A construção do conceito de necropolítica e sua apropriação no Brasil

Suze Piza, Professora do Programa de Pós-Graduação em Filosofia, no Programa de Economia política mundial e do Centro de Ciências Naturais e Humanas da Universidade Federal do ABC. São Paulo, SP, Brasil.

O ensaio Sequestro e resgate do conceito de necropolítica: convite para a leitura de um texto parte do fato de que, embora o conceito de necropolítica seja um dos conceitos filosóficos mais usados nos últimos anos no debate público, aparentemente não foi bem compreendido. E, apesar do livro de mesmo nome, escrito pelo filósofo camaronês Achille Mbembe, ser um texto de poucas páginas, aparentemente teve poucos leitores. O conceito de necropolítica tem sido usado cada vez mais no Brasil, sobretudo quando se refere a governos ou governantes e suas políticas públicas ou ausência delas. O excesso de menções a esse conceito em referência a determinados governos como sendo “a necropolítica” criou uma falsa crença de que esse é um fenômeno novo entre nós, como se apenas nos últimos anos experimentássemos o campo da política como mundo de morte em território brasileiro ou como se o conceito se reduzisse à biopolítica – nada mais enganoso, nada mais reducionista.

Para o desenvolvimento da reflexão apresentada, além dos conceitos mobilizados por Mbembe, em especial o de biopolítica, filósofos e filósofas como Hannah Arendt, Foucault, Hegel, Heidegger, Bataille, Agamben, Elias Canetti e Fanon são trazidos para o texto, pois suas teses e ponderações fazem parte da constituição do conceito de necropolítica. Sem eles é bastante difícil conseguir uma compreensão profunda do que significa essa concepção de política, descrever o campo da política na sua relação com o racismo ou ainda a relação entre Estado moderno e racismo.

Imagem: Pixabay

A partir desse movimento reflexivo, procura-se construir narrativas que contestem àquelas que procuram esvaziar o conceito de necropolítica e principalmente aquelas que querem afastar o filósofo africano e negro da tradição filosófica em que ele se formou, corroborando conscientemente ou inconscientemente com a tese de que africanos não fazem parte desta tradição ou como se uma dada tradição filosófica tivesse proprietários com certidão de nascimento na Europa. Procura-se indicar ao longo do ensaio que a relação de Mbembe com os europeus existe e é muito produtiva. E o mais importante: que nem toda relação com a filosofia europeia precisa ser uma relação de subserviência. Essa é ainda uma questão a ser enfrentada por quem adota as epistemologias decoloniais.

No ensaio, o conceito de necropolítica é definido como sendo o próprio campo da política, um projeto de subjugação da vida ao poder da morte. Quando pensado em termos de política institucional, ela é a própria estrutura de Estado, não de governos – mesmo que o exercício do poder se efetive por meio de macro ou micropoderes e seus agentes, dentre eles os governamentais. O racismo é o dispositivo privilegiado para regulação da morte, pois faz com que a necropolítica se efetive em suas múltiplas dimensões: deixar morrer, fazer viver de uma dada maneira e matar em larga escala é o modo de ser desta economia política da morte. O conceito nomeia, deste modo, o próprio campo da política na modernidade: necropolítica. Assim, para forjar seu conceito com precisão, Mbembe dialoga livremente, e sem ressalvas, com filósofos e filósofas que compreendem com profundidade essa temática e se permite com eles e elas redefinir a própria política autorizando-se a ultrapassar os pensamentos já prontos e fazer filosofia.

Sobre Suze Piza

É doutora em filosofia pela Universidade Estadual Campinas, professora de Filosofia da UFABC. É pesquisadora na área de Pensamento ético-político contemporâneo nas interfaces com a psicanálise e a epistemologia.

Leia mais

ARENDT, H. Pensar sem corrimão, São Paulo: Martins Fontes, 2021

FANON, F. Os Condenados da Terra Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

FOUCAULT, M. Em defesa da sociedade, São Paulo: Martins Fontes, 2002.

MBEMBE, A. Necropolítica, São Paulo: N-1 Edições, 2018.

MBEMBE, A. Brutalismo, São Paulo: N-1, 2021.

Para ler o artigo, acesse

PIZA, S. Sequestro e resgate do conceito de necropolítica: convite para a leitura de um texto. Trans/Form/Ação [online]. 2022, vol. 45, no. 3, pp. 129-148 [viewed 24 February]. https://doi.org/10.1590/0101-3173.2022.v45esp.08.p129. Available from: https://www.scielo.br/j/trans/a/NrF7PcGmQCF4vP6KPpmjhRs/?lang=pt

Link(s)

Link no portal de Periódicos: https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/transformacao/article/view/10819

Entrevista com Achille Mbembe | N-1 Edições: https://www.n-1edicoes.org/textos/133

Trans/Form/Ação  – TRANS: https://www.scielo.br/j/trans/

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

PIZA, S. A construção do conceito de necropolítica e sua apropriação no Brasil [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2022 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2022/03/07/a-construcao-do-conceito-de-necropolitica-e-sua-apropriacao-no-brasil/

 

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