Transtorno do Espectro Autista (TEA) e uma experiência psicodramática

Luiza Lins Araújo Costa, Doutora em Psicologia Social pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Psicóloga clínica com especialização em Psicodrama pela PROFINT, Aracaju, SE, Brasil.

O artigo Psicodrama com crianças dentro do Transtorno do Espectro Autista: uma experiência possível?, publicado na Revista Brasileira de Psicodrama (vol. 30), apresenta uma experiência de psicoterapia psicodramática com uma criança de oito anos dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Embora crianças diagnosticadas com TEA exibam uma gama completa de habilidades intelectuais e de linguagem, em geral compartilham manifestações comportamentais acompanhadas por déficits em três áreas: (a) habilidades sociais e de interação; (b) habilidades comunicativas (verbais e não verbais); e (c) padrões de comportamentos, interesses e/ou atividades restritos, repetitivos e estereotipados (American Psychiatric Association, 2014).

Como o psicodrama é uma abordagem que promove cuidado por meio da ação, com o treino da espontaneidade, criatividade e sensibilidade e auxílio de recursos como jogos e técnicas de dramatização (Lopes & Dellagiustina, 2017), nesse estudo, questiona-se: por que não aproveitar as potencialidades da abordagem também para o atendimento de crianças com TEA?

No caso em questão, a criança apresentava um neurodesenvolvimento atípico, identificado desde os quatro anos, com padrões repetitivos e dificuldades nas relações interpessoais. A autora partiu da noção de que a psicoterapia psicodramática poderia auxiliar na superação de alguns obstáculos da criança por meio da representação dramática, identificando, explorando e expandindo seus papéis, pois a criança se constitui por meio dos papéis que representa (Filipini, 2014).

Durante as sessões iniciais, houve grande resistência na interação, exigindo tempo, paciência e criatividade a fim de trabalhar as características próprias do diagnóstico que afetavam a comunicação. As primeiras interações, por exemplo, se deram por meio do canto improvisado.

Foto. Fundo cinza claro, dois antebraços de uma criança com as mãos bem abertas e as palmas viradas para frente. A pele dela é branca e as mãos estão pintadas de tinta colorida (amarelo, vermelho, laranja, rosa, verde, marrom), cada uma com dois olhos e um sorriso desenhados com tinta preta. É possível ver também o topo da cabeça da criança, ela tem o cabelo curto e preto.

Imagem: Freepik.

Com o fortalecimento do vínculo e a construção de uma relação de confiança, a criança passou a dramatizar com mais facilidade, abordando seus sentimentos, dificuldades e relações. Com o tempo, o desempenho de papéis e o treino da espontaneidade promoveram melhorias nas habilidades sociais e de comunicação da criança também em outros contextos, como na escola.

Embora a pesquisa em questão apresente resultados de apenas uma experiência, ela desvela o fato de que as possibilidades de intervenção e promoção de saúde dentro do TEA são diversas e o psicodrama pode contribuir para esse cuidado, especialmente porque esse enfoque pode gerar diminuição das respostas conservadas e potencializar respostas inéditas e criativas.

Cabe destacar, que as intervenções foram realizadas não apenas com base em pressupostos do psicodrama, mas em uma interface com a psiquiatria, considerando critérios diagnósticos, etiologia e estratégias de enfrentamento.

Além disso, as sessões com a mãe da criança foram fundamentais, pois proporcionaram uma estimulação mais intensiva no ambiente doméstico e maior compreensão dos conteúdos que emergiam a cada sessão.

Como proposta para estudos futuros, sugerimos também que sejam realizados mais estudos com enfoque psicodramático, especialmente, numa perspectiva de intervenção com cuidadores de crianças dentro do TEA, pois ainda se discute muito pouco sobre a importância do cuidado a quem cuida.

Por tudo isso, esse estudo não é apenas sobre o psicodrama, ou um caso clínico de base psicodramática. Este é um artigo sobre diversidade no cuidado e a importância de promover intervenções múltiplas e diversas frente a um diagnóstico igualmente múltiplo e diverso em sua expressão.

Ademais, a ampla divulgação de informações sobre o tema pode promover mudanças no acesso dessas crianças a seus direitos e maior conscientização dentro da sociedade. Portanto, fica o alerta: precisamos falar sobre diversidade, sobre respeito e cuidado a mais de 2 milhões de pessoas diagnosticadas apenas no Brasil, precisamos falar sobre o TEA.

A seguir, assista ao vídeo de Luiza Lins Araújo Costa trazendo informações complementares sobre a pesquisa.

Referências

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. Porto Alegre: Artmed, 2014.

FILIPINI, R. Psicoterapia psicodramática com crianças: Uma proposta socionômica. São Paulo: Ágora, 2014.

LOPES, I., and DELLAGIUSTINA, M. Psicoterapia infantil mediada por contos infantis: Estudo de caso na perspectiva do Psicodrama. Revista Brasileira de Psicodrama [online]. 2017, vol. 25, no. 01, pp. 28–37 [viewed 00]. https://doi.org/10.15329/2318-0498.20170004. Available from: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-53932017000100004&lng=pt&nrm=i&tlng=pt.

Para ler o artigo, acesse

COSTA, L.L.A., DINIZ, F.C.R. and VIANA, S.M.J. Psicodrama com crianças dentro do Transtorno do Espectro Autista: uma experiência possível? Revista Brasileira de Psicodrama [online]. 2022, vol. 30, e1722, ISSN: 2318-0498 [viewed 00]. https://doi.org/10.1590/psicodrama.v30.583. Available from: https://www.scielo.br/j/psicodrama/a/cGy9mq8GPfT7gsWpYbg44Yy/

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Como citar este post [ISO 690/2010]:

COSTA, L.L.A. Transtorno do Espectro Autista (TEA) e uma experiência psicodramática [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2022 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2022/09/20/transtorno-do-espectro-autista-tea-e-uma-experiencia-psicodramatica/

 

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