Quem tem autoridade para dizer o que e como deve ser ministrado o ensino de matemática?

Wagner Rodrigues Valente, Professor associado Livre Docente do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Paulo, Campus Guarulhos, SP, Brasil.

Algumas questões como: Por que os professores de matemática ensinam o que ensinam? Como foram constituídos saberes que se transformaram em objeto de trabalho dos professores? Que preparação para ser um profissional do ensino de matemática devem ter os futuros professores? Além dessas, outras questões estão respondidas nos diferentes textos integrantes do número temático “História da educação matemática”, publicado pelos Cadernos Cedes (vol. 41, no. 115), que aborda o ensino de Desenho com a finalidade de preparação a uma profissão em Portugal; que discute a constituição dos problemas aritméticos tanto na formação de professores como no ensino; bem como o de mostrar a ação de grupos que mudaram o ensino de matemática na Espanha.

Também evidencia relações entre a matemática superior e a matemática elementar do curso secundário; analisa o papel de Everardo Backheuser na organização do ensino de aritmética em tempos de Escola Nova e o caso da álgebra no ensino estadunidense; mostra o papel de Klautau na constituição de um programa de matemática para formar professores primários no Pará e, por fim, revela como foi sistematizada uma matemática moderna para formar professores por meio das ações de Osvaldo Sangiorgi.

Imagem: Centro de Documentação GHEMAT Brasil. Arquivo Pessoal Osvaldo Sangiorgi (APOS). Imagem cedida gratuitamente pelo GHEMAT para uso nesse post.

Imagem 1. O ator Marco Nanini e o Professor Osvaldo Sangiorgi nos estúdios da TV Cultura ministrando cursos pela televisão, de matemática moderna, para professores, em finais da década de 1960.

O conjunto dos estudos permite perceber a natureza diferente que têm os saberes organizados para o ensino. Muito diferente do senso comum que imagina que o ensino nada mais é do que uma questão didática, uma transposição dos saberes das comunidades científicas para formar pessoas. Os estudos históricos trazidos a este número mostram o quanto os saberes envolvidos no ensino têm natureza diferente daqueles contidos nos campos disciplinares, nas searas científicas, em particular, no campo disciplinar matemático.

A matemática do ensino tem características próprias a depender das finalidades da escola, dos interesses que estão em jogo num determinado contexto, do embate de forças que sempre se estabelece entre atores posicionados em diferentes campos interessados na elaboração de um novo currículo.

No princípio, era a ação: necessidades do uso da matemática para a guerra (construção de fortificações, manejo de armas e calibre de canhões) fazem o ensino de matemática ter finalidade técnica, presente nos cursos de formação militar. O tempo passa e a separação entre cursos militares e civis levam o ensino de matemática para formar engenheiros. Serão os militares e engenheiros os primeiros professores de matemática.

Depois da ação, o verbo: na década de 1930 assiste-se à criação das faculdades de filosofia e com elas a seção de Matemática para formar matemáticos. Depois da ação e do verbo, a profissionalização: o professor como um profissional. A partir da década de 1980 cresce o movimento de formação matemática para o ensino, para formar o profissional do ensino. Emerge o campo da Educação Matemática.

Quem tem autoridade para dizer o que e como deve ser ministrado o ensino de matemática? A história da educação matemática autoriza dizer que o ensino constrói os seus próprios saberes, o ensino de matemática ao longo do tempo constrói seus próprios métodos e organização de seus conteúdos. A depender a época, o detentor de expertise que se constitui como autoridade para sistematizar métodos e conteúdos matemáticos muda. Internacionalmente e no Brasil, numa linha do tempo, tais experts são militares, posteriormente engenheiros, em seguida bacharéis, licenciandos em matemática e, na atualidade, educadores matemáticos.

A seguir, assista ao vídeo de Wagner Rodrigues Valente com reflexões sobre a história da educação matemática no Brasil.

Para ler o artigo, acesse

VALENTE, W.R. História da educação matemática. Cadernos CEDES [online]. 2021, vol. 41, no. 115, pp. 164-167, ISSN: 1678-7110 [viewed 17 November 2021]. https://doi.org/10.1590/CC245614. Available from: http://ref.scielo.org/rp96v7

Links Externos

Cadernos CEDES – CCEDES: www.scielo.br/ccedes

Cadernos CEDES, Volume: 41, Número: 115: https://www.scielo.br/j/ccedes/i/2021.v41n115/

Educação Matemática – Revista Pensar a Educação: https://pensaraeducacaoemrevista.com.br/2017/03/29/os-movimentos-da-matematica-na-escola/

História da Matemática: história de uma disciplina – DOSSIÊ- Revista Diálogo Educacional: https://www2.pucpr.br/reol/pb/index.php/dialogo?dd99=issue&dd0=280

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

VALENTE, W.R. Quem tem autoridade para dizer o que e como deve ser ministrado o ensino de matemática? [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2021 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2021/11/18/quem-tem-autoridade-para-dizer-o-que-e-como-deve-ser-ministrado-o-ensino-de-matematica/

 

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