Evelyn Apolinaria, Universidade de Brasília (UnB), Instituto de Ciência Política, Brasília, DF, Brasil.
A eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, introduziu incertezas significativas nos processos de tomada de decisão do Poder Executivo, frequentemente marcados por um discurso que visava “desconstruir muita coisa”. No coração dessas decisões está o chamado Centro de Governo (CdG), um conjunto de unidades (formais e informais) cuja função principal é apoiar estrategicamente o Presidente da República. O artigo Jair Bolsonaro’s Center of Government: Dynamics and Decision-Making publicado no periódico Brazilian Political Science Review (vol. 20, no. 1, 2026), analisa como esse núcleo foi estruturado e operou durante a gestão Bolsonaro, revelando rupturas atípicas, adaptações pragmáticas e uma postura singular frente à condução do Estado.
A estrutura formal: o fim das secretarias temáticas
Ainda que o governo Bolsonaro tenha herdado uma estrutura básica do Centro de Governo de gestões passadas, ele divergiu de seus antecessores de uma maneira marcante: eliminou as secretarias temáticas dentro da Presidência. Diferente de presidentes como Lula e Dilma Rousseff, que ampliaram o CdG com secretarias focadas em áreas específicas para fortalecer a coordenação política, Bolsonaro preferiu não estabelecer unidades temáticas. A ausência de órgãos voltados ao desenvolvimento e acompanhamento de áreas sociais ou estratégicas sinaliza, na prática, um menor interesse da gestão em priorizar e estruturar políticas públicas.
O cotidiano: ascenso do GSI e a distância da Casa Civil
Ao avaliar as interações de fato (mapeadas a partir da agenda diária e oficial do presidente), o estudo evidencia um padrão inédito de contato. Em seus primeiros anos, Bolsonaro priorizou intensamente reuniões com o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), ao lado do Ministério da Defesa e da cúpula militar, distanciando-se do fluxo comum em comparação a governos anteriores.
Historicamente central na mediação de conflitos interministeriais nos governos FHC e Dilma, a Casa Civil apresentou, sob Bolsonaro, um volume inferior de interações diretas com o presidente. A preferência inicial por oficiais militares sem grande experiência em negociação na arena legislativa para ocupar cargos-chave do executivo resultou em dificuldades de articulação no Congresso e no esvaziamento de agendas próprias do Executivo.

Imagem: Gustavo Leighton via Unsplash
Pragmatismo de sobrevivência e terceirização do governo
As dinâmicas de tomada de decisão do governo mudaram visivelmente na segunda metade do mandato (2021-2022). Pressionado por ameaças de impeachment e pelas sucessivas crises agravadas pela pandemia, Bolsonaro abandonou a forte retórica anticoalizão e passou a adotar negociações seletivas com atores do Congresso.
Foi neste período que ocorreu uma reorientação da coordenação política para a Casa Civil e para a Secretaria de Governo, integrando membros do PP e do PL. Paradoxalmente, enquanto a Casa Civil recebia maior autonomia formal para arbitrar disputas legislativas e interministeriais, o presidente se distanciava das negociações de rotina do governo. A “terceirização” da gestão política para aliados recém-chegados resultou na maior queda de compromissos oficiais e reuniões presidenciais registradas ao longo de seu mandato, com os menores números consolidados em 2021 e 2022.
Conclusão
O caso do Centro de Governo de Jair Bolsonaro representa um arranjo focado muito mais em táticas de sobrevivência política do que na implementação de projetos. Ele operou a partir de um movimento de radicalização e desmonte num primeiro momento, evoluindo para a transferência da gestão do cotidiano aos aliados do Congresso em seus anos finais. Compreender como o CdG funcionou sob essas tensões é fundamental não apenas para interpretar historicamente essa gestão atípica, mas também para dimensionar como estruturas organizacionais são afetadas pelas agendas (ou pela falta delas) de seus governantes.
Para ler o artigo, acesse
APOLINARIA, E. and MAUERBERG, A. Jair Bolsonaro’s Center of Government: Dynamics and Decision-Making. Brazilian Political Science Review [online]. 2026, vol. 20, no. 1, p. 1-33 [viewed 26 May 2026]. https://doi.org/10.1590/1981-3821202600010007. Available from: https://www.scielo.br/j/bpsr/a/Rmkh9Zn3rY89zNPZjXsW7PH/
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Sobre os autores
Evelyn Apolinaria é doutoranda em Ciência Política pela Universidade de Brasília. Possui graduação (2021) e mestrado (2024) em Ciência Política pela Universidade de Brasília. Atua como professora universitária no Centro Universitário de Brasília (UniCEUB) e na Faculdade Republicana. É pesquisadora associada na Fudan University e coordenadora-geral do Observatório do Congresso (UnB). Integra o Laboratório de Pesquisa em Comportamento Político, Instituições e Políticas Públicas (Lapcipp/IPOL/UnB). Tem experiência na área de Ciência Política, atuando principalmente nos seguintes temas: centro de governo, políticas públicas e capitalismo de estado, instituições políticas e metodologias quantitativas.
Arnaldo Mauerberg Júnior é Professor no Instituto de Ciência Política (IPOL) e Pesquisador do Centro de Estudos Avançados de Governo e Administração Pública (CEAG), ambos da Universidade de Brasília (UnB). Economista formado pela Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), Mestre em Economia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) e Doutor em Administração Pública e Governo pela Fundação GetulioVargas (FGV). Também foi Guest PhD Candidate no Departamento de Ciência Política do Massachusetts Instituteof Technology (MIT). Possui interesse de pesquisa e de conhecimento aplicado nos seguintes tópicos: Relações executivo-legislativo, corporate political activities e capitalismo de Estado, políticas públicas, números índices e metodologias quantitativas.
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