Como o afeto pode compor as relações cotidianas na creche

Daniela de Oliveira Guimarães, professora associada na Faculdade de Educação da UFRJ/PPGE-UFRJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. 

Natasha Pitanguy de Abrantes, Professora de Educação Infantil na Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro (SME/RJ). Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Logo do periódico Revista Brasileira de Estudos PedagógicosO tema do artigo Docência na creche: afeto, cuidado e a partilha de um sentir com os bebês, publicado pela Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos (vol. 106, 2025), destaca-se no contexto educacional brasileiro, tendo em vista os desafios da integração da creche como segmento da 1ª etapa da Educação Básica, a Educação Infantil, e a compreensão da sua qualidade pedagógico-educacional.

A Constituição Brasileira de 1988 estabelece a educação como direito de todas as crianças brasileiras, desde os bebês (Brasil, 1988). A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira de 1996 (LDB/1996) institui a Educação Infantil como primeira etapa da Educação Básica, nas creches para crianças de 0 a 3 anos; e em pré-escolas, para as crianças de 4 até 5 anos e 11 meses (Brasil, 1996). Estudos produzidos já na primeira década após a promulgação da LDB de 1996 mostram o descompasso entre a legislação e as políticas voltadas à população de 0 a 6 anos no nosso país, especialmente voltadas aos bebês.

Trata-se da restrição na destinação de recursos, fragilidade na formação das professoras, precariedade de estruturas físicas, e tendência ao atendimento da demanda através de programas de cunho privado, o que se contrapõe ao direito público conquistado na letra da lei (Kramer, 2001; Rosemberg, 2001; Campos, Fulgraff e Wiggers, 2006).

Neste contexto, uma das questões que se destaca é a fragilidade da compreensão da docência com bebês. Qual a especificidade da Pedagogia da Educação Infantil na creche?

No desvio da perspectiva doméstica, que alinha a docência na creche com a lógica privatista e familiar; também, na contramão das práticas centradas nos conteúdos, próprias do ensino fundamental, a docência na creche coloca-se como prática centrada nas relações educativo-pedagógicas, no cuidado como ética, na dialogicidade, responsividade, afeto e atenção conjunta entre bebês e adultos (Guimarães, 2023).

Nesta perspectiva, o artigo percorre as questões da pesquisa que o gerou: Quais experiências intersubjetivas os bebês compõem na creche? Como se manifesta o foco nas relações como princípio no cotidiano e qual a qualidade atencional delas? Como se revelam os compartilhamentos subjetivos, nos olhares, nos sorrisos, nos gestos miúdos? Como se apresenta o estar com o outro na creche, de modo especial, em um plano pré-verbal?

O objetivo é compreender como os encontros sensíveis que acontecem entre bebês e adultos na creche estão implicados na constituição subjetiva do bebê e da professora, adensando as discussões acerca da construção de uma docência afetiva. O trabalho foi gerado a partir de uma pesquisa de mestrado realizada por uma professora de bebês que cartografa sua experiência afetiva e atencional com o grupo de 0 a 2 anos, tendo em vista contribuir com as discussões acerca da especificidade de ser professora na creche.

 

 

Metodologicamente, a pesquisa apresentada no artigo ancora-se na cartografia (Passos, Kastrup, Escóssia, 2009) e nos conceitos bakhtinianos (2011) de exotopia e alteridade. A singularidade de uma pesquisa que se faz em composição com a docência exigiu a invenção de estratégias metodológicas. Nesse sentido, a professora-pesquisadora experimentou o tornar-se outra de si mesma, em um movimento exotópico e alteritário que ocorreu, especialmente, na relação com o arquivo de registros, ascendido à campo de pesquisa.

A cartografia sugere a ideia de um método para ser vivido e não aplicado, ou seja, aposta em uma reversão metodológica. Cartografar é sinônimo de acompanhar processos; afinar a atenção; comprometer-se com uma política de escrita; e pesquisar e intervir, afinal, conhecer e fazer estão imbricados. No estudo destacado propôs-se o termo “Uma cartografia em dois tempos”.

O primeiro, vivido na creche com os bebês, ao longo de um ano, expunha com mais vigor o caminhar na fronteira ou composição entre professora-pesquisadora. Experimentou-se a organização de contextos/cenários, o acompanhamento dos bebês nestes contextos e a produção de registros.

O segundo tempo, vivido no ano posterior, foi marcado pelo saltar da pesquisadora no processo de inventariação do arquivo. O arquivo foi organizado, mapeado, acompanhado em suas intensidades, analisado e, uma parte, dilatado sob a forma de escrita inventiva e afetiva. Buscou-se uma escrita multissensorial em sintonia com um modo igualmente multissensorial de estar no mundo, o modo bebê. A inventariação do arquivo provocou reflexões, dentre elas: o olhar como convite; o brincar dos bebês como bonecas-bebês, na tensão experiência cultural e repertório afetivo; contextos e cenários como mobilizadores do sensível.

O artigo traz uma cena que exibe um contexto/cenário organizado pelos adultos com a intenção de mobilizar o sensível e provocar encontros inusitados. O que poderia emergir do encontro entre bebês, adultos, bonecas, areia, bacias e colheres? Acompanhou-se a areia ser transportada de uma bacia para outra em composição com vocalizações. Acompanhou-se bebês vivendo o encontro com a areia e a criação de rastros. Acompanhou-se olhares que convocam, que tocam, que partilham um sentir. Acompanhou-se a areia ser transmutada em alimento e a criação de um brincar de cuidar e alimentar, com a participação de uma boneca. A cena provoca a atenção para o que é miúdo e para uma docência e uma pesquisa que se fazem no entre.

A pesquisa destaca a compreensão do entre como espaço de construção de si e de mundo por parte de bebês e professoras, o que exige uma atenção à qualidade sentida da relação pedagógica na creche. Em continuidade, indicou-se uma docência que se funda no encontro, na partilha de um sentir com os bebês, em abertura ao que toca; colocando camadas nas pesquisas do campo da Educação Infantil que tem indicado a relação como eixo com a proposição de uma dimensão afetiva relacional em seu caráter político de direito.

Para ler o artigo, acesse

GUIMARÃES, D.O. and ABRANTES, N.P. Docência na creche: afeto, cuidado e a partilha de um sentir com os bebês. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos [online]. 2025, vol 106, e6282 [viewed 8 January 2026]. https://doi.org/10.24109/2176-6681.rbep.106.6282. Available from: https://www.scielo.br/j/rbeped/a/yCRhsvtPXTtLm4V7JNStxtd/

Referências

BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 6. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Presidência da República. Casa Civil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988.

CAMPOS M.M., FULGRAF, J. and WIGGERS, V. A qualidade da Educação Infantil brasileira: alguns resultados de pesquisa. Cadernos de Pesquisa [online]. 2006, vol. 3, no. 127, pp. 87-128  [viewed 8 January 2026]. https://doi.org/10.1590/S0100-15742006000100005. Available from: https://www.scielo.br/j/cp/a/npMXfZn8NzHzZMxsDsgzkPz/abstract/

GUIMARÃES, D. O cuidado como direito público: desafios da docência na creche. Linhas Críticas [online]. 2023, vol. 29, e45380. [viewed 8 January 2026]. https://doi.org/10.26512/lc29202345380. Available from: https://periodicos.unb.br/index.php/linhascriticas/article/view/45380

KRAMER, S. Propostas pedagógicas ou curriculares de Educação Infantil: para retomar o debate IN: KRAMER, S., et al. Relatório de pesquisa: formação dos profissionais de Educação Infantil do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Ravil, 2001.

Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Lei de diretrizes e bases da educação nacional. Presidência da República, Casa Civil. Brasília, DF: Senado Federal, 1996.

PASSOS, E., KASTRUP, V. and ESCÓSSIA, L. (Org.). Pistas do método da cartografia: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2009.

ROSEMBERG, F. Avaliação de programas, indicadores e projetos em Educação Infantil. Revista Brasileira de Educação [online]. 2001, no. 16, pp. 19-26 [viewed 8 January 2026]. https://doi.org/10.1590/S1413-24782001000100003. Available from: https://www.scielo.br/j/rbedu/a/4XxXk6yHD5fvFrPbvNfjmDL/

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GUIMARÃES, D.O. and ABRANTES, N.P. Como o afeto pode compor as relações cotidianas na creche [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2026 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2026/01/08/como-o-afeto-pode-compor-as-relacoes-cotidianas-na-creche/

 

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