Por que alguns temas permanecem no debate feminista?

Ana Maria Veiga, Professora de história da Universidade Federal da Paraíba, editora de notícias da Revista Estudos Feministas (REF), editora responsável pela Saeculum – Revista de História, João Pessoa, PB, Brasil

O periódico Revista Estudos Feministas (2018 v. 26, n. 2), chega ao portal SciELO com 27 artigos, celebrando as possibilidades ampliadas com a publicação apenas no formato digital. Assim, o periódico consegue dar conta do intenso fluxo de artigos científicos que recebe por meio de sua plataforma de editoração. E isso há que se comemorar, pois a grande demanda por publicação remete à ampliação dos estudos feministas, de gênero e interseccionais.

Ao longo desses 26 anos de existência, a Revista Estudos Feministas vem publicando com assiduidade os debates contemporâneos do campo, abrindo espaço para novos questionamentos. É certo que alguns temas são recorrentes, entre eles a violência contra as mulheres e pessoas LGBTIs; o racismo, percebido em níveis locais, translocais e transnacionais; a luta pela equidade de gênero entre outros.

A permanência de temas como esses faz pensar que pouco caminhamos, diante do muito que já se percorreu. As reviravoltas e retrocessos de uma história cíclica por vezes parecem arremessar para trás a trajetória de reivindicações pelo direito das mulheres, que suportam carga multiplicada quando são negras, periféricas, velhas, trans… sendo que muitas vezes todas ou algumas dessas possibilidades andam juntas. Os questionamentos aparecem nas páginas da revista, que segue atuando como um catalisador dos debates.

O volume 26, número 2 traz temas como gênero e ciência, como no artigo “Relações de gênero e ciência: atuação de mulheres nos Núcleos de Inovação Tecnológica paulistas”, de Tatiane Liberato e Thales Andrade; e mulheres nas artes — incluindo a literatura e a música —, como nos artigos “A escrita da mulher/a escrita feminina na poesia de Maria Teresa Horta”, de Natália de Souza e Vinícius Pereira, e “Memórias dos corpos sem órgãos nas duas Agdas, de Hilda Hilst”, de Jorge Alves Santana. As escritoras Teresa Horta e Hilda Hilst inspiram com frequência abordagens feministas e estudos de gênero, dentro dos quais podemos citar algumas referências importantes, como os trabalhos acadêmicos de Miriam Bitencourt (2005) e de Juliana Oliveira (2006) sobre Teresa Horta, e o livro de Ruth Castelo Branco e Ruth Brandão (2004), A mulher escrita.

Em meio a temáticas tão variadas e atuais, alguns artigos foram agrupados. São eles os que abrem o periódico, colocando em pauta novamente, porém com discussões e teorias contemporâneas, uma forte reivindicação do movimento feminista em torno do trabalho doméstico, da divisão do trabalho por gênero, das profissões femininas e das famílias patriarcais como mediadoras dessas relações.

Por fim, a Seção Temática “Movimentos feministas na Primeira República”, organizada por Alcileide Cabral Nascimento, reúne artigos que discutem as reivindicações e ações das mulheres por direitos no período que vai do final do século XIX até a década de 1930.  Lugar na política, instrução, luta por equidade, são temas que emergem dessas páginas e lembram que as conquistas feministas podem ter sido por vezes aparentemente pequenas, mas que elas não terminam, nem são silenciadas.

Referência

BITTENCOURT, M. R. M. A escrita feminina e feminista de Maria Teresa Horta. 2005. 189 f. Tese (Doutorado) – Faculdade de Ciências e Letras de Assis, UNESP, Assis, 2005.

BRANCO, L. C., and BRANDÃO, R. S. A mulher escrita. Rio de Janeiro: Lamparina, 2004.

OLIVEIRA, J. B. Tatuagem da palavra: educação sentimental do corpo no corpus poético de Maria Teresa Horta. 2006. 151 f. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, UFRN, Natal, 2006.

Para ler os artigos, acesse

Rev. Estud. Fem. vol.26 no.2 Florianópolis  2018

Link externo

Revista Estudos Feministas – REF: www.scielo.br/ref

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

VEIGA, A. Por que alguns temas permanecem no debate feminista? [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2018 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2018/08/02/por-que-alguns-temas-permanecem-no-debate-feminista/

 

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