Quem sou eu para o outro? Quem é o outro para mim?

Maria Helena Cruz Pistori, Editora associada de Bakhtiniana, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), São Paulo, SP, Brasil

O estudo da obra bakhtiniana nos auxilia a compreender a literatura, a arte, o discurso, o conhecimento. Mas, antes de tudo, este tempo-espaço em que vivemos, um mundo de palavras do outro, que assimilamos com maior ou menor intensidade, palavras que nos orientam em nossos posicionamentos e vão nos constituindo axiologicamente, ante nós mesmos e perante o outro; ao mesmo tempo, constituem o outro para nós. Nas palavras bakhtinianas, “[E]eu vivo em um mundo de palavras do outro. E toda a minha vida é uma orientação nesse mundo; é reação às palavras do outro” (BAKHTIN, 2017, p. 38).

Como reação às palavras do outro, destacamos, neste espaço, dois dos artigos que compõem o volume 14, número 1 do periódico Bakhtiniana. Ambos pinçam seu objeto de pesquisa no mundo digital e tratam do reconhecimento e estudo de políticas identitárias, envolvendo questões de reconhecimento, afirmação e valores do “eu-para-mim, do outro-para-mim e do eu-para-o-outro” (BAKHTIN, 2010, p. 114), e discutindo temas como feminismo, machismo, racismo, violência e opressão, pobreza…

Viviane de Melo Resende (Universidade de Brasília – UnB, Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas) e María del Pilar Tobar Acosta (Instituto Federal de Brasília) apresentam o texto “Justiçamento em rede: direitos humanos e efeito midiático” [Lynching Network: Human Rights and Midiatic Effect]. Nele examinam uma cadeia de eventos discursivos ocorridos a partir de um caso de justiçamento na cidade do Rio de Janeiro, em 2014: a vítima foi um adolescente negro de 15 anos. Por meio da análise de matrizes discursivas em oposição, as autoras mapeiam cadeias dialógicas que se desdobram nas categorias de intertextualidade, intergenericidade e interdiscursividade. O aporte teórico fundamental é a ontologia social do discurso tal como proposto pela Análise de Discurso Crítica, e o estudo mostra-se ilustrativo para compreender a relação entre o que é construído e repercutido nas mídias e o que ocorre na realidade das ruas. Considerando que, no mesmo ano, conforme aponta o texto, pelo menos outros 50 casos de linchamento nos mesmos moldes ocorreram, o artigo suscita uma importante reflexão acerca do “baixo grau de humanidade atribuído a certas identidades, sendo esse o caso da referência ao jovem violentado como ‘o marginalzinho preso ao poste’, que se define como a negação ontológica desse ‘outro’ (FANON, 2015), sua sub-alteridade” (RESENDE; ACOSTA, 2019, p. 24).

O outro artigo que destacamos é “A ironia como zona de confronto entre diferentes vozes/dizeres em comentários do Facebook” [Irony as a Zone of Confrontation between Different Voices/Voicings in Facebook Comments], redigido por André Cordeiro dos Santos (Instituto Federal de Alagoas – Campus Piranhas / Universidade Federal de Alagoas, Maceió), Girllaynne Gleyca Bezerra dos Santos Marques (Universidade Federal de Pernambuco, Centro de Artes e Comunicação, Departamento de Letras, Recife) e Siane Gois Cavalcanti Rodrigues (Universidade Federal de Pernambuco, Centro de Artes e Comunicação, Departamento de Letras, Recife). Para a análise do fenômeno discursivo da ironia nos embates ideológicos entre os discursos-mitos machistas e os dizeres de mulheres em comentários do Facebook, inicialmente o artigo apresenta o fundamental teórico com o qual trabalha: uma concepção social de linguagem, que tem o dialogismo como princípio básico da interação discursiva; a ironia como aresta avaliadora e estratégia discursiva; e uma discussão sobre patriarcalismo, “cultura do estupro” e seus dizeres-mitos. A análise dos comentários de mulheres mostra como a ironia tem se evidenciado uma estratégia de resistência feminina: ao se apropriarem de discursos machistas, elas transformam aqueles discursos e buscam “subverter a cultura machista e, consequentemente, a chamada cultura do estupro, mostrando suas inconsistências” (SANTOS; MARQUES; RODRIGUES, 2019, p. 49).

Como se pode observar, o número reflete e refrata nosso momento sócio-político e cultural, de tensa luta dialógica e ideológica, cada palavra como um “pequeno palco” de embates de orientação e valores contraditórios (cf. VOLÓCHINOV, 2017, p. 140).

Referências

BAKHTIN, M. Para uma filosofia do ato responsável. São Carlos: Pedro & João Editores, 2010.

BAKHTIN, M. Fragmentos dos anos 1970-1971. In: BAKHTIN, M. Notas sobre literatura, cultura e ciências humanas. São Paulo: Editora 34, 2017. p. 21-56.

FANON, F. Pele negra máscaras brancas. Salvador: UFBA, 2015.

VOLÓCHINOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem. Problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. São Paulo: Editora 34, 2017.

Para ler os artigos, acesse

Bakhtiniana, Rev. Estud. Discurso vol.14 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2019

Link externo

Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso – BAK: www.scielo.br/bak

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

PISTORI, M. H. C. Quem sou eu para o outro? Quem é o outro para mim? [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2019 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2019/01/21/quem-sou-eu-para-o-outro-quem-e-o-outro-para-mim/

 

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