As ciências da linguagem e os discursos sobre a pandemia: a questão da ética

Maria Helena Cruz Pistori, Editora associada de Bakhtiniana, Pós-Doutoranda – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), São Paulo, SP, Brasil. 

Em meados de junho de 2020, no período inicial da pandemia, nosso periódico decidiu propor um número que tratasse dos discursos sobre a covid-19: a pandemia deixava muito claro para todos que as palavras não são transparentes, conforme lembrado por Maingueneau no artigo que finaliza o volume (2021, p.140-156).

Como vimos, ao longo desse tempo, as narrativas se sucederam e dialogaram polemicamente nas mídias e redes sociais; concordaram entre si ao tratar de fatos, números, procedimentos, drogas, vacinas…; e também discordaram ao tratar dos mesmos fatos, números, procedimentos, drogas, vacinas…; rejeitaram uma e/ou outra narrativa, ou parte dela. Os discursos complementaram-se ou refutaram-se, no todo ou em parte… A realidade discursiva, sanitária e social, revelou-se sobretudo política (e político-partidária…), frente a cientistas, cidadãos, céticos e charlatães.

O texto que abre o número Pandemia, ética e discursos – Editorial (Brait; Pistori; Lopes-Dugnani; Stella; Rosa 2021, p.02-07), assinado pelos editores da revista, defende um compromisso com a postura bakhtiniana de indissociabilidade entre vida, ética e conhecimento:

Nossas escolhas revelam a capacidade que temos de entrar em empatia com o outro em todos os momentos do existir. Nosso existir, singular e irrepetível, não nos permite um álibi na vida, no conhecimento ou na arte: somos eticamente responsáveis em nossas respostas ao outro e à realidade (cf. Bakhtin, 2010). Por conseguinte, neste momento pandêmico, é preciso “pensar certo”, lembrando Paulo Freire no centenário de seu nascimento (1997, p.31), e posicionarmo-nos bem, acreditando nas possibilidades de mudança, particularmente no Brasil de hoje, no qual à crise sanitária se juntam outras, na política, na educação e no meio ambiente, para dizer o mínimo.

Imagem: Acervo pessoal.

Figura 1. Ilustração de Maria Rita

Sabemos que os diálogos não se ativeram ao vivido no momento, mas alcançaram o grande tempo (cf. Bakhtin, 2017, p.79): voltou-se à discussão da gripe espanhola, no início do séc. XX, e à rememoração das pestes que arrasaram a humanidade em séculos passados. E os periódicos científicos – da área médica, principalmente -, galgaram uma importância popular nunca conhecida anteriormente: foram fartamente citados e, a cada momento, a população pôde ser informada que tal estudo tinha (ou não tinha ainda) a anuência e comprovação dos pares. A academia, de modo geral, se posicionou e produziu inúmeros papers, conferências, vídeos, lives, nas diferentes áreas do conhecimento.

Neste número de Bakhtiniana, na análise dos discursos sobre a covid-19 sob diferentes perspectivas teóricas, o compromisso ético, que não reconhece a separação entre língua e vida, foi reconhecido e adotado por cada um dos pesquisadores que assinam os artigos. Isso ocorre em relação à análise dos discursos produzidos pela “quarentena poética” promovida pela Associação Brasileira de Literatura de Cordel; em relação aos discursos sobre a terceira idade e ao discurso pedagógico de professoras de bebês. Da mesma forma, mas de modo especialmente pungente em relação à vida e aos cuidados do paciente, Voges (2021, p.72-96) trata de um discurso da enfermagem postado no FB, em “Um plantão que partiu meu coração: o trabalho de Enfermagem sob as perspectivas dialógica e ergológica em tempos de covid-19”. A globalidade da experiência pandêmica se revela no modo como se traduziu no ensino remoto na Rússia; e o conflito político polarizado, tão presente (- e sofrido!) durante todo o período, é retomado na análise de propagandas políticas institucionais.

O número, porém, não se encerra aí. Ao reafirmar um “compromisso com a ética bakhtiniana, algo que cada um de nós reconhece e afirma de um modo singular e único”, Bakhtiniana destaca a importância da resenha sobre um livro com “dedicatórias do acervo da Biblioteca pessoal de M. М.”, redigida por Svietlana Dubrovskaia e Oleg Osovski (2021, p.157-167), que nos revela o reconhecimento de Mikhail Bakhtin, em vida, por seus pares.

Finalmente, é pensando nos variados sentidos da pandemia – a “pansemia”, nos dizeres de Pampa Arán e Ariel Gomes Ponce (2021) –, que convidamos cada leitor a ler e refletir sobre os textos apresentados em Bakhtiniana 16.4, e, simultaneamente, a responder a eles de modo responsável – a compreensão responsiva e ativa proposta por Mikhail Bakhtin.

Referências

ARÁN, P. and PONCE, A. G. Ética participativa en BAJTÍN. In: CARRIJO, V.L.S. (ed.) Pandemia y pansemia. Caderno de Resumos 22ª. InPLA: linguagem e interfaces – aproximações e distanciamentos. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2021 [viewed 14 December 2021]. Available from: https://www.researchgate.net/publication/355982797_Caderno_de_resumos_22_InPLA_recurso_eletronico_linguagem_e_interfaces_-_aproximacoes_e_distanciamentos

BAKHTIN, M. Para uma filosofia do ato responsável. Tradução aos cuidados de Valdemir Miotello & Carlos Alberto Faraco. São Carlos: Pedro & João Editores, 2010.

BAKHTIN, M. Por uma metodologia das ciências humanas. In: BAKHTIN, M. Notas sobre literatura, cultura e ciências humanas. São Paulo: Editora 34, 2017, p.79.

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia. Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1997.

MAINGUENEAU, D. A análise do discurso diante da crise do coronavírus: algumas reflexões. Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso [online]. 2021, v. 16, no. 04, pp. 140-156 [viewed 23 November 2021]. https://doi.org/10.1590/2176-457349759. Available from: https://www.scielo.br/j/bak/a/pZpJRG9rwvbMhb74J4MWG7k/?lang=pt

VOGES, M.C.N. “Um plantão que partiu meu coração”: o trabalho de Enfermagem sob as perspectivas dialógica e ergológica em tempos de covid-19. Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso [online]. 2021, v. 16, no. 04, pp. 72-96 [viewed 14 December 2021]. https://doi.org/10.1590/2176-457351666. Available from: https://www.scielo.br/j/bak/a/MDQdv79PTHKgLb8bMQsqrDq/?lang=pt

DUBROVSKAYA, S. and OSOVSKY, O. RESENHAS. Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso [online]. 2021, v. 16, no. 04  , pp. 157-167 [viewed 23 November 2021]. https://doi.org/10.1590/2176-457351261. Available from: https://www.scielo.br/j/bak/a/ybwb4cHV4WyXvVF7nXNMFgy/?lang=pt

Links

Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso. Vol. 16.4, 2021. – https://www.scielo.br/j/bak/i/2021.v16n4/

Para ler o artigo, acesse

BRAIT, B., et al. Pandemia, ética e discursos. Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso [online]. 2021, v. 16, no. 04  , pp. 2-7 [viewed 14 December 2021]. https://doi.org/10.1590/2176-457355817. Available from: https://www.scielo.br/j/bak/a/jn4vHX4KYJjGZkmcF3pPFCk/?lang=pt

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

PISTORI, M,H.C. As ciências da linguagem e os discursos sobre a pandemia: a questão da ética [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2021 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2021/12/16/as-ciencias-da-linguagem-e-os-discursos-sobre-a-pandemia-a-questao-da-etica/

 

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