Fazendo o conhecimento florescer, da Ciência Aberta à Ciência Responsável

Denise Fleck, Professora titular de Gestão Estratégica e Estudos Organizacionais, do Instituto COPPEAD de Administração (UFRJ), Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Logo da Revista de Administração ContemporâneaO artigo Ciência Aberta e Ciência Responsável, publicado na Revista De Administração Contemporânea (vol. 30, no. 1, 2026), discute os benefícios e disfunções da ciência aberta, sugerindo como mitigá-las pela prática da ciência responsável. Na origem da reflexão de que trata o artigo encontra-se uma questão de ordem prática vivenciada pelas autoras recentemente – localizar um instrumento utilizado em um estudo publicado – evidenciou o estado precário de um dos pilares da ciência aberta, a transparência no fazer científico. É fato que a prática da ciência aberta pode reduzir a incidência de comportamentos reprováveis que podem prejudicar a legitimidade da ciência perante a sociedade.

Por outro lado, a ênfase em padronização de procedimentos pode se tornar disfuncional inibindo o atendimento de necessidades, demandas e expectativas da sociedade pela via da pesquisa científica. Em suma, a ciência aberta exibe uma natureza dual, tal qual Fleck (2026) atribui a sistemas organizacionais. Mantendo que a ciência aberta é necessária, mas não é suficiente, o artigo convida a pensar sobre o imperativo da ciência responsável como forma de mitigar os efeitos adversos que a prática da ciência aberta pode produzir.

Conceituando a ciência como um dos sistemas que compõem a sociedade (Roth, 2021) e com os quais compete por recursos, prestígio e legitimidade social, o artigo sustenta que o crescimento e continuidade das atividades científicas dependem da habilidade destas em criar genuíno valor para os membros da sociedade que as abriga e em adquirir e manter sua legitimidade perante a sociedade.

Se, por um lado, são inegáveis as contribuições que a ciência tem trazido para o ser humano, por outro lado, autores tais como Rogers & Limongi (2025) têm apontado desafios e tensões na implementação da ciência aberta que pratique a transparência, o compartilhamento e a replicação, podendo levar a uma danosa crise de credibilidade nos resultados de pesquisa, conforme Bergh, Sharp, Aguinis & Li (2017) apuraram. A se manter tal estado de coisas, um processo de deterioração da legitimidade da atividade científica pode se instaurar, levando a um expressivo declínio do campo científico, indicam as autoras. Tal ameaça é tão mais preocupante quando se considera a natureza multifacetada, multinível e complexa dos fenômenos organizacionais.

 

 

Neutralizar tal ameaça, argumentam as autoras, requer evitar o caminho autodestrutivo pela prática da ciência responsável. Isto compreende adotar os 3 princípios da ciência aberta sempre que possível, reconhecendo, porém, as limitações inerentes a uma padronização irrestrita dos mesmos. Além disso, a prática da ciência responsável inclui a observância de três requisitos propostos por Fleck (2026) – renovação da ciência para se manter relevante perante a sociedade; fomento da integridade do campo científico promovendo a sinergia entre seus membros e o comportamento ético dos mesmos; e geração de folga (slack) de recursos para promover a renovação e a integridade do campo.

A conformidade absoluta a padrões epistemológicos e metodológicos pode impedir o cumprimento dos três requisitos, explicam as autoras. A adoção cega e tais padrões pode afastar a produção científica das necessidades, demandas e expectativas da sociedade e como consequência, comprometer a capacidade de gerar valor para a sociedade, se manter relevante e produzir a renovação do saber. A promoção de homogeneidade inadequada no campo não cria valor efetivo, prejudica a atração de talentos humanos, a captação de recursos e, em consequência a geração de folga, bem como não promove sinergia entre membros do campo científico, prejudicando o cumprimento do requisito de integridade.

Concluem as autoras que o cumprimento dos requisitos de renovação e de integridade pode se dar envidando esforços de combinação de diversas abordagens de pesquisa. Com isso, pode-se promover a produção de novos conhecimentos sobre fenômenos organizacionais, bem como fortalecer os vínculos construtivos entre pesquisadores especializados e entre seus respectivos grupos de pesquisa.

Sob esta ótica, eficiência e produtividade podem adquirir um caráter qualitativo associado à construção de pontes entre diferentes perspectivas de pesquisa com o fito de gerar resultados percebidos como valiosos por atores sociais situados para além das fronteiras do campo científico. A parceria estabelecida pelas autoras na confecção do artigo pode exemplificar a construção de tais pontes entre saberes de diferentes tradições, tendo em vista os idiossincráticos repertórios de pesquisa de cada uma, que compreendem no todo os métodos hipotético-dedutivo, indutivo e abdutivo, estudos de variância e processo, e diferentes níveis de análise e horizontes de tempo. Finalmente, alertam as autoras, é imperativo criar condições de tempo, recursos e espaço para que os pesquisadores possam de fato inovar e questionar, em vez de apenas reproduzir práticas institucionalizadas.

 

Para ler o artigo, acesse

FURTADO, L., FLECK, D. and CHIMENTI, P. Ciência Aberta e Ciência Responsável. Revista De Administração Contemporânea [online]. 2026, vol. 30, no. 1, e260041 [viewed 16 June 2026]. https://doi.org/10.1590/1982-7849rac2026260041.en. Available from: https://www.scielo.br/j/rac/a/tFBjZnQFg4RHKkhPyZWmmRp/

Referências

BERGH, D.D., et al. Is there a credibility crisis in management research? Evidence on the reproducibility of study findings. Academy of Management Learning Education [online]. 2017, vol. 16, no. 4, pp. 483–502 [viewed 16 june 2026]. https://doi.org/10.1177/1476127017701076. Available from: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/1476127017701076

FLECK, D. Navigating the challenges of growth: In search of organizational health from a dualistic perspective. Cheltenham: Edward Elgar Publishing, 2026.

ROGERS, P. and LIMONGI, R. Open Science in Three Acts: Foundations, Practice, and Implementation-Third Act. Brazilian Administration Review [online]. 2025, vol. 22, no. 3, pp. 1-8 [viewed 16 june 2026]. https://doi.org/10.1590/1807-7692bar2025250162. Available from: https://bar.anpad.org.br/index.php/bar/article/view/722 

ROTH, S. The great reset of management and organization theory. A European perspective. European Management Journal [online]. 2021, vol. 39, no. 5, pp. 538-544 [viewed 16 June 2026]. https://doi.org/10.1016/j.emj.2021.05.005  Available from: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0263237321000736

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Como citar este post [ISO 690/2010]:

FLECK, D. Fazendo o conhecimento florescer, da Ciência Aberta à Ciência Responsável [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2026 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2026/06/16/fazendo-o-conhecimento-florescer-da-ciencia-aberta-a-ciencia-responsavel/

 

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