Como aliviar a burocracia na pesquisa científica?

Michele Aparecida Dela Ricci Junqueira, Assistente técnica de Direção na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), Ribeirão Preto, SP, Brasil.

Cláudia Souza Passador, Professora associada pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FEA-RP/USP), Ribeirão Preto, SP, Brasil.

Estrutura organizacional que acomodou a implantação do escritório de gestão de projetos chamado de Centro de Gerenciamento de Projetos na FMRP USP. Fonte: JUNQUEIRA; PASSADOR, 2019.

Os resultados do artigo “O impacto do escritório de gestão de projetos na pesquisa científica”, publicado na Revista de Administração Pública (v. 53, n. 6), demonstra que os cientistas teriam cumprido os requisitos exigidos pela agência de financiamento sem o apoio do escritório; porém, a gestão financeira do projeto teve destaque, de modo que o cientista seja poupado de tarefas burocráticas, para que dedique seu tempo a outras tarefas, um resultado esperado do ponto de vista do marco teórico. Esse tipo de iniciativa se alinha às práticas de universidades estrangeiras, nas quais o suporte a cientistas já se tornou uma rotina do apoio institucional (grants management office, em inglês).

O levantamento de dados foi realizado junto à Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – Universidade de São Paulo, que disponibilizou as variáveis referentes aos projetos de pesquisa científica concedidos pela Fapesp no período de 2009 a 2015. A segunda etapa ocorreu por meio de consulta ao endereço eletrônico <www.fapesp.br>. A terceira e última etapa se deu de acordo com parâmetros do marco teórico e com conhecimento prático.

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) divulgou os resultados de um estudo realizado, em novembro e dezembro de 2016, pelo Conselho Nacional das Fundações de Apoio às Instituições de Ensino Superior e de Pesquisa Científica e Tecnológica (Confies), no qual foram ouvidos 301 pesquisadores brasileiros que coordenam projetos de pesquisa em 34 universidades federais, distribuídas em 23 estados e no Distrito Federal. Esse estudo revelou que um pesquisador gasta, em média, 33% de seu tempo para resolver problemas burocráticos que incidem, principalmente, a compra de materiais, bens e insumos usados nos laboratórios das instituições de Ensino Superior (IES) e de pesquisa científica e tecnológica. Para o dirigente do Confies, Fernando Peregrino, tal resultado é “preocupante”, já que 75% dos projetos são financiados pelo setor público, ou seja, são guiados pelas regras de gestão burocrática do próprio governo (MONTEIRO, 2017).

Entretanto, esses desafios gerenciais encontrados pelos cientistas não têm sido foco de estudos empíricos (CUNNINGHAM et al., 2014). Para preencher essa lacuna, propõe-se que o escritório de gestão de projetos, uma unidade organizacional reconhecida pelo guia Project Management Body of Knowledge (PMBOK®), poderia apoiar o cientista na gestão desses projetos.

A pesquisa sobre critérios e fatores críticos de sucesso demonstrou que é impossível desenvolver uma lista que satisfaça às necessidades de todos os projetos, em razão do fato de que os critérios e os fatores podem ser muito diferentes de um projeto para outro. Para Creasy e Anantatmula (2013), o Project Management Institute (PMI) acredita que o escritório de gestão de projetos é uma das vias para alcançar seu sucesso do projeto e a maturidade da gestão de projetos. De acordo com essa visão, um escritório mais maduro tende a usar ferramentas, técnicas e práticas com maior frequência, de modo mais consistente e com melhor gestão.

Referências

CREASY, T. and ANANTATMULA, V. S. From every direction: how personality traits and dimensions of project managers can conceptually affect project success. Project Management Journal, 2013, vol. 44, no. 6, pp. 36-51, e-ISSN: 1938-9507 [viewed 14 January 2020]. DOI: 10.1002/pmj.21372. Avaliable from: https://journals.sagepub.com/doi/10.1002/pmj.21372 #articleCitationDownloadContainer

CUNNINGHAM, J. et al. The inhibiting factors that principal investigators experience in leading publicly funded research. The Journal of Technology Transfer, 2014, vol. 39, no. 1, pp. 93-110, e-ISSN: 1573-7047 [viewed 14 January 2020]. DOI: 10.1007/s10961-012-9269-4. Avaliable from: https://link.springer.com/article/10.1007/s10961-012-9269-4

MONTEIRO, V. Burocracia consome mais de 30% do tempo dos cientistas, constata pesquisa, 2017. Available from: http://www. jornaldaciencia.org.br/burocracia-consome-mais-de-30-do-tempo-dos-cientistas-constata-pesquisa/

Para ler o artigo, acesse

JUNQUEIRA, M. A. D. R. and PASSADOR, C. S. O impacto do escritório de gestão de projetos na pesquisa científica. Rev. Adm. Pública [online]. 2019, vol. 53, no. 6, pp.1179-1188, ISSN 0034-7612 [viewed 2020 January 17]. DOI: 10.1590/0034-761220180125. Available from: http://ref.scielo.org/q8n34b

Links externos

Revista de Administração Pública – RAP: www.scielo.br/rap

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

JUNQUEIRA, M. A. D. R. and PASSADOR, C. S. Como aliviar a burocracia na pesquisa científica? [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2020 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2020/04/07/como-aliviar-a-burocracia-na-pesquisa-cientifica/

 

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Post Navigation