Maternidade em Organizações Militares: mães podem ser heróis?

Eloisio Moulin de Souza, Professor Associado do Programa de Pós-graduação em Administração da Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, ES, Brasil.

Logo do periódico Revista de Administração ContemporâneaEm geral, a maternidade é valorizada pela sociedade e as mulheres são constantemente estimuladas e cobradas para serem mães. Entretanto, apesar desta valorização social, no contexto do trabalho e das organizações a maternidade é desvalorizada, impactando negativamente nas oportunidades laborais e na progressão das carreiras das mulheres, principalmente mulheres que almejam ocupar posições de liderança e destaque nas organizações.

Especificamente quando trazemos a questão da maternidade para o contexto das organizações militares e sua ordem simbólica discursiva que valoriza extremamente corpos masculinos e homens em detrimento de corpos femininos e mulheres, o que caracteriza estas organizações como sendo hipermasculinas, a maternidade adquire significados específicos neste espaço, diferenciando os sentidos produzidos sobre a maternidade nas organizações militares de outras formas de organizações.

Para compreender estas especificidades das organizações militares, o artigo Can Mothers Be Heroes? Maternity and Maternal Body Work in Military Firefighters analisou como a maternidade afeta as mulheres oficiais, portanto, mulheres líderes, que exercem seu trabalho no corpo de bombeiros militares do estado do Espírito Santo. Nesse contexto, os corpos maternais são constituídos como sendo corpos inferiores e inadequados para o exercício das funções laborais, afastando corpos maternais e mulheres do imaginário do bombeiro herói hipermasculino, imaginário extremamente valorizado e consolidado neste espaço.

Para tanto, o Grupo de Pesquisa sobre Poder nas Organizações (GEPO) da Universidade Federal do Espírito Santo, coordenado pelo professor Eloisio Moulin de Souza, conduziu uma pesquisa empírica junto ao corpo de bombeiros militar do Estado. O GEPO pesquisa diversidade nas organizações, com foco na inclusão e equidade de grupos identitários minoritários, buscando evidenciar as relações de poder que produzem estas hierarquias e desigualdades em cada contexto organizacional.

Foram entrevistadas todas as mulheres oficiais (primeira tenente até capitã) que vivenciaram a maternidade no contexto militar estudado para se compreender como a maternidade afeta estas mulheres oficiais, bem como a relação da maternidade com a ordem simbólica e imaginário hipermasculino que permeia os bombeiros militares. A relação entre a maternidade e o imaginário do bombeiro herói foi analisada, uma vez que ainda permanece inexplorado como este imaginário hipermasculino presente na cultura dos bombeiros afeta mães e gestantes no trabalho militar, evidenciando que existe uma forte relação entre o bombeiro herói hipermasculino na construção dos significados sobre a maternidade.

Desta forma, a construção cultural do herói hipermasculino presente nos bombeiros militares funciona como uma norma discursiva não escrita que afeta negativamente a situação das mães e mulheres grávidas na organização ao conceber o corpo materno como um corpo apenas reprodutor, ao invés de um corpo produtivo. Isso cria uma oposição dualismo que solapa, separa e classifica os corpos de mães e gestantes, dissociando-as da imagem do bombeiro ideal e herói.

O herói hipermasculino que permeia o imaginário cultural do corpo de bombeiros é uma norma discursiva que regula as práticas e a cultura dos bombeiros militares, deslegitimando os corpos maternais, reduzindo o status destes corpos na organização militar. Entretanto, para lidar com esta realidade, as mulheres oficiais utilizam estratégias para resistirem a esta ordem simbólica, procurando reconciliar as demandas conflitantes entre trabalho militar e maternidade.

Conclui-se que dentro das práticas discursivas dos bombeiros militares, a imagem do herói é uma norma discursiva que organiza seu espaço, estabelecendo hierarquias de gênero que excluem o corpo do significado do bombeiro ideal. Nos bombeiros, o herói é hipermasculino e o bombeiro ideal tem um corpo saudável, jovem, atlético, forte, sempre disponível e capaz de fazer tarefas operacionais. Isso fornece uma norma não escrita para os bombeiros militares adquirirem respeito e credibilidade.

Por outro lado, um regime de verdade de gênero que reduz o status dos corpos maternos é estabelecido, concebendo-os como corpos não apropriados para serem heróis, associando os corpos maternos à fraqueza, doença, desordem e falta de compromisso, por colocarem em rico as fronteiras que separam a vida privada familiar da vida pública do trabalho e quebrarem a racionalidade da rotina do trabalho militar. Evidencia-se que existe uma necessidade de o campo da administração aprofundar os estudos sobre maternidade nas organizações, que são relevantes não só para as mulheres, mas também para a construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e equitativa para todos.

Para ler o artigo, acesse

SOUZA, E.M. Can Mothers Be Heroes? Maternity and Maternal Body Work in Military Firefighters. Rev. Adm. Contemp. [online]. 2022, vol. 26, no. suppl, e210193 [viewed 19 September 2022]. https://doi.org/10.1590/1982-7849rac2022210193.en. Available from: https://www.scielo.br/j/rac/a/cG8KwhKszjdPJfwvTv9n3TS/.

Links externos

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Revista de Administração Contemporânea: https://rac.anpad.org.br/index.php/rac/index

Revista de Administração Contemporânea – RAC: https://www.scielo.br/j/rac/

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

SOUZA, E.M. Maternidade em Organizações Militares: mães podem ser heróis? [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2022 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2022/09/19/maternidade-em-organizacoes-militares-maes-podem-ser-herois/

 

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