João Miguel Diógenes de Araújo Lima, editor assistente, Sociedade e Estado, doutorando, Universidade de Brasília (UnB), Brasília, DF, Brasil
Mesmo entre admiradores, a obra do sociólogo Erving Goffman recebe críticas por um suposto desenvolvimento teórico insuficiente. A partir da noção de vergonha, em Noção de Vergonha na Sociologia de Goffman: uma crítica metodológica a partir de análises do embaraço e da ordem social Jean Camargo questiona na Sociedade e Estado (vol. 40, no. 1, 2025) as tentativas de extrair da obra de Goffman uma definição conceitual de vergonha, e defende que o potencial reflexivo do autor está em fazer entender “como operam” a vergonha e os mecanismos de ajustamento dos indivíduos à ordem social.
Goffman é considerado um dos expoentes da Sociologia da América do Norte no século XX, a quem se atribuem um olhar criativo e o uso de metáforas dramatúrgicas (Fine; Manning, 2003). Por outro lado, mesmo entre entusiastas de Goffman, aponta-se a falta de teorização em sua obra como um problema que precisaria ser sanado com conceitualizações. No artigo, Jean Camargo argumenta pelo contrário: seria mais honesto seguir as trilhas do próprio autor, ao invés de forçar uma conceitualização que não havia sido proposta originalmente.

Imagem: Priscilla Du Preez via Unsplash
A noção de vergonha faz-se presente em diversas produções de Goffman. Logo no começo do famoso livro A representação do eu na vida cotidiana, por exemplo, ele discute uma representação desacreditada, ocasião em que indivíduos “podem se sentir pouco à vontade, confusos, envergonhados, embaraçados, experimentando o tipo de anomia gerado quando o minúsculo sistema social da interação face a face entra em colapso” (Goffman, 2009, pp. 21). Nas interações sociais, a vergonha está sempre associada a riscos e expectativas, a uma distinção moral e a um medo da “morte social” pela desaprovação e a rotulagem social (como o estigma), seja pelo julgamento negativo ou a exclusão social.
Para minimizar esses riscos, os indivíduos se esforçam para cuidar da forma como se apresentam nas relações cotidianas, face a face. Nesse sentido, a vergonha deve ser encarada como um mecanismo social que opera na distinção moral entre os atos que seriam apropriados e aqueles que seriam inapropriados.
Camargo defende que a noção de vergonha permite conhecer a perspectiva teórica-metodológica da sociologia de Goffman, que não se propunha a definir vergonha, de modo a abstrair um conceito, mas, pelo contrário, entender como a vergonha “funciona”. Enquanto aproxima-se do debate sobre ordem social, instituído por Émile Durkheim, a contribuição goffmaniana à observação dos processos sociais consiste em mergulhar na microestrutura da vida cotidiana que dá sustentação a essa ordem.
De modo mais amplo, a vergonha mostra-se como chave privilegiada para compreender o posicionamento teórico de Goffman no debate entre indivíduo e sociedade, como um mecanismo que contribui para a manutenção da ordem social.
Para ler o artigo, acesse
CAMARGO, J.C.G. Noção de Vergonha na Sociologia de Goffman: uma crítica metodológica a partir de análises do embaraço e da ordem social. Sociedade e Estado [online]. 2025, vol. 40, no. 1, e53575 [viewed 29 August 2025]. https://doi.org/10.1590/s0102-6992-20254001e52608. Available from: https://www.scielo.br/j/se/a/tmmb9cxGYmNYyp5PDjfLTzk
Referências
FINE, G.A. and MANNING, P. Erving Goffman. In: RITZER, G. (Ed.). The Blackwell Companion to Major Contemporary Social Theorists. Londres: Blackwell Publishing, 2003.
GOFFMAN, E. A representação do eu na vida cotidiana. Tradução: Maria Célia Santos Raposo. 17 ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2009.
Link Externos
Como citar este post [ISO 690/2010]:
Últimos comentários