Pontes de contextualização e decodificações possíveis para divulgação científica

Manoela Massuchetto Jazar, Editora assistente de curadoria de dados da revista urbe, Professora do Programa de Pós-Graduação em Gestão Urbana (PPGTU/PUCPR), Curitiba, Paraná, Brasil.

Rafael Kalinoski, Editor de mídias da revista urbe, Pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Gestão Urbana (PPGTU/PUCPR) Curitiba, Paraná, Brasil.

Logo do periódico urbe. Revista Brasileira de Gestão UrbanaLevar ciência para além dos limites físicos da universidade passou a ser parte essencial da prática acadêmica, pois, por muito tempo, o conhecimento ficou represado em circuitos fechados e ensimesmados. Nesse contexto, iniciativas como o podcast Voces de la Urbe, vinculado à urbe, exemplificam estratégias contemporâneas de ampliação da circulação científica, articulando produção acadêmica e novos formatos de difusão. Esse cenário tem mudado para melhor à medida que cresce o diálogo entre quem produz conhecimento e os grupos sociais interessados nesses temas ou que podem se beneficiar deles. Assim, o papel público da ciência ganha novos contornos. Redes sociais e podcasts, nesse sentido, passam a ser vistos como espaços estratégicos para ampliar a circulação do conhecimento e aproximar a pesquisa acadêmica da sociedade.

Mas a transição de um modelo de ciência mais fechado para outro mais acessível e aberto ao público traz desafios. O maior deles talvez seja a mediação do discurso científico, que possui regras próprias, termos técnicos, jargões e uma estrutura característica, para uma linguagem capaz de dialogar com o público em geral sem comprometer o rigor científico. Uma estratégia possível é construir pontes de contextualização que aproximem as pesquisas acadêmicas de narrativas compreensíveis no cotidiano das pessoas, conectando achados científicos a problemas facilmente reconhecidos pela sociedade e a formatos de comunicação mais familiares.

As redes sociais podem ser apontadas como vitrines para divulgação de sínteses de resultados e para a promoção de debates atuais com uma rapidez que o tempo do artigo científico não permite. A principal vantagem deste formato está no alcance e nas possibilidades de interações diretas com o público. Ao mesmo tempo, ele exige uma dinâmica própria de comunicação, marcada pela periodicidade de publicações, pelo uso de recursos visuais e pela produção de textos curtos. Trata-se, portanto, de um exercício de curadoria para identificar o cerne da pesquisa e apresentá-lo de modo decodificado e claro, sem perder sua essência.

Outro formato que tem ganhado espaço é o podcast, que, diferentemente das redes sociais, possui maior fôlego discursivo e permite conversas longas e detalhadas, capazes de explorar os bastidores da produção científica. Com efeito, a oralidade se coloca como caminho de humanização da ciência, pois abre espaço para analogias, exemplos cotidianos e explicações mais próximas da experiência dos ouvintes. É o que se observa em produções como Ciência Suja, que utiliza o storytelling para investigar fraudes e dilemas éticos, ou Prato Cheio, que discorre sobre a política por trás da alimentação. Iniciativas globais como The Rest is Science e BBC Inside Science também demonstram como a narrativa em áudio consegue pormenorizar o método científico, e aproximá-lo das questões sociais contemporâneas.

Esse formato dos podcasts mostra-se particularmente interessante para temas que exigem uma reflexão interdisciplinar, pois permite colocar em diálogo pesquisadores que nem sempre se encontram nos mesmos departamentos ou instituições. Além disso, os podcasts se conectam diretamente ao princípio de ciência aberta, ampliando as possibilidades de participação e compreensão pública sobre a produção do conhecimento. Dessa forma, contribuem para democratizar o acesso à universidade e criar canais de escuta entre pesquisadores e sociedade.

No campo dos estudos urbanos, já existem experiências que ilustram bem esse potencial. Podcasts como Caos Planejado e Urbanidades conseguem transpor teorias do urbanismo e do planejamento urbano para uma linguagem acessível, atual e contextualizada, discutindo cidades a partir da experiência corriqueira do ouvinte como, por exemplo, as dificuldades enfrentadas pelos pedestres no espaço urbano. Na mesma direção, o Sur-Urbano aborda as dinâmicas das periferias globais, e o New Books in Urban Studies funciona como uma ponte entre lançamentos acadêmicos mais densos e o público interessado em políticas públicas. São conteúdos que transformam teorias urbanísticas em debates ampliados sobre o direito à cidade de forma interessante.

 

 

A urbe. Revista Brasileira de Gestão Urbana, editada pelo Programa de Pós-Graduação em Gestão Urbana (PPGTU/PUCPR), tem buscado caminhos para ampliar a articulação e a difusão de suas pesquisas nos últimos anos. Um exemplo é o podcast Ningún Lunes Sin Pensar, que teve início há uma década (2016) como um encontro entre pesquisadores latino-americanos para discutir gestão urbana e urbanismo contemporâneo, expandiu-se para o audiovisual e conta com três recentes temporadas produzidas: Insurgências urbanas e direito à cidade (2021); Dados, ativismos e cidades (2023) e; Mulheres, cidades, territórios (2024). O alcance proporcionado por esse formato, diferentemente de um evento presencial, limitado aos participantes presentes no momento da realização, circula em um ecossistema digital mais amplo, permitindo que estudantes e interessados de diferentes lugares acessem os debates quando quiserem e quantas vezes desejarem.

Experiências como essa também incentivaram a urbe a expandir seu alcance por meio dessa estratégia de comunicação, reforçando a ideia de que um periódico científico não precisa, e tampouco deve permanecer como uma ilha de conhecimento. Nasce, assim, o podcast Voces de la Urbe, concebido como uma extensão da revista e dedicado a ampliar a circulação dos temas discutidos nos artigos publicados. A proposta é fortalecer o impacto social dessas publicações ao falar diferentes línguas e ocupar diferentes plataformas.

O nome do podcast vem da ideia de tornar audíveis as múltiplas vozes que atravessam o debate urbano contemporâneo. A cidade, afinal, não se expressa por meio de uma única narrativa, sendo composta por experiências, conflitos, percepções e interpretações diversas que se manifestam tanto na produção acadêmica quanto nas vivências cotidianas de seus habitantes. Diante disso, o projeto busca enfatizar a pluralidade de perspectivas, reunindo pesquisadores de diferentes áreas e trajetórias para discutir temas que atravessam os estudos urbanos. A escolha do espanhol também dialoga com a tradição latino-americana da revista e com a rede de interlocutores que historicamente compõem o campo da gestão urbana na região, reforçando a intenção de construir um espaço de circulação ampliada do conhecimento.

O podcast acompanhará alguns dos debates recorrentes nas publicações da urbe, que em 2026 chega ao seu volume 18, reunindo autores(as) de diferentes áreas do conhecimento para conversas que coloquem em diálogo pesquisas recentes e temas relevantes para os estudos urbanos. Considerando o fluxo contínuo da revista, os episódios buscarão refletir essa diversidade temática, explorando diferentes perspectivas presentes nas edições. No primeiro episódio, a equipe editorial apresenta a revista, retoma brevemente sua história e introduz o podcast como formato complementar de disseminação do conhecimento científico.

Ficou interessado(a) em ouvir esse primeiro episódio? Procure por Voces de la Urbe na sua plataforma de áudio preferida ou acesse diretamente o Spotify pelo link: https://open.spotify.com/show/5PEYWmUWR9DdIroP9m8xkk

Links externos

Sur-Urbano

Prato Cheio

Ciência Suja 

Urbanidades

Caos Planejado

Voces de la urbe

The Rest is Science

BBC Inside Science

Ningún Lunes Sin Pensar

New Books in Urban Studies

urbe. Revista Brasileira de Gestão Urbana – SciELO

urbe. Revista Brasileira de Gestão Urbana – Redes Sociais: Facebook | X | Instagram

Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) – Redes Sociais: Facebook | X | Instagram

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

JAZAR, M.M. and KALINOSKI, R. Pontes de contextualização e decodificações possíveis para divulgação científica [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2026 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2026/05/07/pontes-de-contextualizacao-e-decodificacoes-possiveis-para-divulgacao-cientifica/

 

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