Pensar o urbano na América Latina entre aportes empíricos e epistemológicos

Alessandro Lunelli, Doutorando no Programa de Pós-graduação em Gestão Urbana (PPGTU/PUCPR) e membro do corpo técnico-editorial da urbe, Curitiba, Paraná, Brasil.

Ana Caroline dos Santos Ferreira, Doutoranda no Programa de Pós-graduação em Gestão Urbana (PPGTU/PUCPR) e membro do corpo técnico-editorial da urbe, Curitiba, Paraná, Brasil.

Geisa Bugs, editora associada da revista urbe, Curitiba, Paraná, Brasil.

Logo do periódico urbe. Revista Brasileira de Gestão UrbanaDurante grande parte do século XX, os estudos urbanos nas áreas das Ciências Sociais e Ciências Sociais Aplicadas foram estruturados a partir de perspectivas oriundas das experiências metropolitanas do Norte Global. Processos como industrialização, modernização e expansão urbana controlada tornaram-se o principal horizonte explicativo dos estudos urbanos. Esse enquadramento produziu como efeito colateral a difusão de modelos analíticos e normativos que muitas vezes não incorporam as especificidades históricas, sociais e políticas das cidades do Sul Global – questão que permanece no centro do debate contemporâneo e que orienta o posicionamento editorial da urbe, como exemplifica a leitura dos artigos publicados nos volumes 16 (2024) e 17 (2025). No caso latino-americano, isso significa lidar com formações urbanas profundamente marcadas por desigualdades persistentes, informalidade, heranças coloniais e padrões particulares de produção do espaço, que demandam marcos analíticos sensíveis a essas realidades.

O ponto, entretanto, não diz respeito apenas à procedência dessas teorias, mas também ao modo como a própria cidade foi sendo concebida. Tomada com frequência como cenário, infraestrutura ou unidade administrativa, ela pode aparecer como dado neutro, quando, na verdade, constitui um aporte empírico das contradições sociais e heterogeneidade estrutural. A cidade latino-americana não é apenas o lugar onde processos amplos se manifestam: ela é, em si, a condensação material de relações de poder, formas de regulação, práticas cotidianas, hierarquias raciais e disputas em torno da produção e da apropriação do espaço.

Nas últimas décadas, um conjunto crescente de autores tem, justamente, revisitado criticamente essa tradição. Inspiradas por debates decoloniais e por leituras situadas da urbanização, essas abordagens propõem deslocar o olhar das cidades do Norte para as experiências urbanas do Sul, reconhecendo que processos como segregação, informalidade, financeirização da habitação ou disputas pelo espaço público assumem configurações próprias em contextos periféricos. O desafio passa a ser produzir interpretações capazes de dialogar com essas realidades, considerando os arranjos institucionais, as práticas sociais e as trajetórias históricas que moldam as cidades latino-americanas.

Esse movimento também repercute no próprio campo da gestão urbana. Se reconhece que o debate tem se estruturado em torno de diferentes matrizes interpretativas que vão desde abordagens técnico-administrativas, centradas em instrumentos e governança, até perspectivas críticas que enfatizam conflitos urbanos, desigualdades socioespaciais e disputas políticas na produção da cidade. Nesse contexto, para além de um corpo teórico unificado, o que se observa é a pluralidade epistemológica, na qual diferentes tradições analíticas disputam formas de nomear, interpretar e explicar os problemas urbanos contemporâneos.

Se o debate epistemológico delineia os contornos do campo dos estudos urbanos, o que um periódico efetivamente publica possibilita observar como esse debate acontece no âmbito da produção acadêmico-científica de conhecimento. A produção recente da urbe. Revista Brasileira de Gestão Urbana sugere, pois, um recorte interessante para entender esse movimento. Mais recentemente, a leitura sistematizada dos artigos publicados em 2024 e 2025 (volumes 16 e 17, respectivamente), permite identificar a variedade temática que marca os estudos urbanos na América Latina, mas também a diversidade regional, a presença de autores(as) latino-americanos(as), bem como perspectivas analíticas e estratégias metodológicas mobilizadas pelos(as) autores(as) pela urbe

Quanto à origem das autorias, o conjunto de artigos publicado pela urbe em 2024 e 2025 sugere uma base brasileira em diálogo com a América Latina. Dos 65 artigos do biênio, reunidos em duas edições, 89,2% situam-se no cenário latino-americano e 72,3% apresentam autoria exclusivamente brasileira. Entre os 27,7% de artigos com pelo menos uma afiliação estrangeira, 61,1% estão vinculados à América Latina. Isso, porém, não deve ser lido como sinal de fechamento. Trata-se, antes, de uma internacionalização orientada editorialmente pela urbe, que aposta na interlocução regional como estratégia para qualificar e ampliar a circulação latino-americana do debate urbano.

Esse movimento também aparece nas chamadas temáticas da revista. A edição especial sobre Desigualdades Urbanas e Segregação (vol. 17, 2025) reuniu onze artigos aprovados a partir dos mais de cem submetidos especificamente para esta chamada, todos vinculados à América Latina, sendo um terço deles com afiliações exclusivamente fora do Brasil. Por sua vez, a chamada atualmente em editoração, dedicada à Acessibilidade e Interseccionalidade na América Latina, recebeu 85 manuscritos, com percentual superior a 35% de autoria estrangeira, dos quais 93% provenientes de outros países latino-americanos. Assim, a interlocução regional comparece também como um traço das agendas mobilizadas pela urbe editorialmente.

 

 

Relacionado à ciência aberta com IDEIA, a dimensão de gênero aparece no conjunto publicado pela urbe recentemente. No corpus analisado, 47,4% dos artigos têm mulheres como primeiras autoras. O dado é coerente com a própria composição do corpo editorial da revista, que mantém paridade de gênero entre seus membros. O diálogo com a audiência do continente também se expressa na política editorial multilíngue do periódico, que publica artigos em português, espanhol e inglês, respectivamente, 51, 14 e 11 textos no biênio analisado. Trata-se, portanto, de uma abertura com vistas à maior circulação do conhecimento, diversidade de vozes e ampliação dos interlocutores do debate urbano latino-americano.

Em termos temáticos, os artigos publicados sugerem a centralidade de questões como segregação socioespacial, mobilidade urbana, governança metropolitana, gestão de resíduos, infraestrutura urbana e financeirização do espaço. Ao mesmo tempo, ganham espaço agendas mais inclusivas, como desigualdades de gênero na mobilidade, racismo ambiental e fundiário, territorialidades religiosas afro-brasileiras e formas alternativas de apropriação do espaço público. Esse conjunto indica um campo fortemente ancorado em problemas empíricos das cidades latino-americanas, mas também em diálogo com debates contemporâneos sobre justiça urbana, sustentabilidade e direito à cidade.

A leitura dos métodos mobilizados nos artigos contribui para aprofundar a compreensão sobre os termos em que a urbe vem sustentando seu posicionamento editorial na América Latina. Destaca-se que um número significativo de artigos utiliza análises quantitativas baseadas em bases de dados secundárias, muitas vezes com tratamento estatístico ou espacial. Não obstante, o estudo de caso (simples ou múltiplo) é a estratégia metodológica dominante, com recortes territoriais específicos e análises aprofundadas de fenômenos urbanos localizados em cidades como São Paulo, Fortaleza, Bogotá, Recife e Curitiba. Há também uma forte presença de abordagens qualitativas interpretativas, especialmente em estudos urbanos críticos, englobando etnografias, observação participante e entrevistas e grupos focais, por exemplo.

Esse panorama nos permite tecer algumas reflexões interessantes. Primeiramente, confirma-se a diversidade temática e a pluralidade epistemológica que marcam os estudos urbanos no continente, sendo possível mesmo assim identificar algumas convergências teórico-conceituais importantes, principalmente em torno do debate sobre produção do espaço urbano e desigualdades socioespaciais com contribuições da teoria social crítica.

Um segundo eixo está associado às abordagens de governança urbana e políticas públicas, mobilizando referenciais como teoria da difusão de políticas, teoria da ação coletiva institucional, e capacidades institucionais. Nesse grupo, os estudos tendem a analisar a implementação de políticas públicas urbanas, instrumentos normativos e arranjos institucionais relacionados a temas como saneamento, gestão de resíduos, mobilidade urbana, planejamento territorial e regionalização de serviços. Trata-se de uma vertente mais próxima da análise de políticas públicas e da gestão urbana, muitas vezes articulada a debates sobre sustentabilidade, eficiência institucional e capacidade estatal.

Um terceiro conjunto de trabalhos aproxima-se de abordagens socioculturais e interpretativas do urbano, enfatizando dimensões simbólicas, culturais e cotidianas da cidade. Nesse grupo aparecem discussões sobre movimentos sociais, ativismo em rede, arte de rua, dimensões simbólicas da paisagem, migrantes, teoria queer, práticas cotidianas e micro-resistências. Esses estudos dialogam com perspectivas da sociologia urbana, da geografia cultural e dos estudos críticos da cidade e tendem a mobilizar com maior frequência autores(as) brasileiros(as) e latino-americanos(as). Da mesma forma o fazem estudos com posicionamentos contra hegemônicos que discutem o feminismo, o racismo, a perspectiva da colonialidade do poder e as diversas lógicas em torno do capital.

Além desses, observa-se um conjunto de contribuições voltadas para agenda ambiental e de infraestrutura urbana, que articula conceitos como soluções baseadas na natureza, drenagem urbana, economia circular, degradação ecológica e gestão de resíduos. Esses trabalhos indicam uma crescente incorporação de debates socioambientais no campo dos estudos urbanos, frequentemente conectados à gestão pública e à sustentabilidade urbana.

As reflexões apresentadas, baseadas nas últimas publicações na urbe, reforçam a noção de que os estudos urbanos na América Latina são marcados por uma grande variedade temática e amplitude epistemológica, configurando uma característica relevante, na medida em que diferentes tradições teóricas dialogam para compreender as múltiplas dinâmicas que configuram as cidades da região. Ao valorizar a pluralidade de perspectivas epistemológicas e de experiências empíricas, abre-se espaço para consolidar agendas de pesquisa que não apenas analisam as cidades latino-americanas, mas também produzem conhecimento a partir delas. Afinal, ao contrário da perspectiva dicotômica que cerca o pensamento moderno, somos múltiplos!

Para ler os volumes completos, acesse

URBE, Desigualdades Urbanas e Segregação (vol. 17, 2025)

URBE, Desigualdades Urbanas e Segregação (vol. 16, 2024)

Links externos

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Como citar este post [ISO 690/2010]:

LUNELLI, A., FERREIRA, A.C.S. and BUGS, G. Pensar o urbano na América Latina entre aportes empíricos e epistemológicos [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2026 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2026/05/05/pensar-o-urbano-na-america-latina-entre-aportes-empiricos-e-epistemologicos/

 

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