A ascensão da China – uma edição especial da Revista Brasileira de Política Internacional

Por Antônio Carlos Lessa e Henrique Altemani de Oliveira

RBPI

Em 2014 estão sendo completados 40 anos de estabelecimento de relações diplomáticas entre o Brasil e a República Popular da China. Sob um regime ditatorial e com a oposição de setores mais radicais das Forças Armadas, a decisão do governo brasileiro decorreu da consideração de que a aproximação com a China era fundamental para o papel que o Brasil desempenhava, junto com o Terceiro Mundo, no processo de negociações para a definição de uma Nova Ordem Econômica Internacional. Com uma ênfase muito mais política que econômico-comercial, não se imaginava naquele momento a potência econômica em que a China iria se transformar.

Neste sentido, a equipe editorial da Revista Brasileira de Política Internacional julgou oportuno o lançamento de um número especial sobre a China, não só para celebrar o duplo reconhecimento em 1974 que se transformou na primeira parceria estratégica proposta pela China em 1993, mas principalmente para buscar uma reflexão mais profunda sobre as estratégias e táticas chinesas para sua crescente presença internacional.

Considerando a já existência de uma extensa produção de qualidade sobre a inserção econômica e comercial chinesa, este número especial procurou avaliar prioritariamente o estado atual da presença daquele país no Sistema Internacional e em suas instituições, seus relacionamentos com as principais potências, com regiões e com potências regionais, enfatizando os aspectos políticos e diplomáticos.

Hoje é consensual que a China adquiriu uma relevância inimaginável há quarenta anos atrás. É uma nova fase correspondendo à percepção da existência de um reconhecimento internacional consensual de que a China já atingiu um patamar de poder que a capacita a assumir um papel muito mais assertivo que o desempenhado até então. E, mais ainda, não só a capacita como, mas na presente década, a China demonstra estar atuando de forma mais assertiva.

Partindo do princípio que os Estados Unidos ainda representam a última ratio do Sistema Internacional, sendo sua liderança fundamental para qualquer tipo de ação coletiva nesse sistema, diferentes analistas ponderam que a ação americana baseia-se na promoção da democracia e da liberdade dos mercados, confundindo, no entanto, seus próprios interesses com os interesses globais.

Em decorrência de limitações de recursos e principalmente devido à oposição da opinião pública norte-americana a intervenções onde seus interesses não estejam diretamente envolvidos, os Estados Unidos procuram forçar uma participação maior dos diferentes atores, através de uma divisão de custos (burden sharing), reforçando a perspectiva de ampliação das práticas de engajamento e de expansão, ao invés da política de contenção utilizada durante a Guerra Fria.

A política de engajamento e de expansão apresentava duas perspectivas. Na primeira, a participação dos Estados Unidos em qualquer questão que afetasse diretamente sua segurança ou o equilíbrio político em regiões consideradas estratégicas, bem como os fluxos comerciais. Noutra perspectiva, a necessidade de maior participação dos diferentes atores que se beneficiam tanto do clima de segurança quanto da globalização econômica. No entanto, no que se refere ao relacionamento com a China no final do século passado e no início do atual, os Estados Unidos oscilavam entre as estratégias de engajamento ou de contenção, em decorrência da ampliação ou redução da percepção da China como uma ameaça.

Esta “Teoria da Ameaça” apresenta, claramente, duas dimensões: a da segurança estratégica e a econômica. No plano da segurança, destacam-se as considerações de uma estratégia armamentista, venda ou transferência irresponsável de armas ou de tecnologias militares e a presença de conflitos históricos e reivindicações territoriais no seu entorno imediato. Sob outra perspectiva, pode-se também refletir que esta tese da ameaça decorre de uma percepção difundida de que a China já está em condições de assumir um papel mais ativo nos assuntos regionais e internacionais.

Neste sentido, há a percepção de que a China ao ampliar seu espaço, necessariamente está deslocando ou reduzindo capacidades de outros países. Já para a China, o fator América é ainda importante, mas muito menos significativo do que era nos anos 1990. Em primeiro, pelo fato da balança de poder entre China e Estados Unidos ter se alterado. Estados Unidos permanece potência, mas a China está crescendo muito mais fortemente, com interesses diversificados em todo o mundo. Em segundo, a estrutura do poder internacional está em processo de mudanças, com o surgimento de novos atores e/ou fatores erodindo a influência americana. Terceiro, a China desenvolveu um novo padrão de interesse, especialmente em termos comerciais e trabalha com múltiplos parceiros, incluindo União Europeia, Estados Unidos, Japão e ASEAN. Como a influência dos Estados Unidos sobre a estratégia diplomática da China diminui, o status de outros países e regiões tende a se ampliar. Enfim, como Estados Unidos e China se tornaram incrivelmente interdependentes, eles têm que agir mais em conjunto e apresentar um relacionamento mais estável.

A mensagem básica da retórica chinesa do desenvolvimento harmônico é a necessidade dos diferentes atores internacionais reconhecerem não só o direito chinês ao desenvolvimento, mas o fato de que a China está crescendo e isto tem que ser, com harmonia, aceito pelo Sistema Internacional de forma a garantir um ambiente de paz, de desenvolvimento e de cooperação. Neste sentido, o princípio da “não interferência nos assuntos internos” deveria ser mais respeitado e o relacionamento internacional deveria estar alicerçado na perspectiva dos interesses mútuos e de “coexistência pacífica”. E, no plano interno, o fato de que o desenvolvimento rápido e localizado gera distorções que deverão ser corrigidas harmoniosamente para englobar o conjunto da sociedade chinesa.

Enfim, tudo isto indica que o processo de redefinição do Sistema Internacional chegou ao ponto de efetivamente ter um forte candidato disputando o poder internacional. Mas que é um ator que, apesar de sua maior relevância e maiores capacidades, ainda apresenta profundas fragilidades internas e externas, não permitindo previsões mais afirmativas nem a curto, nem a médio prazo.

Desta forma, muito terá ainda que ser analisado sobre o que é a China, sobre o que ela quer e como os diferentes atores reagem e reagirão à mudança de peças no jogo de redefinição do Sistema e da Ordem Internacionais.  Nesse sentido, nesta edição especial da Revista Brasileira de Política Internacional procuramos lançar luzes sobre aspectos centrais do processo de ascensão internacional da China, e ela pode ser lida como uma contribuição importante à reflexão feita no Sul Global sobre esse tema.

Este número especial se alinha com a série de edições temáticas especiais sobre temas candentes da agenda internacional contemporânea e também sobre a inserção internacional do Brasil que a RBPI vem publicando ao longo dos últimos anos, todos veiculados em língua inglesa, e contando com participação crescente e altamente qualificada de scholars internacionais. Esta edição ainda tem um significado particular – é fruto da cooperação entre o Instituto Brasileiro de Relações Internacionais, que publica a Revista, e o Centro de Estudos sobre o Pacífico, organização pioneira no Brasil na reflexão de alto nível sobre a realidade emergente na Ásia e sobre as suas consequências para todo o mundo.

A edição, enfim, procura lançar luzes sobre os aspectos centrais da ascensão internacional da China ao longo dos últimos anos e sobre a sua consolidação como potência de envergadura verdadeiramente mundial. O conjunto de artigos publicados pode ser lido como uma importante contribuição para a reflexão acerca das diferentes dimensões dessa realidade emergente, percebida em toda a sua complexidade.

A RBPI é o mais tradicional veículo da área de Relações Internacionais no Brasil, sendo publicada sem interrupções desde 1958. Editada pelo Instituto Brasileiro de Relações Internacionais – IBRI, a RBPI publica artigos sobre Política Internacional, História das Relações Internacionais, Economia Internacional, Direito Internacional e questões conexas. No SciELO Brasil desde 2007, a Revista também circula em formato impresso.

Para ler os artigos, acesse:

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Link relacionado:

Revista Brasileira de Política Internacional – RBPI – <http://www.scielo.br/rbpi/>.

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

A ascensão da China – uma edição especial da Revista Brasileira de Política Internacional [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2014 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2014/11/26/a-ascensao-da-china-uma-edicao-especial-da-revista-brasileira-de-politica-internacional/

 

One Thought on “A ascensão da China – uma edição especial da Revista Brasileira de Política Internacional

  1. Apesar de todos seus problemas social e politica, o povo da chinês é muito trabalhador e busca as melhores solução para seus problemas. Gosto muito da cultura chinesa.

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