A cantoria de viola como um sistema cognitivo distribuído de “signos em ação”

João Queiroz (prof. Instituto de Artes, UFJF)

Pedro Atã (pos-doc Dept. Linguística, Free State University, África do Sul)

O pensamento acontece “fora de nossas cabeças”.[1] Esta tese ganhou, na última década, novos contornos, nutrida por novos achados e exemplos, novos insights, evidências empíricas, e tratamentos teóricos cada vez mais convincentes, em muitas áreas.

Em filosofia da mente, ela é conhecida como “externalismo cognitivo ativo” — a realização de tarefas cognitivas complexas distribui-se entre corpos, instituições, dispositivos e artefatos físicos e culturais, no tempo e no espaço, em diversas escalas. Como explicar como calculamos, fazemos analogias, navegamos em grandes regiões, prevemos eventos, lembramos, inferimos, comunicamos acontecimentos distantes?

Para um externalista, a explicação deve ser deslocada do agente (e seu cérebro) para a densa relação entre seus corpos (incluindo seus cérebros), ambientes e artefatos (físicos e culturais). De acordo com essa tese, nós modificamos o ambiente que modifica “o que” e “como” nós pensamos no ambiente. Laboratórios científicos, bibliotecas, escolas, cozinhas e bares, aviões, veleiros, são alguns dos exemplos mais mencionados e analisados.

Nós (ICONICITY RESEARCH GROUP) temos investigado como esse fenômeno acontece quando lidamos com atividades artísticas, movimentos e paradigmas estéticos — tradução criativa, prosa literária, poesia oral e de vanguarda, música contemporânea, e dança, estão entre os fenômenos que temos abordado como sistemas de cognição distribuída.

O artigo que publicamos na TRANS/FORM/AÇÃO – Revista de Filosofia, “O externalismo semiótico ativo de C.S.Peirce e a cantoria de viola como signo em ação”, é sobre “poesia oral improvisada”, e sobre um tipo de improvisador, o repentista ou cantador, que Câmara Cascudo já chamou de descendente do “aedo grego”, do “gree anglo-saxão”, do “moganis e meris árabe”, dos “bardos armoricanos”, dos “skalds escandinavos”, dos menestréis e trovadores da Idade Média.

A cantoria de viola, ou o repente, que é o fenômeno que nos interessa neste trabalho, assim como o rap, o duelo de MCs, o partido-alto, o coco, e a embolada, podem ser descritos como “sistemas cognitivos distribuídos”, sistemas cujas tarefas estão relacionadas a solução de problemas complexos — por exemplo, dialogar cantando em versos improvisados, sobre um assunto sorteado, em sentenças (versos) de estruturas rigorosamente metrificadas e rimadas, gerando surpresas durante toda a conversa.

O propósito do artigo foi descrever o repente como um sistema cognitivo distribuído que cria e resolve problemas. Os problemas, suas estruturas formais (por exemplo: “o improviso, agora, é em ‘sextilhas’: composições de seis versos, sete sílabas em cada verso, onde rimam o segundo, o quarto e o sexto versos”), rotinas e sub-rotinas de solução, dependem de diversos artefatos e tecnologias — a viola, o verso metrificado, o padrão de rimas, a prosódia, o palco e o cenário, o microfone —, e dependem de agentes — os cantadores e avaliadores, a platéia, os apologistas, críticos e historiadores.

Imagem: Arquivo pessoal.

Mais precisamente, os problemas estão “incorporados” nestes artefatos e tecnologias. Como eles estão incorporados? O que nós fizemos (neste trabalho, e em outros) foi descrever a incorporação como “signos em ação”, ou como processo de “ação dos signos”. Mais tecnicamente, nós sugerimos uma ontologia semiótica para um caso de externalismo cognitivo ativo, “da mente criativa fora das cabeças”.

A ideia principal é que sistemas cognitivos distribuídos são incorporações de atividades semióticas (signos em ação). E a cantoria de viola é um exemplo notável. Vejamos brevemente este fenômeno. A cantoria existe no sertão nordestino ao menos desde meados do séc. XIX, tendo surgido na região do Pajeú pernambucano e do Cariri paraibano. Sua forma é de um desafio em poesia oral metrificada.

Em um tipo conhecido de festival, o desafio acontece entre duplas de cantadores. Elas improvisam, sobre um tema sorteado, e são avaliadas por um júri de especialistas. A dupla melhor pontuada vence o festival. A pontuação está relacionada à construção de versos metrificados precisos, palavras e rimas raras, ideias originais e surpreendentes, e tempo de reação dos cantadores. Mas a cantoria não está restrita aos festivais. Um tipo tradicional de evento chama-se “cantoria pé-de-parede”.

Uma dupla de cantadores se apresenta para uma audiência, em geral a convite de um anfitrião. Mesmo nesse cenário, a cantoria tem um caráter de disputa, e um cantador tenta superar seu oponente diante de uma platéia.

É claro que há diversas formas de responder a questão “como tudo isso é feito?”. Muitas das tarefas e sub-tarefas que definem um sistema distribuído, em uma certa escala de observação, podem incluir um cantador, sua própria viola, seu antagonista, e seus cérebros individuais.

O que fizemos, neste trabalho, foi descrever o repente em uma escala maior de observação. Nessa escala, o que vemos são “processos” que chamamos de “signos em ação”. O que importa não são as entidades que compõem o repente, como pessoas ou violas, mas a atividade que ocorre através (e com) dessas entidades, que o filósofo C. S. Peirce chamou de “signos em ação”, ou semiose.

A atividade do repente consiste em submeter a língua falada a exigências incomuns de versificação, obediência a temas sorteados, fluidez, tempo de reação nas respostas, etc, para produzir situações surpreendentes, de quebra de expectativas. Isso envolve geração de soluções para diversos problemas, e avaliação dessas soluções. Em nossa descrição, é a ação dos signos que melhor define a natureza desse processo. Qualquer entidade pode ser considerada parte deste sistema se atua, nele, como um signo em ação.

O que nossa contribuição sugere é que esta noção (semiose) é uma unidade fundamental de explicação para a tese de que o pensamento acontece fora de nossas cabeças. Como consequência, a explicação não se concentra nos componentes do sistema cognitivo, mas em seu processo temporal de organização e de reprodução.

O pensamento acontece fora de nossas cabeças porque nossos corpos, ações e habilidades, nossos artefatos (incluindo a linguagem), ambientes físicos e culturais, tornam-se signos organizados por padrões de atividade que se estendem no tempo e no espaço. Essa é uma abordagem ainda não explorada, no domínio do externalismo, em Ciência Cognitiva, Filosofia da Mente, Inteligência Artificial, ou em Semiótica. Suas implicações devem ter impacto na própria elaboração dos problemas, nos modelos e asserções teóricas.

[1] Out of our Heads é justamente o nome de um livro que tornou-se bastante conhecido, do filósofo e cientista cognitivo Alva Noë.

Imagem: Arquivo pessoal.

Figura 2. Projeto [Repente].

Leia mais

NOË, A. Out of our heads: Why you are not your brain, and other lessons from the biology of consciousness. New York: Hill and Wang, 2010.

Para ler o artigo, acesse

ATÃ, P. and QUEIROZ, J. O externalismo semiótico ativo de C. S. Peirce e a cantoria de viola como signo em ação. TransFormAção [online]. 2021, vol. 44, no. 3, p. 177-204 [viewed 10 December 2021]. https://doi.org/10.1590/0101-3173.2021.v44n3.15.p177. Available from: https://www.scielo.br/j/trans/a/jr6HGYYWt8MWF3ydYQxyPbN/?lang=pt

Link(s)

Periódico Trans/Form/Ação: https://www.scielo.br/j/trans/

Projeto O Repente – https://orepente.wordpress.com/

Site do grupo de pesquisa Iconicity- https://iconicity-group.org/

Instagram Iconicity – https://www.instagram.com/iconicitygroup/

Orcid João Queiroz: https://orcid.org/0000-0001-6978-4446

Revista Trans/Form/Ação: https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/transformacao/index

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

QUEIROZ, J, and ATÃ, P. A cantoria de viola como um sistema cognitivo distribuído de “signos em ação” [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2021 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2021/12/14/a-cantoria-de-viola-como-um-sistema-cognitivo-distribuido-de-signos-em-acao/

 

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