Uma nova proposta para compreender e tratar da drogadição – o circuito dos afetos

Roberto Tykanori Kinoshita, professor adjunto da UNIFESP/Baixada Santista, médico psiquiatra do Caps-AD em Santos, São Paulo, Brasil.

A equipe do CAPS-AD em Santos, a partir de um grupo de estudos, veio gradualmente adotando uma nova perspectiva sobre o fenômeno da drogadição que levou a uma grande mudança no trabalho cotidiano dos profissionais. Esta nova abordagem apresentada no artigo “O circuito dos afetos na drogadição: uma explicação alternativa para a servidão às drogas” adota um entendimento sobre a Biologia e a Psicologia baseada nas teorias de Humberto Maturana, na Ontologia do conversar e na Ética de Spinoza.

A ideia central que orienta as ações é que os seres humanos agem determinados de acordo os seus estados fisiológicos, e não por livre escolha da consciência. E nessa perspectiva, a consciência percebe estes estados como emoções ou afetos. A drogadição passou ser entendida como uma dinâmica circular de diferentes afetos que se imbricam de modo recursivo. Essa circularidade da dinâmica gera a sensação de repetição e de ausência de saída do circuito.

A novidade é que, quando se foca na identificação dos afetos que se sucedem, percebe-se que o lugar das substâncias é acessório, mas que o motor efetivo da manutenção desta dinâmica é o tipo de afetos e o modo que se articulam para formar esse circuito fechado. Ou seja, o que antes pensava-se que os indivíduos estão submetidos ao poder intangível das drogas, percebemos que o estado de servidão é movido e mantido pela força dos afetos encadeados.

Denominado como circuito de afetos tristes, pode se resumir em três complexos afetivos – Complexo de problemas pessoais, Complexo de alivio-oblívio, que envolve o consumo de drogas, e Complexo de culpa, medo e vergonha. Neste circuito o sofrimento gerado nas relações pessoais busca alívio no consumo, mas que é seguido por emoções de culpa, medo e vergonha relacionados ao próprio consumo, que se acrescentam ao sofrimento inicial e promovem a busca de mais alívio, fechando o circuito, que se reinstaura seguidamente.

Imagem: Unplash

Figura 1. O circuito dos afetos.

Destaque para os afetos de culpa, medo e vergonha, que são o ponto de reentrada e perseveração do circuito, pois estes afetos não são gerados como efeito de nenhuma droga, mas como produto das relações psicossociais formatados em esquemas morais de avalição do desempenho social. Este entendimento permitiu à equipe focar seus esforços na identificação, compreensão e atuação para modificar as dinâmicas dos afetos de modo a liberar a pessoa do circuito fechado. Por em questão a geração das ideias de culpa, medo e vergonha abre possibilidades de redirecionar os afetos e evitar a recursão.

Antes as abordagens da equipe, orientadas na lógica da redução de danos, embora muito ativas, tinham uma lacuna, indefinição ou ausência de ação quando se tratava da questão específica do consumo abusivo de drogas, para a qual não se oferecia alternativa senão o controle ou a repressão. Este ponto era gerador de muita tensão no cotidiano do serviço, pois as diversas modalidades de controle geravam ações de coerção mais ou menos explícitas que eventualmente acabavam em violência. A adoção da abordagem centrada na dinâmica dos afetos promoveu outro direcionamento das energias da equipe que resultou na dissolução do ambiente de controle/coerção e desaparecimento da violência.

A drogadição é um problema importante pelas consequências na vida dos indivíduos, grupos e da sociedade. Questão complexa que enreda vários níveis de fenômenos, da Biologia Celular ao nível das políticas de Estado, passando pela dimensão dos cuidados e tratamentos. As concepções reducionistas da Biomedicina não oferecem meios efetivos de mudança, exceto a suspensão do consumo. Como a questão é exatamente a incapacidade da pessoa a suspender o consumo, resta como lógica de cuidado a coerção. Estas práticas coercitivas no plano das micro-políticas fazem ressonância com as macro-políticas de coerção social, que reproduzem estereótipos que desqualificam e desumanizam grupos inteiros.

Leia mais

MATURANA, H.R. Ontologia do conversar. In: MAGRO, C and GRACIANO M. and VAZ, N. (ed.) A ontologia da realidade. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1997.
SPINOZA, B. Ética. Belo Horizonte: Autêntica, 2007

Link(s)

Interface – Comunicação, Saúde, Educação – https://www.scielo.br/icse/

Para ler esse artigo, acesse

KINOSHITA, R.T. The circuit of affects in drug addiction: an alternative explanation for the servitude to drugs. Interface [online]. 2021, vol. 25, e200787 [viewed 13 December 2021]. https://doi.org/10.1590/interface.200787. Available from: https://www.scielo.br/j/icse/a/qSXqg5YxP8JtTCpNQsSmtTJ/?lang=en

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

KINOSHITA, R.T. Uma nova proposta para compreender e tratar da drogadição – o circuito dos afetos [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2021 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2021/12/14/uma-nova-proposta-para-compreender-e-tratar-da-drogadicao-o-circuito-dos-afetos/

 

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