A relação entre pessoas e a natureza é tema da nova edição do Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi

Antonio Fausto,  jornalista, Núcleo Editorial/Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém, PA, Brasil

capa_v11n2Está no ar a nova edição do Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi — Ciências Humanas, do quadrimestre maio/agosto de 2016. É o segundo número da fase totalmente eletrônica de um dos periódicos científicos mais antigos do Brasil. A edição trata da relação entre as pessoas e a natureza, focando principalmente no uso de recursos naturais.

A maioria dos artigos trata da pesca, discutida a partir do Amapá, na Amazônia, e de águas sergipanas e pernambucanas, do Nordeste brasileiro. São abordagens plurais sobre um mesmo ofício, que abarcam inclusive a perspectiva feminina, muitas vezes invisibilizada quando o assunto é pescaria. Tratada principalmente como meio de sobrevivência, a pesca é abordada também como meio de convivência, entre homens, mulheres e animais, em relações marcadas inclusive pela tecnologia.

A convivência é tema do artigo “Perspectivas do trabalho feminino na pesca artesanal: particularidades da comunidade Ilha do Beto, Sergipe, Brasil”, onde Mary Martins e Ronaldo Alvim discutem o “saber-fazer” de mulheres que conhecem tanto quanto – ou até mais que – os homens no quesito pescaria. Situação singular em um país onde esse “saber-fazer” pesqueiro é dominado por homens.

“Pescados, pescarias e pescadores: notas etnográficas sobre processos ecossociais”, de Cristiano Ramalho, mostra a interação entre homens, meio ambiente e tecnologia na caracterização da pesca e na definição do pescador. É em função dessa simbiose entre homem, mar e ferramentas que o autor define a pesca como um processo “ecossocial”, marcado também por relações de poder.

Já em “Pesca do Apaiari, Astronotus ocellatus (Agassiz, 1831), e perfil socioeconômico dos pescadores artesanais de uma região da Amazônia Brasileira”, Márcia Daaddy e coautores traçam o perfil de pescadores do interior do Amapá, que vivem da pesca do apaiari, espécie que os alimenta e provê o sustento, graças à comercialização. A pesca, então, é fonte de subsistência para essas populações.

O artigo “Mobilidade, subsistência e apropriação do ambiente: contribuições da zooarqueologia sobre o Sambaqui do Bacanga, São Luís, Maranhão”, de Arkley Bandeira e coautores, analisa os padrões de mobilidade humana a partir dos modelos de subsistência e de apropriação do meio ambiente por populações pretéritas. Para tanto, identifica vestígios de animais que compunham a dieta desses grupos nos sambaquis do litoral maranhense, particularmente o do Bacanga.

Marie Fleury também discute subsistência em Agriculture itinérante sur brûlis (AIB) et plantes cultivées sur le haut Maroni: étude comparée chez les Aluku et les Wayana em Guyane Française. O texto apresenta análise de práticas de cultivo entre as sociedades Maroons, da Guiana Francesa, produzindo conhecimento sobre a subsistência na fronteira com o Norte Brasileiro.

A relação entre pessoas e natureza também aparece em uma perspectiva estética, com a apropriação da pedra para produção de adornos corporais, cuja comercialização permitiu o contato com outros grupos humanos. Eis o assunto do artigo “Adornos corporais em Carajás: a produção de contas líticas em uma perspectiva regional”, de Catarina Falci e Maria Jacqueline Rodet, no qual as autoras apontam evidências da existência de uma cadeia produtiva desses elementos no início do período conhecido como “Nossa Era”.

A dicotomia entre rural e urbano é problematizada por Júlia Côrtes e Álvaro D’Antona em “Fronteira agrícola na Amazônia contemporânea: repensando o paradigma a partir da mobilidade da população de Santarém – PA”. Os autores concluem que a chegada do agronegócio alterou a dinâmica demográfica da região de Santarém, marcada não apenas pelo êxodo rural, mas também pelo retorno de emigrantes devido a questões como relações familiares e identidades junto ao lugar.

O rural e o urbano também são o pano de fundo para o artigo “Belém e o mundo natural: olhares de viajantes sobre plantas e animais na urbe amazônica (1840-1860)”. Luciano Lima mostra o caso dos viajantes europeus que desembarcaram em Belém não apenas para descansar ou, a partir dessa cidade, se deslocar para a Floresta Amazônica, mas para estudar as várias espécies de animais e plantas encontradas na própria urbe.

Também consta da edição um olhar antropológico sobre um herbário, enxergando-o para além do seu patrimônio material, como espaço de trocas e de sociabilidades. Trata-se do texto “Memória social e patrimônio cultural: a transmissão de práticas científicas em um herbário brasileiro”, de Sonia Piccinini e coautores. O novo número encerra com a resenha de Sabine Reiter para o livro “Huni kuin hiwepaunibuki: a história dos caxinauás por eles mesmos”, conjunto de texto em caxinauá, português e espanhol sobre a etnia Caxinauá, habitante da fronteira Brasil – Peru.

O número atual marca a renovação do Conselho Científico e do Corpo de Editores Associados do periódico. O processo editorial passou à condução de Jimena Felipe Beltrão, atual editora científica do Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, em sucessão a Hein van der Voort.

Para ler os artigos, acesse

DAADDY, M. D. V. et al. Pesca do apaiari, Astronotus ocellatus (Agassiz, 1831), e perfil socioeconômico dos pescadores artesanais de uma região da Amazônia brasileira. Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. [online]. 2016, vol.11, n.2, pp.363-378. [viewed 4th November 2016]. ISSN 1981-8122. DOI: 10.1590/1981.81222016000200002. Available from: http://ref.scielo.org/s66dr9

MARTINS, M. L. S. and ALVIM, R. G. Perspectivas do trabalho feminino na pesca artesanal: particularidades da comunidade Ilha do Beto, Sergipe, Brasil. Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. [online]. 2016, vol.11, n.2, pp.379-390. [viewed 4th November 2016]. ISSN 1981-8122. DOI: 10.1590/1981.81222016000200003. Available from: http://ref.scielo.org/yy8sj7

RAMALHO, C. W. N. Pescados, pescarias e pescadores: notas etnográficas sobre processos ecossociais. Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum.[online]. 2016, vol.11, n.2, pp.391-414. [viewed 4th November 2016]. ISSN 1981-8122. DOI: 10.1590/1981.81222016000200004. Available from: http://ref.scielo.org/fcdpbc

CORTES, J. C. and D’ANTONA, Á. O. Fronteira agrícola na Amazônia contemporânea: repensando o paradigma a partir da mobilidade da população de Santarém-PA. Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. [online]. 2016, vol.11, n.2, pp.415-430. [viewed 4th November 2016]. ISSN 1981-8122. DOI: 10.1590/1981.81222016000200005. Available from: http://ref.scielo.org/y7bxj5.

FLEURY, M. Agriculture itinérante sur brûlis (AIB) et plantes cultivées sur le haut Maroni: étude comparée chez les Aluku et les Wayana en Guyane française. Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. [online]. 2016, vol.11, n.2, pp.431-465. [viewed 4th November 2016]. ISSN 1981-8122. DOI: 10.1590/1981.81222016000200006. Available from: http://ref.scielo.org/wgs5hb

BANDEIRA, Arkley Marques; CHAHUD, Artur; FERREIRA, Isabela Cristina Padovani  and  PACHECO, Mírian Liza Alves Forancelli. Mobilidade, subsistência e apropriação do ambiente: contribuições da zooarqueologia sobre o Sambaqui do Bacanga, São Luís, Maranhão. Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. [online]. 2016, vol.11, n.2, pp.467-480. [viewed 4th November 2016]. ISSN 1981-8122. DOI: 10.1590/1981-81222016000200007. Available from: http://ref.scielo.org/39f2bm

FALCI, C. G. and RODET, M. J. Adornos corporais em Carajás: a produção de contas líticas em uma perspectiva regional. Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. [online]. 2016, vol.11, n.2, pp.481-503. [viewed 4th November 2016]. ISSN 1981-8122. DOI: 10.1590/1981.81222016000200008. Available from: http://ref.scielo.org/8kzm72

LIMA, L. D. B. Belém e o mundo natural: olhares de viajantes sobre plantas e animais na urbe amazônica (1840-1860). Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. [online]. 2016, vol.11, n.2, pp.505-519. [viewed 4th November 2016]. ISSN 1981-8122. DOI: 10.1590/1981.81222016000200009. Available from: http://ref.scielo.org/z3pk79

PICCININI, S. M., GRAEFF, L. and MANGAN, P. K. V. Memória social e patrimônio cultural: a transmissão de práticas científicas em um herbário brasileiro. Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. [online]. 2016, vol.11, n.2, pp.521-533. [viewed 4th November 2016]. ISSN 1981-8122. DOI: 10.1590/1981.81222016000200010. Available from: http://ref.scielo.org/j4fvyh

Links externos

Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi — Ciências Humanas – BGOELDI: www.scielo.br/bgoeldi

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

FAUSTO, A. A relação entre pessoas e a natureza é tema da nova edição do Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2016 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2016/11/17/a-relacao-entre-pessoas-e-a-natureza-e-tema-da-nova-edicao-do-boletim-do-museu-paraense-emilio-goeldi/

 

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