A trajetória de D. Pedro Fernandes e a construção de uma igreja diocesana no Brasil

Lucas Aleixo Pires dos Reis, graduando em História, voluntário da Varia Historia, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil.

Imagem: Busto de D. Pedro Fernandes Sardinha em Salvador, Bahia. Fonte: Domínio Público.

Trabalho mais para que não se pervertam os brancos do que para a conversão dos negros”: Pedro Fernandes, bispo de Salvador da Bahia (1551-1556), entre Paris, Lisboa, Goa, Cabo Verde e o Brasil”, de José Pedro Paiva, publicado no periódico Varia Historia (vol. 37, no. 73), dedica-se ao estudo da figura e trajetória de D. Pedro Fernandes Sardinha, ordenado, em 1551, prelado da diocese do Salvador da Bahia e, portanto, o primeiro bispo da América Portuguesa. Com os objetivos de reequacionar e esboçar o perfil da atuação e do pensamento de D. Pedro Fernandes, o autor elabora sua análise a partir de uma releitura e reinterpretação de documentação já conhecida, aliando a isso um conjunto de novos dados factuais. Tendo como suporte de suas análises os pressupostos da história conectada e do global turn, José Paiva defende que a passagem de D. Pedro Fernandes por Lisboa, Paris, Goa, Cabo Verde, Bahia e outras localidades não alteraram profundamente seus propósitos e perspectivas consoante local de trânsito e enquanto um agente da propagação do catolicismo. A abordagem conectada auxiliou na percepção das articulações entre esses diversos lugares de trânsito e no impacto dessas diferentes experiências na vida e prática de D. Pedro Fernandes. O estudo contribui também para perceber, a partir das experiências de missionação do bispo, as estratégias de construção de uma igreja diocesana no Brasil.

Em sua análise, José Pedro Paiva, professor da Universidade de Coimbra, investiga testemunhos já conhecidos sobre os traços da vida de D. Pedro Fernandes. Dessa forma, o objeto de análise é a experiência de vida do bispo nos diferentes espaços, tanto na sua formação educacional quanto na sua vivência durante a missionação. Afirma que a imagem negativa do primeiro prelado do Brasil colonial presente em estudos anteriores está relacionada ao fato de o grosso das fontes existentes terem como origem duas figuras com as quais o bispo teve conflito, o jesuíta Manuel da Nóbrega e o governador geral Duarte da Costa. Buscando se eximir de tais julgamentos de caráter, o autor, acrescentando um número reduzido de novos dados, faz o esforço de redesenhar o pensamento e as ações de D. Pedro Fernandes. Propondo uma leitura contextualizada de sua biografia, a análise lança mão de perspectivas da história conectada, articulando atributos da microhistória com abordagens globais, e destaca as dinâmicas de circulação, a conectividade das experiências e a criação de redes. Permitiu-se, assim, perceber como as experiências em locais tão distantes e díspares como Goa, Paris, Cabo Verde e Lisboa reafirmaram a visão de mundo do clérigo e o que julgava como boas práticas de propagação da fé cristã.

Paiva aponta que Pedro Fernandes nunca se deixou influenciar pelas tendências do humanismo cristão e nem pelas críticas à Igreja Católica na sua passagem e estudos em Paris. O futuro bispo encarnava o modo com que a Coroa Portuguesa utilizava de sua elite clerical ilustrada, culto que lutava contra os ataques luteranos e fornecia os efetivos para a evangelização dos territórios ultramarinos. Em tais espaços, especificamente Goa e Cabo Verde, produziu pareceres criticando as práticas adotadas pelos demais clérigos e população portuguesa, evidenciando sua erudição, baseada nos clássicos greco-romanos, e seu viés de entendimento e de ação que não se alteraram em função dos contextos particulares. O autor conclui que as passagens de Fernandes não deixaram marcas apenas na conversão dos naturais da terra, mas se manifestou na realização de pregações, visitas pastorais, punições de desvios de comportamento dos portugueses e vigilância da atuação do clero. Tais práticas e ações nortearam a sua atuação enquanto bispo no Brasil.

Em suma, o artigo traz importantes considerações acerca da figura de D. Pedro Fernandes e sua prática evangelizadora e contribui para um novo olhar acerca de um personagem tão importante para a história da Igreja no Brasil colonial. A conectividade da análise nos permite perceber como esse clérigo transportou para locais tão diferentes como África, Ásia e, por fim, América padrões de atuação da Igreja em Portugal e como tais trânsitos definiram o foco de sua preocupação, mais no amparo dos portugueses do que com o os povos naturais da terra. É importante ressaltar como essas experiências conectadas influenciaram no processo de colonização, uma vez que o bispo e o governo diocesano eram peças centrais no processo de criação de um governo centralizado no Brasil.

Para ler o artigo, acesse

PAIVA, J. P. “Trabalho mais para que não se pervertam os brancos do que para a conversão dos negros”: Pedro Fernandes, bispo de Salvador da Bahia (1551-1556), entre Paris, Lisboa, Goa, Cabo Verde e o Brasil. Varia hist. [online]. 2021, vol. 37, no. 73, pp. 17-52, ISSN 1982-4343 [viewed 09 March 2021]. https://doi.org/10.1590/0104-87752021000100002. Available from: http://ref.scielo.org/8jxp4k

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REIS, L. A. P. A trajetória de D. Pedro Fernandes e a construção de uma igreja diocesana no Brasil [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2021 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2021/04/01/a-trajetoria-de-d-pedro-fernandes-e-a-construcao-de-uma-igreja-diocesana-no-brasil/

 

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