Marcelo de Souza Bispo, professor associado da Universidade Federal da Paraíba – UFPB, João Pessoa, PB, Brasil.
Nos últimos anos, a ciência aberta tem se consolidado como um dos principais movimentos de transformação da produção científica, defendendo maior acesso ao conhecimento, transparência nos processos de pesquisa e possibilidade de replicação dos estudos. No entanto, esse avanço também tem suscitado questionamentos importantes: até que ponto a adoção de um modelo único de ciência aberta contribui, de fato, para a inclusão e a democratização do conhecimento?
É a partir dessa inquietação que o artigo A impossibilidade da ciência aberta sem alteridade e pluralidade epistêmica, publicado pela Revista de Administração Contemporânea (vol. 26, no. 02, 2022) propõe uma análise crítica dos fundamentos da ciência aberta, evidenciando que grande parte do debate tem sido orientada por pressupostos positivistas que tendem a universalizar formas específicas de produção do conhecimento. Ao examinar seus três pilares centrais (acesso aberto, transparência e reprodutibilidade), o estudo argumenta que a aplicação indiscriminada desses princípios pode desconsiderar as particularidades epistemológicas e metodológicas das diferentes áreas científicas.
Um dos principais pontos discutidos diz respeito à transparência e à abertura de dados. Embora frequentemente associadas à ética na pesquisa, essas práticas podem acarretar implicações complexas, especialmente em estudos qualitativos ou que abordam temas sensíveis, como violência, assédio ou corrupção. Nesses casos, a exposição irrestrita de dados pode não apenas comprometer os participantes da pesquisa, mas também colocar em risco os próprios pesquisadores, o que revela que a transparência não pode ser tratada como um princípio absoluto.

Imagem: K. Heyho Visual via Unsplash
De modo semelhante, a valorização da replicabilidade e da reprodutibilidade, frequentemente entendidas como critérios universais de rigor científico, é questionada no artigo. Tais critérios estão historicamente associados a abordagens positivistas e nem sempre são compatíveis com outras formas de produção de conhecimento, especialmente nas ciências sociais e humanas, nas quais a contextualidade, a interpretação e a singularidade dos fenômenos são centrais.
Diante desse cenário, o estudo defende que a ciência aberta precisa ser repensada a partir do princípio da alteridade. Isso implica reconhecer que diferentes campos científicos operam com lógicas próprias e que a pluralidade epistêmica não é um problema a ser corrigido, mas uma condição fundamental para o avanço do conhecimento. Ao ignorar essa diversidade, a ciência aberta corre o risco de se tornar paradoxalmente excludente, ao privilegiar determinados paradigmas em detrimento de outros.
Mais do que rejeitar a ciência aberta, o artigo propõe ampliar o debate sobre seus fundamentos e práticas, a fim de construir um modelo que seja, de fato, inclusivo. O desafio colocado é evitar que iniciativas voltadas à democratização do conhecimento acabem reforçando hierarquias epistemológicas já existentes, limitando as possibilidades de produção científica e reduzindo a diversidade de perspectivas que caracterizam o campo científico contemporâneo.
Para ler o artigo, acesse
BISPO, M.S. A impossibilidade da ciência aberta sem alteridade e pluralidade epistêmica. Revista de Administração Contemporânea [online]. 2022, vol. 26, no. 2, e210246 [viewed 17 June 2026]. https://doi.org/10.1590/1982-7849rac2022210246.por. Available from: https://www.scielo.br/j/rac/a/jJx9QTHBJ5Fj6pjKPBJdNXb/
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