“Deve ser a boca de algum dinossauro”: experiências de aprendizagem de ciência ao visitar um museu

Deborah Cotta, doutoranda no Programa de Pós-graduação em Educação: Conhecimento e Inclusão Social, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (PPGE/FaE/UFMG). Belo Horizonte, MG, Brasil.

Ao visitar um museu as pessoas carregam consigo suas culturas, conhecimentos, valores, experiências e expectativas, elementos esses que direcionam os comportamentos, as interações e os aprendizados dessas pessoas ao longo de suas visitas (Borun, 2002; Ellenbogen, Luke & Dierking, 2007; Falk, 2021). Compreender, portanto, as potencialidades e os impactos da relação entre os visitantes e os museus se torna algo importante para pesquisadores, curadores e educadores de diversas áreas do conhecimento.

Reconhecendo tal importância, Luisa Massarani e colaboradores, discutem no artigo Experiências de aprendizagem em visita familiar à exposição ‘Quando nem tudo era gelo’ do Museu Nacional como tal exposição, montada no Centro Cultural da Casa da Moeda do Brasil (RJ), facilitou o processo de aprendizagem e a construção de significados de temas sobre ciências. Trata-se da primeira exposição organizada pelo Museu Nacional após o incêndio.

Os autores analisaram as interações entre adultos e crianças, que pertenciam a nove grupos familiares diferentes. Para tal análise, foi utilizado um conjunto de gravações audiovisuais obtido, durante a visita das famílias à exposição, pelo ponto de vista das crianças – que carregavam consigo uma câmera presa a um suporte na cabeça e que capturava as interações e conversas em família. Compreende-se nesse trabalho que a aprendizagem é fruto de um processo dinâmico que envolve as emoções, os interesses, as motivações e a autonomia dos sujeitos que vivenciam interações sociais significativas.

As categorias para análise incluíram 1) os tipos de conversas, tais como: temas de ciência, conversas sobre a exposição, outros conteúdos, conversas sobre profissões, vivências e memórias pessoais e 2) as interações, que foram classificadas de acordo com o tipo: entre os visitantes e a exposição (por exemplo, atividades interativas, contemplativas e leitura) e entre os membros da família. Os autores observaram que a maior parte do tempo foi dividida entre a interação contemplativa e a interação entre visitantes, e o assunto mais recorrente nas conversas foi relacionado a temas de ciência.

Imagem: Centro Cultural Museu Casa da Moeda do Brasil

Massarani e colaboradores identificaram que os materiais da exposição: painéis, objetos, vídeos e textos contribuíram para que os membros das famílias interagissem dando sentido à observação e possibilitando associações que contribuíam para a aprendizagem de ciência, principalmente por meio da leitura. Os adultos tinham, por muitas vezes, uma intenção clara de estimular o aprendizado das crianças ao longo das visitas. Apesar disso, os autores sinalizam que, ainda que as conversas sobre ciências tenham sido as mais recorrentes, faltou profundidade e continuidade na maioria delas. Para construir significados, os visitantes crianças e adultos frequentemente tentavam aproximar aquilo que viam na exposição ao seu cotidiano e contexto pessoal, expressando suas opiniões, preferências, conhecimentos prévios e experiências anteriores. Outro aspecto interessante observado foi a aproximação com a natureza da ciência e com a produção do conhecimento científico, percebida por meio da identificação e reconhecimento para com os pesquisadores retratados na exposição.

Este estudo demonstra como uma exposição pode facilitar o processo de aprendizagem e construção de significado de temas relacionados à ciência por meio das interações, da contemplação dos objetos e das leituras. O papel das interações entre adultos e crianças foi significativo para o processo de aprendizagem ao longo da visita, o que nos leva a refletir sobre a necessidade e importância da oferta de espaços que favoreçam tais experiências e comportamentos na e para a sociedade.

Leia mais

BORUN, M. Object-based learning and family groups. In: PARIS, S.G. (ed.) Perspectives on object-centered learning in museums. Abingdon: Routledge, 2002

ELLENBOGEN, K.M., LUKE, J.J. and DIERKING, L.D. Family learning in museums: Perspectives on a decade of research. In: FALK, J.H., DIERKING, L.D. and FOUTZ, S. (ed.) In principle, in practice: Museums as learning institutions. Lanham: Rowman & Littlefield Publishers, 2007.

FALK, J.H. The Value of Museums: Enhancing Societal Well-Being. Lanham: Rowman & Littlefield Publishers, 2021.

Para ler o artigo, acesse

MASSARANI, L., et al. Experiências de aprendizagem em visita familiar à exposição “Quando nem tudo era gelo” do Museu Nacional. Ensaio Pesquisa em Educação em Ciências [online]. 2022, vol. 24, e35674 [viewed 11 March 2022]. https://doi.org/10.1590/1983-21172021240106. Available from: https://www.scielo.br/j/epec/a/Fb9fF9SRVXm6g3QxrXvLcnq/?lang=pt

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Como citar este post [ISO 690/2010]:

COTTA, D. “Deve ser a boca de algum dinossauro”: experiências de aprendizagem de ciência ao visitar um museu [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2022 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2022/03/14/deve-ser-a-boca-de-algum-dinossauro-experiencias-de-aprendizagem-de-ciencia-ao-visitar-um-museu/

 

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