16 September 2019]. DOI: 10.1590/s0104-40362019002701552. Available from: http://ref.scielo.org/x64ndk

Link externo

Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação – ENSAIO: www.scielo.br/ensaio

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

FERREIRA, N. T. Há violência, exclusão e silêncio entre jovens estudantes universitários: como superam o silêncio que lhes é imposto? [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2019 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2019/09/16/ha-violencia-exclusao-e-silencio-entre-jovens-estudantes-universitarios-como-superam-o-silencio-que-lhes-e-imposto/

 

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