Qual a importância do discurso indireto livre na composição de “Quincas Borba”, de Machado de Assis?

Hélio Guimarães, Editor-chefe da Machado de Assis em linha – revista eletrônica de estudos machadianos, São Paulo, SP, Brasil

Em “Rubião, inimigo de si: a representação da interioridade em Quincas Borba, de Machado de Assis”, publicado no periódico Machado Assis Linha (v. 12, n. 27), Tiago Seminatti, pesquisador da Universidade São Paulo, defende que a representação dos movimentos psíquicos de Rubião e a de outros personagens causam interferências na narração de Quincas Borba que, inseridas num jogo de aproximação  e distanciamento do narrador, insinua, no próprio modo de narrar, a moderna coisificação dos homens por outros homens.

O estudo fundamenta tal hipótese interpretativa por meio de comparação entre as duas versões da obra, em folhetim e em livro, cujas diferenças sinalizam que Machado de Assis esteve atento, no processo de reescrita do romance, à interioridade dos personagens. Machado escreveu Quincas Borba primeiro em folhetim, versão que saiu no periódico A Estação entre os anos 1896 e 1891; e depois publicou a versão em formato de livro em 1891, que elaborou quase simultaneamente à versão do jornal. No processo de reescrita, o autor realizou mudanças de diversas ordens na narrativa: na configuração dos capítulos iniciais (MEYER, 1964); em relação à confiabilidade do narrador (KINNEAR, 1976); na introdução de componentes de potencial alegórico (GLEDSON, 2003); além das modificações trazidas pela diferença de suporte — do jornal para o livro — e do público leitor (SILVA, 2010).

Considerando especificamente a influência que a interioridade dos personagens causa na narração, Seminatti coteja as duas versões atento às passagens nas quais ocorre o discurso indireto livre. Assim, observa que Machado privilegia esse procedimento durante a reescrita do romance. O escritor, que diminuiu radicalmente a extensão da narrativa, manteve e também incluiu passagens nas quais há o apagamento dos limites entre o discurso do narrador e dos personagens. Esse dado, conforme observa o pesquisador, colabora para que se perceba a importância que Machado de Assis buscou conferir à representação psíquica de seus personagens, algo tomado como central em sua leitura de Quincas Borba.

Referências

GLEDSON, J. Quincas Borba. In: GLEDSON, John. Machado de Assis: ficção e história. Trad. Sônia Coutinho. 2. ed. rev. São Paulo: Paz e Terra, 2003. p. 73-134.

KINNEAR, J. C. Machado de Assis: to believe or not to believe? The Modern Language Review, v. 71, n. 1, p. 54-65, jan. 1976.

MEYER, A. Quincas Borba em variantes. In: MEYER, Augusto. A chave e a máscara. Rio de Janeiro: Edições O Cruzeiro, 1964. p. 173-189.

SILVA, A. C. S. da. Machado de Assis’s “Philosopher or dog?”: from serial to book form. Oxford: Legenda, 2010.

Para ler o artigo, acesse

SEMINATTI, T. Rubião, inimigo de si: a representação da interioridade em Quincas Borba, de Machado de Assis. Machado Assis Linha, v. 12, n. 27, p. 94-112, 2019. ISSN: 1983-6821 [viewed 25 October 2019].  DOI: 10.1590/1983-6821201912276. Available from: http://ref.scielo.org/w6gsr4

Link externo

Machado de Assis em Linha: MAEL: www.scielo.br/mael

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

GUIMARÃES, H. Qual a importância do discurso indireto livre na composição de “Quincas Borba”, de Machado de Assis? [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2019 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2019/11/12/qual-a-importancia-do-discurso-indireto-livre-na-composicao-de-quincas-borba-de-machado-de-assis/

 

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