A construção deliberada de mentiras: uma ameaça à memória coletiva

Fábio Abreu dos Passos, Doutor em filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais,  Professor do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Piauí. Teresina, PI.

Para o desenvolvimento de pesquisas de cunho bibliográfico, utiliza-se das ferramentas conceituais de autores como Hannah Arendt, Paul Ricœur, Beatriz Sarlo e Edson Teles acerca da temática da memória e do esquecimento. A partir desse movimento reflexivo, procura construir narrativas contraproducentes àquelas que procuram negar os “tempos sombrios” de censuras e mortes, buscando edificar novos olhares para a realidade que sejam capazes de construir narrativas memoriais que sirvam de suporte pedagógico para que a promessa feita após o findar da Ditadura Civil-Militar brasileira e a redemocratização de nosso país seja efetivada: “Para que nunca mais se esqueça. Para que nunca mais aconteça”.

No artigo “O revisionismo e os perigos da mentira deliberada na perspectiva de Hannah Arendt” procura-se refletir acerca da mentira forjada pelo movimento revisionista. Assim, a mentira se constitui em uma clássica ferramenta política, que é utilizada para ocultar segredos e dados sobre os quais não se deseja a incidência da forte luz da publicidade. Contudo, a mentira deliberada é de uma outra natureza: ela é um dos artifícios mais eficazes para alterar propositadamente os fatos e construir uma realidade que não seja oriunda dos afazeres humanos no espaço de aparência, mas dos laboratórios dos movimentos falseadores, a exemplo do revisionismo. Jean Pierre Vidal-Naquet, em Assassins of Memory, apresenta Paul Rassinier como um dos maiores expoentes do revisionismo, que se propõem a contra-argumentar acerca do número vítimas durante o governo nazista e, portanto, a desconstruir a ideia de ter havido um holocausto. O movimento revisionista no Brasil tem, em Marco Antônio Villa, um de seus representantes que, na sua obra Ditadura à brasileira, procura desconstruir os fatos acerca das atrocidades cometidas durante o período em que transcorreu a Ditadura Civil-Militar. Um obstáculo às investidas revisionista é a verdade factual, que, segundo Arendt, “[…] está sempre relacionada com outra pessoa: ela concerne aos eventos e circunstâncias nas quais muitos estão envolvidos; ela é estabelecida a partir de testemunhas e depende de testemunhos; ela existe apenas na medida em que dela se fala, mesmo se ocorre no domínio privado. Ela é política por natureza” (ARENDT, 1961, p. 238).

Imagem: Fabio Passos “Hannah Arendt”, 2019. Aquarela e nanquim sobre papel. 42,0 x 29,7cm

A tentativa de perversão da realidade, que é implementada pelos movimentos revisionistas, aparece como um dos mais iminentes perigos à preservação do mundo comum que, para que seja visto como ele realmente é, ou seja, uma morada imortal de seres morais que estabiliza suas existências, necessita de que mulheres e homens no plural falem uns com os outros e uns contra os outros sobre os fatos ocorridos em seu seio. A mentira deliberada altera o que se diz sobre o mundo e, consequentemente, o que será lembrado sobre esse mesmo mundo. Se há uma necessidade de manter intactos alguns espaços físicos onde ocorreram atentados violentos contra a dignidade da pessoa humana, como o campo de concentração de Auchwistz ou os porões de tortura do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), é para que esses fatos hediondos sejam constantemente lembrados, no intuito de que nunca mais venham a acontecer. Se os fatos que em seu conjunto constituem momentos históricos como o Holocausto e a Ditadura Civil-Militar brasileira forem alterados haverá um risco pujante que esses horrores sejam novamente perpetrados, pois as novas gerações não terão uma dimensão da gravidade do que ocorreu e, até mesmo, poderão levantar bandeiras em defesa dos regimes que tornaram possíveis essas barbáries.

Referências

ARENDT, H. Between Past and Future. Six Exercises in Political Thought. New York: The Viking Press, 1961.

RICŒUR, P. Memory, History, Forgetting. Translated by Kathleen Blamey and David Pellauer. Chicago & London: The University of Chicago Press, 2004.

VIDAL-NAQUET, J. P. Assassins of Memory. New York: Columbia University Press, 1997.

VILLA, M. A. Ditadura à brasileira – 1964-1985: A Democracia Golpeada à Esquerda e à Direita. São Paulo: LeYa, 2014.

Para ler o artigo, acesse

PASSOS, F. A. O revisionismo e os perigos da mentira deliberada na perspectiva de Hannah Arendt. Trans/Form/Ação: revista de filosofia da Unesp [online]. 2021, vol.44, no.03, pp.115-134 [viewed 06 October 2021]. https://doi.org/10.1590/0101-3173.2021.v44n3.10.p115. Available from: http://ref.scielo.org/kpvtvp

Links externos

Núcelo Hannah Arendt: https://www.instagram.com/nucleohannaharendt/

Núcleo de Pesquisa Hannah Arendt: www.hannaharendt.com.br

Trans/Form/Ação – TRANS: https://www.scielo.br/trans

Trans/Form/Ação: https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/transformacao/article/view/12347

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

PASSOS, F. A. A construção deliberada de mentiras: uma ameaça à memória coletiva [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2021 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2021/10/07/a-construcao-deliberada-de-mentiras-uma-ameaca-a-memoria-coletiva/

 

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