O que há de comum entre Don Quixote e o Movimento Escola Sem Partido?

Tiago Ribeiro Santos, Professor-visitante da Universidade Regional de Blumenau (FURB), Blumenau, SC, Brasil.

Gicele Maria Cervi, Professora da Universidade Regional de Blumenau (FURB), Blumenau, SC, Brasil.

O que permite que o Movimento Escola sem Partido dê valor de realidade ao que ele difunde por meio de suas páginas na internet? A que regras estruturais este subuniverso fechado de sentidos atende ao produzir conteúdos contra um “professor-doutrinador”?  O artigo “D. Quixote contra os moinhos: um ensaio sobre o Movimento Escola Sem Partido”, publicado no periódico Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação (v. 27, n. 105), procura responder a estas perguntas, tornando visível a forma quixotesca, convencional e binária de pensamento que estrutura o discurso propagandista do MESP.

A pesquisa levantou um conjunto de materiais difundidos pelo Movimento em seu site na internet e, principalmente, em seu cartaz de “Deveres de condutas do professor”. A partir de tais materiais, pôde ser observada uma ordem narrativa fundada em duas premissas maiores, compondo as reivindicações da Escola Sem Partido:

1. A existência de um mundo heterônomo e virtualmente confuso.

No objetivo de regular uma relação pedagógica às avessas, o site do MESP enumera uma lista gestos, atividades, sinais etc. que permitem “flagrar um doutrinador” (ESCOLA SEM PARTIDO, 2019). Esta lista, como um instrumento de detecção de “heresias”, condiciona a possibilidade de que denúncias sejam realizadas pela própria população de seguidores do Movimento que, por sua vez, assumiria uma voz importante no reconhecimento de supostas mazelas educacionais. A estratégia, desse modo, apelando para conteúdos virtuais, fotos, flagrantes de professores partidariamente engajados etc., descontextualizados ou não, contribuiria igualmente na promoção da fofoca como uma forma arcaica e comunitária de controle social, mostrando-se tão mais eficaz quanto mais produz uma imagem pública depreciada do professor.

2. A necessidade mítica de um professor sagrado.

No calor, portanto, de um mundo escolar julgado em chamas, somente a atualização mítica e redentora de um professor sagrado poderia fazer face ao mundo profano apresentado acima. Nas palavras de Lemos (2019), para vencer disputas política, hoje, seria preciso dispor de uma narrativa política capaz de criar personagens, e, principalmente, criar inimigos bons para serem odiados e combatidos, entre os quais se encontraria, aqui, o professor-doutrinador. A fim de marcar sua posição frente a este professor, o MESP tem de colonizar um vocabulário moral na forma de termos como “seriedade”, “justiça”, “profundidade” etc. autoproclamando, em benefício de sua própria identidade, formas exemplares de educação. Essa narrativa, ao estruturar uma realidade binária do mundo escolar baseada em valores positivos e negativos, por sua vez, também tende a produzir divisões internas entre os próprios professores em função de seus diferentes posicionamentos frente ao MESP.

As conclusões sublinham estratégicas discursivas comprometidas em instaurar uma visão de mundo escolar apoiado em esquemas binários de pensamento, um mundo de coisas possíveis e interditas, reais e irreais, meritosas e condenáveis. As exigências do MESP podem ser interpretadas, assim, como um esforço preocupado em estabelecer separações e oposições encontradas também em outras esferas das políticas educacionais. Macedo (2017, p. 515) pôde observar na atuação do MESP, frente às negociações de preparação da Base Nacional Curricular Comum (BNCC), uma produção de novas divisões, por exemplo, “em prol da separação entre espaço público e privado, transferindo a Educação para o espaço privado da família, a quem caberia toda a formação moral e ética das crianças”.

Na luta pela conservação de um universo de imagens próprias, o MESP deve então não apenas criar, mas, sobretudo, desclassificar, um tipo imaginado de professor. O Movimento afirma, assim, um projeto heroico de combate às mazelas educacionais como D. Quixote que necessitava de suas próprias ilusões para combater gigantes, quando, em verdade, tratavam-se apenas de moinhos.

Referências

ESCOLA SEM PARTIDO. Flagrando o doutrinador. São Paulo, SP, 2004. Disponível em: http://escolasempartido.org/flagrando-o-doutrinador

LEMOS, R. Diante da realidade, seis ficções epistemológicas. In: ABRANCHES, S. et al. Democracia em risco? 22 ensaios sobre o Brasil hoje. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 158-170.

MACEDO, E. AS DEMANDAS CONSERVADORAS DO MOVIMENTO ESCOLA SEM PARTIDO E A BASE NACIONAL CURRICULAR COMUM. Educ. Soc. [online]. 2017, vol. 38, no. 139, pp.507-524, ISSN 0101-7330 [viewed  04 February 2020]. DOI: 10.1590/es0101-73302017177445. Available from: http://ref.scielo.org/m5b9nf.

Para ler o artigo, acesse

SANTOS, T. R. and CERVI, G. M. D. Quixote contra os moinhos: um ensaio sobre o Movimento Escola Sem Partido. Ensaio: aval.pol.públ.Educ. [online]. 2019, vol. 27, no. 105, pp.712-731, ISSN 0104-4036 [viewed 04 February 2020]. DOI: 10.1590/s0104-40362019002701549. Available from: http://ref.scielo.org/sbnwsz.

Link externo

Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação – ENSAIO: www.scielo.br/ensaio

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

SANTOS, T. R. and CERVI, G. M. O que há de comum entre Don Quixote e o Movimento Escola Sem Partido? [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2020 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2020/02/04/o-que-ha-de-comum-entre-don-quixote-e-o-movimento-escola-sem-partido/

 

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