Veredas da razão e da loucura em Machado e Rosa

Tiago Seminatti, Assistente Editorial da Machado de Assis em linha – revista eletrônica de estudos machadianos, São Paulo, SP, Brasil

mael_logoYudith Rosenbaum, professora de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo, confronta o conto “O Alienista”, de Machado de Assis, com o conto “Darandina”, de Guimarães Rosa, em artigo publicado na Machado de Assis em Linha número 19, apresentando elementos que apontam para um diálogo explícito que o texto rosiano estabeleceria com o machadiano acerca dos limites, questionáveis, entre razão e loucura. Embora por mecanismos distintos, as duas narrativas desmascaram “os engodos e impasses da razão cientificista” (p. 94) e contrapõem “à dimensão cartesiana de sujeito unitário e consciente uma psique múltipla e contraditória” (p. 94).

No artigo, Rosenbaum recorre à psicanálise freudiana e aos estudos foucaultianos para realizar exame comparativo e crítico dos contos, mas sempre mantendo o texto ficcional no protagonismo da análise. A interpretação de “O Alienista” alcança profundidade ao articular a análise ficcional com a proposição presente em História da Loucura, de Michel Foucault, que estuda a marginalização da loucura no contexto do domínio burguês que ocorreu a partir do século XVIII: nesse período, a medicina passou a encarregar-se socialmente dos loucos, fornecendo a figura da “autoridade médica” (p. 97) como legitimador político da nova classe social. Contudo, Machado questiona tal autoridade ao colocar em cena um médico que tem seus “estratagemas teóricos” próximos às “próprias características da insânia que combate” (p. 98). É nesse ponto que o estudo de Freud sobre o doente Schreber serve para que a pesquisadora amplie o reconhecimento da problematização machadiana sobre as fronteiras entre a razão e a loucura, uma vez que no ensaio do psicanalista ocorreria uma aproximação entre “o quadro clínico analisado”, dotado de delírios e fantasias, com “a sua criação teórica” (p. 98).

Em seguida, o artigo parte para a análise de “Darandina”, de Guimarães Rosa. A pesquisadora, por meio de análise minuciosa do texto, mostra como o enredo mobiliza Igreja, Estado e psiquiatria na tentativa de garantir a ordem, embora a desordem entre tais autoridades seja constante. Especificamente sobre o ponto de vista médico, nota uma tentativa improdutiva de enquadramento da insanidade dentro de nomenclaturas formais, mas que beiram a insanidade.

Rosenbaum, referindo-se aos esclarecimentos do filósofo Peter Pál Pelbart, argumenta que a desrazão, percebida na época clássica como algo exterior ao homem, deixa de operar como mecanismo de alteridade a partir do surgimento da loucura enquanto fato social. Nesse sentido, no conto de Guimarães Rosa haveria um processo que vai do isolamento da desrazão na palmeira, com o insano apartado da comunidade, ao seu retorno à lucidez e ao convívio social, algo que possibilita problematizar a passagem entre ser ou não ser louco.

Deste modo, o estudo propõe uma relação entre o conto de Rosa e o de Machado, mas ressalta a diferença estilística entre os dois: enquanto o autor de “O Alienista” “transita pelo fio do pessimismo ao descartar qualquer lirismo na mente alucinada” (p. 100) e mantém sua linguagem sóbria, o autor mineiro, por sua vez, “abre perspectivas diversas sobre o caráter lunático de seu personagens” e “estremece” a sua linguagem ao empregar “neologismos, provérbios desmanchados e arcaísmos linguísticos” (p. 100).

Para ler o artigo, acesse

ROSENBAUM, Y. Machado de Assis e Guimarães Rosa: loucura e razão em “O alienista” e “Darandina”. Machado Assis Linha [online]. 2016, vol.9, n.19, pp.93-109, ISSN 1983-6821 [viewed 23 March 2017]. DOI: 10.1590/1983-682120169197. Available from: http://ref.scielo.org/df7my8.

Link externo

Machado de Assis em Linha – MAEL: http://www.scielo.br/mael/

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

SEMINATTI, T. Veredas da razão e da loucura em Machado e Rosa [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2017 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2017/03/31/veredas-da-razao-e-da-loucura-em-machado-e-rosa/

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Post Navigation