Ilda Renata Andreata Sesquim, Editora de Mídias e Comunicação do periódico História da História, Doutoranda e Mestre em História pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), Ouro Preto, Minas Gerais, Brasil.
O artigo Uma história reacionária? Reflexões sobre a desdemocratização do passado nos Estados Unidos da “Era Trump”, de Arthur Lima de Avila, publicado no periódico História da Historiografia: International Journal of Theory and History of Historiography (vol. 18, 2025), analisa como disputas políticas recentes nos Estados Unidos transformaram o passado em um campo de batalha ideológico. A pesquisa argumenta que ofensivas contra o ensino crítico da história, especialmente em torno da escravidão e do racismo, fazem parte de um processo mais amplo de desdemocratização e de restrição do debate público.
O estudo investiga as chamadas “guerras da história” na “Era Trump”, concentrando-se em leis contra a Teoria Crítica da Raça (CRT) e ataques conservadores a iniciativas como o 1619 Project. Desenvolvida como um ensaio teórico e historiográfico, a pesquisa analisa legislações estaduais, discursos políticos e documentos produzidos por setores conservadores entre 2016 e os primeiros anos da década de 2020. O objetivo é compreender como determinados usos do passado vêm sendo mobilizados para legitimar projetos autoritários e limitar discussões sobre desigualdade racial e violência histórica.
Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e integrante do Laboratório de Estudos sobre os Usos Políticos do Passado (LUPPA), Arthur Lima de Avila articula história da historiografia e análise política contemporânea. O autor dialoga com pensadores como Wendy Brown, Achille Mbembe e Sheldon Wolin para discutir conceitos como “má-fé” e “ignorância epistêmica”. A pesquisa busca problematizar como o silenciamento de histórias de opressão atua na preservação de estruturas de dominação racial e social.
Entre os resultados, o artigo demonstra que as leis anti-CRT operam por meio de uma “negação pelo silenciamento”, produzindo versões higienizadas do passado que dificultam o reconhecimento de violências históricas e bloqueiam debates sobre reparação. O estudo argumenta que essa ofensiva ultrapassa o campo educacional e integra um processo político mais amplo de enfraquecimento democrático. Para a área da História, o trabalho alerta para os riscos de uma “redisciplinarização” reacionária, em que critérios políticos passam a limitar o debate historiográfico. Já para a sociedade, a pesquisa evidencia como narrativas nacionalistas e excludentes podem restringir a cidadania e aprofundar desigualdades sociais e raciais.
O autor conclui que a história vem sendo mobilizada como instrumento de refundação simbólica da nação em bases excludentes, colocando em xeque tanto a democracia quanto a legitimidade pública das Ciências Humanas. O artigo também sugere que ataques ao ensino crítico da história tendem a se intensificar em contextos de avanço neoliberal e conservador, apontando paralelos com debates observados no Brasil, como os relacionados ao movimento Escola sem Partido. Nesse cenário, a pesquisa destaca a necessidade de defender a autonomia acadêmica e a produção de conhecimento crítico diante das disputas contemporâneas sobre memória, educação e democracia.
Para ler o artigo, acesse
DE AVILA, A. L. Uma história reacionária? Reflexões sobre a desdemocratização do passado nos Estados Unidos da “Era Trump”. História da Historiografia: International Journal of Theory and History of Historiography [online]. 2025, vol. 18, pp. 1–27 [viewed 01 July 2026]. https://doi.org/10.15848/hh.v18.2070. Available from: https://www.scielo.br/j/hh/a/yBSCpkGfBPPftzjQb6chkDh/abstract/
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