Diálogo entre grande mídia e Saúde Coletiva: o desafio da produção da série televisiva “Unidade Básica”

Helena Lemos Petta, doutora em Saúde Coletiva pelo Departamento de Medicina Preventiva da Universidade de São Paulo, criadora da série médica televisiva Unidade Básica, São Paulo, SP, Brasil.

O artigo Grande mídia e comunicação sobre saúde coletiva e atenção primária: o desafio da produção da série televisiva “Unidade Básica”,de Helena Lemos Petta, José Ricardo de Mesquita Ayres e Ricardo Rodrigues Teixeira, publicado na Revista Interface, analisou os princípios, conceitos e situações de práticas em saúde passíveis de transposição para a linguagem de uma série médica televisiva. A pesquisa mostrou que alguns conceitos do campo da Saúde Coletiva e da Atenção Primária em Saúde foram potencializados no processo de criação da série, enquanto alguns mostraram-se especialmente desafiadores para a comunicação, em particular o conceito de integralidade em saúde.

Instigados pelo desafio de construir o diálogo entre grande mídia e a Atenção Primária em Saúde/Saúde Coletiva, um grupo interdisciplinar e intersetorial de profissionais formulou o projeto de uma série televisiva, denominado “Unidade Básica”. O projeto, além de visar a série em si como produto, e dado o pioneirismo da iniciativa, propôs-se a buscar respostas para as questões acima listadas. Todo o processo de construção da experiência passou, então, a ser estudado desde uma perspectiva acadêmica, tendo gerado debates com especialistas, nacional e internacionalmente, uma tese de doutorado e publicações na imprensa leiga e acadêmica.

A série médica “Unidade Básica”, televisionada em setembro de 2016, pelo canal Universal Channel, retratou em 8 episódios o dia a dia de uma Unidade Básica de Saúde (UBS), tendo como personagens principais profissionais de saúde e pacientes com seus dilemas e desafios. Buscou-se construir uma abordagem sobre o universo da saúde e os processos saúde-doença-cuidado, diferenciada daquelas hegemonicamente retratadas pela grande mídia. A primeira autora do artigo em questão, médica e sanitarista, participou de todo processo de construção da série, e teve, portanto, lugar privilegiado na apreensão dos fatos e dos processos relacionados à construção da série.

Imagem: Divulgação.

Buscando explorar e compartilhar ativamente uma hermenêutica da experiência em estudo, foi realizada aqui uma pesquisa qualitativa, que busca interpretar fenômenos sociais (interações, comportamentos, etc.) em termos de sentidos que as pessoas lhe dão, sendo comumente denominada como pesquisa interpretativa. Neste tipo de pesquisa, frequentemente se emprega diversos métodos, com uma ampla variedade de práticas interpretativas interligadas, com objetivo de se conseguir compreender melhor o fenômeno observado. Nesta pesquisa, a primeira autora foi uma observadora participante.

A pesquisa como um todo buscou construir categorias interpretativas no diálogo entre as pré-compreensões e interesses de seus autores e o processo artístico, cotejando-se referências teóricas do campo da APS/Saúde Coletiva com a experiência de produção da série em si e de outros materiais produzidos a partir dessa experiência – anotações de observações de tipo etnográfico em caderno de campo e entrevistas com participantes do processo de produção da série.

Analisou-se o material empírico produzido com base nas categorias interpretativas e conceitos do campo da APS/Saúde Coletiva privilegiados no estudo. Dentre estes destacamos: a polarização entre diferentes racionalidades implicadas nas ações de saúde: presença de um discurso biomédico versus novas formas de se pensar o Cuidado em saúde, discutido em Camargo (2005); novas formas de se pensar a promoção à saúde e prevenção de agravos: o conceito de risco e suas relações com o quadro conceitual da redução de vulnerabilidades, como proposto por Ayres (2002) e a presença de atributos da Atenção Primária à Saúde, tendo a integralidade como eixo norteador de suas ações, tendo Mattos (2002) como um grande referencial.

Os autores concluíram que sim é possível transpor princípios, conceitos e situações de prática da APS/Saúde Coletiva para a linguagem de uma série médica televisiva, embora alguns sejam comunicados melhores do que outros. E um procedimento que se mostrou favorecedor desta possibilidade foi não exatamente a proposição de uma linguagem completamente outra na “guerra de narrativas”, mas a ressignificação de alguns de seus elementos chaves.

O artigo em questão fez parte da seção “Debates” da Revista Interface, com o tema “Grande mídia, Saúde Coletiva e Atenção Primária”, e contou com os seguintes artigos como debatedores: Menos estigma, mais complexidade: uma nova lente sobre a Atenção Primária em Saúde e o Sistema Único de Saúde nas telas, escrito por Thássia Azevedo Alves e Alexandre Rocha Santos Padilha; Série televisiva “Unidade Básica”: uma celebração da saúde coletiva e da democracia, de Gustavo Tenório Cunha; Negociação e cooperação: apontamentos sobre os desafios da produção da série “Unidade Básica”, de Coraci Ruiz e o artigo O cuidado em cena: processos de criação audiovisual na interface entre comunicação, saúde coletiva e atenção básica de Marcel Vieira Barreto Silva, Luciano Bezerra Gomes e Ricardo de Sousa Soares.

Referências

ALVEZ, T.A. and PADILHA, A.R.S. Menos estigma, mais complexidade: uma nova lente sobre a Atenção Primária em Saúde e o Sistema Único de Saúde nas telas. Interface (Botucatu) [online]. 2021, vol. 25 [viewed 24 November 2021]. https://doi.org/10.1590/interface.210351. Available from: https://www.scielo.br/j/icse/a/gWHQJLNBTv5hKQxw98F85Nk/

AYRES, J.R.C.M. Epidemiologia e emancipação (2 ed). São Paulo: Hucitec; Rio de Janeiro: Associação Brasileira de Pós-Graduação de Saúde Coletiva, 2002.

CAMARGO Jr, K.R. A biomedicina. Physis. 2005, vol. 15, pp. 177 – 201.

CUNHA, G.T. Série televisiva “Unidade Básica”: uma celebração da Saúde Coletiva e da Democracia. Interface (Botucatu) [online]. 2021, vol. 25 [viewed 24 November 2021]. https://doi.org/10.1590/interface.210311. Available from: https://www.scielo.br/j/icse/a/cnTC8MSRgpYw6pFkVfv6tst/?lang=pt

MATTOS, R.A. A integralidade na prática (ou sobre a prática da integralidade). Cad. Saúde Pública [online]. 2004, vol. 20, no. 5, pp. 1411-16 [viewed 24 November 2021]. https://doi.org/10.1590/S0102-311X2004000500037. Available from: https://www.scielo.br/j/csp/a/4fSwnHx3nWnW49Tzq8KZLKj/?lang=pt

RUIZ, C. Negociação e cooperação: apontamentos sobre os desafios da produção da série “Unidade Básica”. Interface (Botucatu) [online]. 2021, vol. 25 [viewed 24 November 2021]. https://doi.org/10.1590/interface.210276. Available from: https://www.scielo.br/j/icse/a/bpp76WVXgZ7zx3wMRhdGHwG/?lang=pt

SILVA, M.V.B., GOMES, L.B. and SOARES, R.S. O cuidado em cena: processos de criação audiovisual na interface entre Comunicação, Saúde Coletiva e Atenção Básica. Interface (Botucatu) [online]. 2021, vol. 25 [viewed 24 November 2021]. https://doi.org/10.1590/interface.210273. Available from: https://www.scielo.br/j/icse/a/xbY7cHnkNTph7DKgCsbd6xt/

Para ler o artigo, acesse

PETTA, H.L., AYRES, J.R.M. and TEIXEIRA, R.R. Grande mídia e comunicação sobre Saúde Coletiva e Atenção Primária: o desafio da produção da série televisiva “Unidade Básica”. Interface (Botucatu) [online]. 2021, vol. 25 [viewed 24 November 2021]. https://doi.org/10.1590/interface.200607. Available from: https://www.scielo.br/j/icse/a/HKH5X5f5bCK5LHj9cr3hxqw/?lang=pt

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PETTA, H.L. Diálogo entre grande mídia e Saúde Coletiva: o desafio da produção da série televisiva “Unidade Básica” [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2021 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2021/11/24/dialogo-entre-grande-midia-e-saude-coletiva/

 

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