Pena, tinta e coração em dossiê de Varia Historia

Ygor Gabriel Alves de Souza, Bolsista da Varia Historia, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil

O processo de escrever e os resultados desse procedimento entre o surgimento da imprensa e o fim do século XVIII são os temas principais do dossiê “Cultura Escrita no Mundo Moderno”, publicado pela Varia Historia (v. 35, n. 68), periódico do Programa de Pós-Graduação em História da UFMG. Organizado por Guiomar de Grammont (IFAC/UFOP) e Márcia Almada (EBA/UFMG), o dossiê traz um conjunto de textos que discutem o assunto da escrita sob o viés da cultura material, abordando desde os processos de tradução entre os séculos XVI e XVII até as investigações sobre a tipografia e iconografia na imprensa mexicana do setecentos. Passando também pelas discussões sobre os “escritos de foro íntimo”, as formas de escritas indígenas na América do Sul, os aspectos subjetivos e emocionais da escrita, além de estudos sobre a circulação de pequenos escritos na Alta Idade Moderna, o dossiê contempla textos que versam sobre questões técnicas da produção escrita e também sobre os usos e circulação dos textos produzidos.

Roger Chartier, no artigo “Mobilidade dos textos e diversidade das línguas: traduzir nos séculos XVI e XVII”, discute as práticas de tradução durante os séculos XVI e XVII, abordando três aspectos essenciais para se pensar a adaptação de textos para idiomas distintos: o papel do tradutor na Idade Moderna, a circulação das obras e a intraduzibilidade. Recorrendo a trechos de Cervantes, o autor demonstra como a consolidação da escrita como profissão está acompanhada das práticas de tradução e da transformação do universo dos editores, inclusive sobre o ponto de vista econômico. Sobre o aspecto da circulação, Chartier lança mão do marco teórico da história conectada para refletir sobre como a tradução, para além de possibilitar às obras alcançar novos públicos em locais distintos daquele de produção, gera a modificação e adaptação do texto original, possibilitando discutir os múltiplos sentidos de uma obra e suas ressignificações. Outro ponto apresentado no artigo aborda a existência de obras e termos que não podem ser traduzidos por não haver significado completo deles na nova língua. A fim de demonstrar os três pontos, Chartier realiza também três análises de caso nas quais esmiúça detalhes da tradução de obras de Castiglione, Las Casas e Gracián.

Em artigo intitulado “Escribir a corazón abierto: emoción, intención y expresión del ánimo en la escritura de los siglos XVI y XVII”, Fernando Bouza busca analisar as dimensões pessoais e expressivas de textos produzidos entre os séculos XVI e XVII, investigando especificamente cartas produzidas pelo teólogo sardo Sigismondo Arquer. Bouza estuda os documentos epistolares tanto em seus aspectos materiais como também na forma como a escrita de cartas pode ser representativa de algo maior do que as próprias subjetividades dos indivíduos que a produz, pois, no período analisado, escrever uma correspondência poderia, segundo o autor, indicar o pertencimento a um determinado ethos. Por fim, Bouza demonstra como há para Arquer uma distinção entre as cartas escritas “com o coração” e aquelas escritas “com pena”, concluindo que essa distinção não pode ser entendida a partir das noções contemporâneas de individualidade, mas sim por meio da compreensão das noções de privacidade e de autoria na Idade Moderna.

O artigo de Ana Paula Megiani, intitulado “Escritos breves para circular: Relações, notícias e avisos durante a Alta Idade Moderna (sécs. XV-XVII)”, explora os escritos produzidos com o objetivo de disseminar informações, eventos e acontecimentos entre os séculos XV e XVII. As Relações de Aviso, de Sucesso e de Arbítrio são analisadas pela autora desde sua dimensão técnica e construtiva — a quantidade de fólios, por exemplo — até a prospecção do impacto da difusão da imprensa sobre a produção desse tipo de material. Megiani ressalta a característica própria desses escritos e a necessidade de diferenciá-los da produção de periódicos no oitocentos. A autora destaca também que no Brasil existem elementos que devem ser levados em consideração para se pensar a circulação de notícias e as próprias relações culturais envolvidas: a ausência de Universidades e de imprensa, bem como o trabalho linguístico desenvolvido por ordens religiosas e a circulação de manuscritos. Perceber essas questões e analisá-las em conjunto com a circulação das Relações e de ideias, segundo Megiani, “abre importantes vertentes para se buscar a compreensão dos mecanismos de encontro da cultura europeia com as culturas que passaram a se conectar a ela após a criação dos Impérios ultramarinos” (MEGIANI, 2019, p. 560).

O dossiê também conta com o artigo “De la indiferencia entre lo temporal y lo eterno: élites indígenas, cultura textual y memoria en las fronteras de América del Sur”, de Guillermo Wilde e Fabián Vega, no qual são analisados produções do contexto das missões guaraníticas na América do Sul, buscando identificar nos textos a existência da distinção teórica entre escritos “seculares” e “espirituais”. Examinando textos de literatura guarani e cartas de autoridades locais, os autores buscam compreender em que medida as duas dimensões se misturavam, sobretudo nos espaços frequentados pela elite indígena. De autoria de Guadalupe Rodríguez Domínguez, o artigo “Primeros vagidos de tipografía y biblioiconografía mexicana del siglo XVI” estuda as quatro primeiras imprensas instaladas no México no século XVI. Analisando os tipos gráficos e questões ligadas diretamente aos elementos materiais da produção impressa a partir de 1539, Rodríguez Domínguez demonstra como esses elementos foram fundamentais para a construção de uma cultura escrita mexicana, além da constituição da imprensa como um negócio. Por fim, o texto de Chrıstıan Jouhaud, “Literatura da experiência no século XVII”, analisa um manuscrito produzido pelo valet de chambre Marie Du Bois no entre 1647 e 1676. Argumentando criticamente à definição de “escrito de foro íntimo” e mobilizando a noção de “sociedade de literatura”, Jouhaud demonstra que o texto trata de questões íntimas de quem escreve, mas existem outros elementos, pois para além disso “os gestos usuais da vida e das sociabilidades, a realidade das hierarquias sutis e das ações assombradas por imagens, por exemplo militares ou religiosas, ocupam ali o primeiro lugar” (JOUHAUD, 2019, p. 458).

Para saber mais sobre os conceitos que nortearam a construção do dossiê e o trabalho de organização dos textos, confira a entrevista realizada com as organizadoras Guiomar de Grammont e Márcia Almada, disponível no canal Varia Historia, no YouTube.

Para ler os artigos, acesse

Varia hist. vol.35 no.68 Belo Horizonte May/Aug. 2019

Links externos

Varia Historia – VH: www.scielo.br/vh

Site Varia Historia – www.variahistoria.org

Entrevista com Guiomar de Grammont e Márcia Almada sobre o dossiê “Cultura Escrita no Mundo Moderno” no Canal Youtube Revista Varia Historia –  https://youtu.be/FiPPfRLA3Zw

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

SOUZA, Y. G. A. Pena, tinta e coração em dossiê de Varia Historia [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2019 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2019/06/18/pena-tinta-e-coracao-em-dossie-de-varia-historia/

 

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