Edição especial da RAC mapeia como a Inteligência Artificial está redesenhando a pesquisa em administração

Ricardo Limongi, professor associado da Universidade Federal de Goiás (UFG), coordenador do Laboratório de Inteligência Híbrida (HI-Lab), Goiânia, GO, Brasil.

Logo da Revista de Administração ContemporâneaMachine learning, processamento de linguagem natural e inteligência artificial generativa estão deixando de ser apenas objetos de estudo para se tornarem instrumentos metodológicos na pesquisa em administração. Essa dupla condição — ferramenta e objeto — é o fio condutor da edição especial O uso da inteligência artificial em métodos de pesquisa em administração, publicada na Revista de Administração Contemporânea (RAC, vol. 29, n. 6, 2025), que reúne artigos com contribuições de pesquisadores do Brasil, da Índia e do Chile. O editorial que apresenta a edição é assinado por Ricardo Limongi (UFG), Jonny Mateus Rodrigues (FGV), Ruchi Gupta (University of Delhi) e Enrique Marinao Artigas (Universidad de Santiago de Chile).

Tradicionalmente, a pesquisa em administração se apoiou em ferramentas consolidadas: softwares de codificação manual para análise qualitativa, pacotes estatísticos operados integralmente por pesquisadores, revisões de literatura construídas artigo a artigo. Esse repertório, embora robusto, esbarra em limitações de escala, de velocidade e de capacidade de processamento. Com o avanço da IA, o cenário está mudando: algoritmos agora auxiliam na codificação de dados qualitativos, validam calibrações em análises comparativas e identificam padrões em grandes volumes de documentos corporativos.

Os artigos da edição especial revelam o alcance dessa transição. Marcolin, Behr, Silveira e Giovannetti (2025) compararam os resultados obtidos por analistas humanos, IA tradicional (modelagem de tópicos) e IA generativa na análise qualitativa de dados sobre a participação feminina na indústria de games — tema alinhado ao ODS 5, de igualdade de gênero. Os achados mostram que a IA generativa oferece vantagens significativas em velocidade e escalabilidade, especialmente em metodologias dedutivas com rótulos de codificação predefinidos. Em outro estudo, pesquisadores analisaram 1.422 documentos dos cinco maiores bancos brasileiros, entre 2011 e 2022, utilizando ferramentas de IA para validar e calibrar os dados, numa abordagem que integra análise de conteúdo e análise qualitativa comparativa (QCA).

 

 

No entanto, a edição especial também revela que o laboratório pode ter mudado de endereço, mas não dispensou o pesquisador. Marcolin e colegas demonstram que analistas humanos ainda superam a IA generativa em profundidade interpretativa e em conexões teóricas. Omura e Francisco (2025), ao investigarem a delegação de decisões a sistemas inteligentes no contexto de contratação, encontraram uma preferência clara dos tomadores de decisão: humanos fazendo a escolha final, com a IA em papel de suporte. Os autores alertam para comportamentos de delegação excessiva ou insuficiente que podem comprometer os ganhos da tecnologia.

A dimensão aplicada da IA também ganha destaque. Panwar, Shetty e Shenoy (2025) apresentam uma revisão sistemática sobre técnicas de nudging baseadas em IA — como personalização, opções verdes por padrão, prova social e gamificação — que aumentam significativamente o engajamento em comportamentos de consumo sustentável nas plataformas de e-commerce. Essa contribuição conecta-se diretamente ao ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis) e ao ODS 13 (Ação climática), demonstrando como elementos sutis de design digital podem orientar escolhas sustentáveis sem comprometer a autonomia do consumidor.

“A IA representa simultaneamente uma ferramenta de pesquisa e um objeto de estudo que demanda atenção contínua da comunidade acadêmica em administração”, afirmam os editores da edição especial. A agenda futura identificada no editorial inclui lacunas como a governança internacional de IA, a predição de conflitos e crises humanitárias, o gap global de competências em IA e a necessidade de marcos regulatórios para tecnologias baseadas em inteligência artificial.

Em conjunto, os quatro artigos oferecem um panorama multifacetado: a IA está transformando abordagens tradicionais de investigação, desde a análise qualitativa até as revisões sistemáticas, passando por estratégias corporativas. Mas essa transformação não é isenta de tensões. Questões de ética, governança e integridade de pesquisa emergem como tema transversal, refletindo a maturidade crescente do campo ao reconhecer que o avanço tecnológico precisa ser acompanhado de reflexão crítica e responsabilidade.

Para ler o editorial, acesse

LIMONGI, R., et al. The Use of Artificial Intelligence in Management Research Methods. Journal of Contemporary Administration [online]. 2026, vol. 29, no. 6, e250509 [viewed 16 June 2026]. https://doi.org/10.1590/1982-7849rac2025250509.en. Available from: https://doi.org/10.1590/1982-7849rac2025250509.en

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LIMONGI, R. Edição especial da RAC mapeia como a Inteligência Artificial está redesenhando a pesquisa em administração [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2026 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2026/06/16/edicao-especial-da-rac-mapeia-como-a-inteligencia-artificial-esta-redesenhando-a-pesquisa-em-administracao/

 

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